sexta-feira, 20 de março de 2009

DAS COISAS NASCEM COISAS

Esta é, sem dúvida, uma das minhas crônicas favoritas. Gosto de tudo nela. A começar pelo título, que tirei de um livro sobre design e ao qual pude dar outro significado ao longo do texto. Gosto também das lembranças que ela retoma; do ocorrido no sebo e do prazer que tive ao presentear os donos com a história publicada no jornal.
Sua repercussão foi bastante positiva. Vários leitores me escreveram em resposta e, inclusive, fui convidado para publicá-la na revista Linha Mestra, uma interessante fonte de cultura na internet. Quem quiser conhecê-la, pode partir deste link, que leva diretamente ao meu texto: http://www.alb.com.br/revistas/revista_11/ret_11.asp. Ou, ainda, acessá-la por meio do site da Associação de Leitura do Brasil: http://www.alb.com.br