sexta-feira, 28 de outubro de 2016

EXTRAORDINÁRIO


Vai ficar um troço extraordinário, dizíamos a nós mesmos com a convicção explosiva das crianças. Tínhamos acabado de aprender o adjetivo. A ideia nos instigava a continuar. Uhuu! Demais! Já pensou como será quando terminarmos? Tudo vai ser diferente. Quero ver quem terá coragem de tratar a gente desse jeito de novo. É, vão nos respeitar! Os adultos vão nos respeitar. E não só eles. Aqueles folgados do colégio vão ajoelhar e beijar nossos tênis. Seremos famosos no mundo inteiro. É!

Nós passávamos o tempo todo trabalhando na ideia. Desenhávamos durante a aula de português, trocávamos bilhetes codificados na aula de geografia, matávamos a aula de química para não perder o fio da meada. Química era, na verdade, grego. E continua a ser. A professora de artes gostou da ideia e nos ajudou em algumas etapas, mas é claro que não revelamos para ela as minúcias. Os nossos segredos supersecretos. Não éramos crianças estúpidas assim. Aquele era o grande projeto das nossas vidas. Incrível! Gigante! Um troço extraordinário! O mundo inteiro ia ver, cada país de cada continente ouviria falar de nós. Apareceríamos na televisão! Nem mesmo uma guerra conseguiria nos impedir.

Só fazíamos uma pausa para a educação física. Porque, bom, a gente jogava bola, era divertido. E todo gênio precisa de um descanso mental. Após três ou quatro partidas na quadra da escola, reuníamos a turma novamente para planejar os passos seguintes. Ninguém poderia descobrir, então cuidávamos para afastar os espiões com bexigas cheias de água da privada. Era um planejamento complexo. Desenhávamos cada detalhe numa cartolina branca, que emendávamos nas demais e pendurávamos com fita crepe nas paredes do quartinho de bagunça do Cabeça. Os pais dele nunca entravam lá, só a faxineira, que era nossa cúmplice. Assim o projeto estaria seguro.

Não vou dizer que foram só maravilhas. Às vezes custávamos a chegar num acordo. As assembleias do conselho duravam horas. Houve também questões resolvidas no tapa. No par ou ímpar. No campeonato de pum. Cada assunto demandava um método específico, bolacha Maria e leite com chocolate.

No meio do processo o Biró se afastou por um tempo, disse que não queria mais saber daquilo, não concordava com o jeito como conduzíamos o projeto. Muita pressão, coitado. Nossas expectativas eram altas. Ele queria mudar de assunto, fazer algo diferente, para variar. Mas nós queríamos continuar, então ele tocou a campainha uns três dias depois, contou que seus pais iam se separar e retomou seu posto na missão. Vai ser um troço extraordinário, gritamos juntos para selar o pacto. Biró engoliu o choro. Seu papel era fundamental na execução do plano, ele era o mais alto da turma.

Dediquei as férias de julho daquele ano ao projeto. Meu pai procurava trabalho, e mesmo quando os amigos viajaram eu continuei empenhado. Achei bom fazer sozinho, era mais fácil quando não precisava debater cada detalhe com a turma ou decretar questão de ordem a cada cinco minutos porque o assunto descambava mais uma vez para as figurinhas raras do Campeonato Brasileiro. Eu conseguia até jogar videogame nas horas vagas. Porém meu desempenho era apenas razoável, com aquele monte de coisas me atazanando a cabeça. Seria melhor ficar com a ideia só para mim? Os outros me odiariam se eu ficasse famoso sozinho? Dariam uma surra? Quem precisa de amigos que batem nos outros amigos? Se eu não roubasse a ideia, eles continuariam meus amigos para sempre? Assim me esquecia por completo das tarefas da escola, o que minha mãe fez questão de sublinhar quando sentenciou o castigo. Tudo bem ficar sem televisão, tudo bem fazer toda a lição das férias em apenas três dias, era por uma boa causa. Eu estava trabalhando no grande projeto da minha vida. Um dia ela entenderia. O sacrifício valeria a pena.

Eu dizia que nem tudo eram flores. Nosso troço extraordinário sofreu uma concorrência desleal no segundo semestre escolar, quando parte da equipe trocou as figurinhas de futebol por meninas do colegial. Não conseguiam falar de outra coisa, as hipóteses eram diversas, ficou impossível manter o foco. Percebi na hora que vivíamos uma crise. Eu quis me adaptar, sem saber direito como, então chegaram as provas parciais, os jogos interclasses, a feira de ciências, as provas de fim de ano, a recuperação, o Natal. Foi difícil. Com a saúde bastante debilitada pelo excesso de inconvenientes, nosso troço extraordinário não sobreviveu às longas férias de verão.

Seria um negócio como nunca visto! Talvez nos faltasse experiência para gerenciar um empreendimento daquele porte; talvez faltasse maturidade, como meus pais repetiam a todo instante. Talvez o troço extraordinário fosse, enfim, um pouquinho impossível, mesmo para nós. Não sei. São tantos imprevistos que atravessam o caminho das ideias mais incríveis! De tanto desviar, em algum momento nos perdemos.

Como seria quando terminássemos? Eu sonhava com esse momento. Depois pensava apenas em terminar. Depois planejava fazer, nem que fosse um tantinho por dia. Até que eu só me dedicava a tarefas mais urgentes, estava imerso nos outros projetos que o mundo tinha preparado para mim. Não havia mais tempo para o nosso troço extraordinário. Impossível, eu dizia, agora não tenho a menor condição! Todas as pessoas iriam me respeitar. Eu seria reconhecido, tudo ficaria diferente. Ninguém me trataria desse jeito. Nada seria banal, tudo seria grandioso. Muito bem, o que aconteceu? Sinceramente, não sei. Hoje é difícil explicar.

sábado, 8 de outubro de 2016

VOO NO ZOO


Entre escaravelhos, cronópios e bumbam meus bois, entre macunaímas, utopias e botos cor de rosa, havia aquela girafinha. Sim, eu a via. E ela voava! Baixo para uma girafa, alto o bastante para uma girafinha. Toda aquela liberdade frouxa nos céus! Coisa bonita de se ver, a girafinha. Depois pousava no galho. Bem ali, naquele galho, é. Entre gatos pardos e folhas de relva, entre nenúfares e tritões. Tantas árvores frondosas dentro da sua jaula e ela preferia a menor, mais próxima das grades de aço, de onde esticava a cabeça e comia amendoins nas mãos dos visitantes. Toda a gente de bem. Os cidadãos e citadinhos. Tinha o jabuti, o rinosoro, o macaco prego. Tinha a girafinha, coisa linda! Voava, pousava, comia os amendoins. Mascava junto uns dedinhos, os visitantes nem faziam questão, a gente boa. Croque croque, monsieur; croque croque, madame; croque como o crocodilo faziam falanges e metacarpos na mandíbula da girafinha. Que língua enorme!, admiravam-se os puritanos. Que esfomeadinha! Quando a família notava os cotoquinhos restantes na mão direita do papai, na mão esquerda da mamãe, nas mãos conjuntadas dos filhotinhos, todos achavam graça, riam das travessuras da girafinha. Ela voava de alegria. Passava o dia a exercitar sua liberdade assistida no zoo-safári. As famílias, fiéis, voltavam sempre. Pois adoravam esticar amendoins para dentro da jaula e alimentar a girafinha, mesmo que a maioria caísse por entre os dedos que já não existiam. A girafinha tinha um longo pescoço para alcançá-los no chão. A cada dia sua vivacidade era maior e maior. A cada dia voava mais e mais alto, mais alto do que as árvores, mais alto do que as grades de aço. O que nos deixou senão o vazio?

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

PARTO



Close nos olhos de uma menina (ver cena inicial do filme Kill Bill vol. 1). O plano se abre e temos um revólver apontado para a cabeça dela. Calibre .38. Tanto a arma quanto a menina são as mesmas que aparecerão no final da história. Há um disparo. Miolos coloridos voam.

O nascimento traz muitas mortes consigo. Talvez o nascimento seja a morte em si. Sua essência. É bobagem falar de essência, eu sei. 'Cause we're living in a material world / And I am a material girl. É bobagem falar de mundo, eu sei. É bobagem falar qualquer coisa. Falar sobre. De cima. Mas há o inominável e falar é o que nos resta. Linguar, linguajar. É tudo o que nos resta. O ser da linguagem. Então falamos. É a nossa essência. Somos enquanto falamos. Falo, logo existo. A voz marca o nascimento. Choramos. A essência do nascimento, a largada, o início da caminhada que leva ao desconhecido. Do lugar algum ao lugar nenhum. Do pó ao pó. Pode dizer o que quiser, pode explicar conforme crê. A morte. Conheço só de nome. Não há nada além. Nem mesmo pó. Há apenas discurso. Discursar é o que nos resta.

Na ocasião de um nascimento, naquele instante imensurável, naquele momento presente que quando se percebe já é passado, mais veloz do que o disparo de um revólver e mais demorado do que tudo o que já aconteceu na história do universo, no primeiro e derradeiro instante, na passagem da vida à morte, ali, exatamente ali, morre toda a pureza das pessoas. Todo o ideal. Toda a perfeição que poderia um dia existir. A utopia? Morre. Inteirinha. Naquele. Exato. Instante. O que nasce é uma farsa. É uma ficção. Uma historinha para boi dormir. Acredite, sei o que estou falando. A fecundação é o primeiro e o último ato verdadeiramente espontâneo das nossas vidas. Dali para frente somos manipulados. Somos levados a acreditar em liberdade. Justiça. Segurança. Certeza. Verdade. Moradia. Tudo ilusão. Tudo ficção. Tudo discursinho. Até quando? Quer saber? Não sei. Sei apenas que, quando o espermatozoide viola o óvulo, a inocência se esvai. Morre. Um morto que jamais choramos. Todo o resto é vazio.

BAM! A menina puxa o gatilho e seus miolos são coloridos. Que lindo. Que poesia. Que fofo.

A manipulação da vida é premeditada. Sim, premeditada por todos os que já morreram um dia. São eles que tocam nosso réquiem. Se há música, há a música dos sons da rua. A crueza do real. A nudez. A surdez potencial. Interesseira. Ignorante. Manipuladorazinha vil e calculista.

Admirável, senhores, admirável. Isto é tudo? É isto um homem?

Os miolos coloridos. Ai, muito lindo! Vejo ali... Veja bem:
As flores, os sonhos, os sorrisos.
Os abraços. Os beijos. Os carinhos e as carícias.
A grama verdinha, o céu azul, a casinha de chaminé. O arco-íris.
Nos miolos coloridos. Vejo isso tudo. Massa cinzenta não. Massinha de modelar.
Tudo vaza pelo buraco da bala. A cova aberta na cabeça da menininha.
Preste atenção porque essa mesma menina vai aparecer de novo no final da história!
Sua cova pode acolher um cadáver ou uma semente, ainda não sabemos. Aliás, eu sei. É você que ainda não sabe.
Sua inocência se esvai pelo buraco aberto, cai como a chuva. Torrenciais miolinhos coloridos. Tudo isso vaza e abre espaço para o preconceito, o pressuposto, o dispositivo, o dogma, a verdade, a certeza, a máquina, a opinião, a bobagem toda, inteira, imensa. Blá blá blá blá blá blá blá blá.

Sente o cheiro? Acre? É pólvora. Enxofre. Fogo. Passa o fogo e resta o buraco. Cheio de lixo. Cheio de quê? Restos, sobras, resquícios de um passado que nunca existiu. Excesso de informação. Toda essa porcalheira de pensamentos produzidos pelos demais. Pensamentos inventados, imaginação, fantasia. Bobagem demais. Demais, tenho demais. Vendo. Vendo pensamento, único dono. Pouco usado. Cheio de preconceito. Cheio de pólvora. Sente o cheiro? Snif, snif. Sniiif.

Sim! Quem se lembra das cores do arco-íris? Vermelho sangue. Azul calcinha. Púrpura... Fúcsia?

(Quem se esquece do pote de ouro?)

Fúcsia você! BAM! Sua vida foi concebida. Pronto, feito. Aceite-a. Leve-a daqui. Suma. Seus miolos foram recuperados. Toda a massa. Cinzenta. Lúgubre, paciência. É o que resta da sua inocência. Culpado! Sim, senhor. É tudo questão de culpa. Quem leva? Você aí, leve esta culpa para longe de mim. Não adianta chorar.

Parabéns, você acaba de nascer. Nunca mais será o mesmo.
Você tem um nome: Odisseu.
Quem?
Ninguém.

Alto! Quem vem lá? Quem está aí?
Eu.
Eu quem?
Ninguém.
Ninguém.
Ninguém.

(esboço de prólogo para o romance Ninguém, que ainda está em processo de criação)

sábado, 1 de outubro de 2016

O NÃO DITO

O que está fora de quadro é quase mais importante do que aquilo que a tela exibe, diz o cineasta alemão Wim Wenders no documentário Janela da Alma. O ato de enquadrar uma cena consiste em excluir elementos visuais. A cada enquadramento o diretor decide o que faz parte da história e o que não deve fazer. Algo similar ocorre além do cinema. Nestes tempos de superexposição de imagens é importante abrir os olhos para o que é omitido das histórias que nos contam. Nos veículos de comunicação, nas redes sociais, nos discursos oficiais e nas fofocas do dia a dia, o que é propositalmente não dito? Quem faz essa seleção e com quais critérios? Quem dirige a nossa vida?

A perspectiva pela qual olhamos um acontecimento costuma vir pré-determinada. Pois quase sempre ocorre que não estivemos lá, não vimos com nossos próprios olhos. O instante decisivo é oferecido depois, junto de uma legenda sobre o que pensar a respeito. Nossas opiniões, em geral, se formam e se apoiam nesse terreno movediço. Porém com raras exceções assumimos a sua fragilidade, parcialidade e inconsistência. Nós as levamos a sério e as defendemos com unhas e dentes.

Enquadramento original feito pela fotógrafa Nilüfer Demir

A fotografia do menino curdo afogado numa praia turca após o naufrágio do bote em que se refugiara com outros imigrantes foi manipulada pela imprensa. Em primeiro lugar porque havia diversos registros da tragédia, feitos por uma repórter que passava pelo local, porém somente uma imagem foi amplamente divulgada. Ela foi editada para publicação: além da criança deitada de barriga para baixo na areia e do policial que a resgatou, o enquadramento original mostra outro policial ao lado, com câmera fotográfica na mão. Ao fundo há dois pescadores, possivelmente turistas. Vemos ainda um furgão passando na estrada. Tudo isso foi deixado fora da cena para enfatizar o drama dos refugiados, que acabou simbolizado no mundo inteiro por aquele garotinho.

O cotidiano da praia foi excluído do quadro em prol do que Roland Barthes chamaria de punctum: o detalhe que, quando percebido, sobressai ao plano geral, salta aos olhos e nos afeta. Ele se expande por toda a foto e para além dela, transforma o entorno, a vida do espectador, o passado, o presente e o futuro. No livro A Câmara Clara, o autor fala ainda de outra natureza desse pungir, que não está necessariamente atrelada à forma, mas à intensidade manifesta no tempo que nos faz estremecer por uma catástrofe já ocorrida.

Edição reproduzida pelo NY Times (e pela imprensa em geral)

Não existe foto sem edição. Desde o enquadramento até a publicação e o seu compartilhamento, escolhas são feitas. A imagem original não é mais verdadeira do que a editada, são apenas narrativas diferentes. O que os veículos de comunicação quiseram, no caso daquela fotografia, foi enfatizar o horror do acontecimento eliminando tudo o que havia de banal ao redor. O resultado é praticamente todo um punctum, que jamais passaria despercebido. As consequências da manipulação foram positivas sob muitos aspectos: houve sensibilização dos discursos sobre a questão dos refugiados, ações sociais de auxílio e mobilização política na Europa. Além de que ficou impossível para o resto do mundo ignorar a situação calamitosa da região.

A manipulação que se faz no sentido inverso é mais perigosa: quando o comunicador enfatiza o banal com objetivo de ignorar o que o acontecimento tem de grave. Somos ludibriados o tempo inteiro por esse perverso modo de produzir discurso nas mais variadas instâncias da vida. Precisamos desviar do evidente e nos perguntar: que parte da história foi deixada de fora? Por qual motivo, com qual interesse? Em nome de quê? Talvez o que não foi mostrado tenha mais a dizer do que a informação explicitada que mantém nossos olhos ocupados.

Barthes alerta também para o perigo da fotografia tida como lembrança. Para ele, trata-se de uma contralembrança, uma vez que apaga o antes e o depois, reduzindo o vivido a uma imagem estática. “A fotografia é violenta”, ele diz. “Não porque mostra violências, mas porque a cada vez enche de força a vista e porque nela nada pode se recusar nem se transformar”.

Barthes sugere que existe um grau de veracidade nas fotografias, o qual cristaliza os fluxos de significação do assunto e as pulsações próprias da vida que o contempla. As imagens estão quase sempre tentando nos dar uma prova factual. Mas elas são ilusões, artifícios, ficções. Podem corresponder a um referente na realidade. Mas na prática oferecem uma narrativa que compõe nossa subjetividade sem que a percebamos.

O artista chinês Ai Weiwei reproduz a cena trágica

Para Wim Wenders, uma vez olhada, a imagem permanecerá viva em nós. Concordo. E acrescentaria que, do mesmo modo, o que não foi mostrado ou o que recusamos a ver permanecerá a nos assombrar.

A demasia de imagens na atualidade modifica a todo instante a imagem que produzimos de nós mesmos. Por isso é necessário ter cuidado e querer saber: em que elas estão nos transformando?

Todos nós temos uma câmera no bolso, somos potenciais fotógrafos em tempo integral. Também estamos sendo filmados e temos que sorrir, atuar, obedecer às regras da vigilância. Alimentamos com fartura a alta profusão de imagens que circulam no contemporâneo. Enquanto as artes da fotografia e do cinema tentam produzir alguma resistência. Em vez de mais imagens, deveriam criar não imagens? Contrafotografias? Antiexposições? Como raspar o clichê e dar a ver outras possibilidades visuais? Como perceber o que foi suprimido daquela verdade em que baseamos as nossas opiniões mais rígidas?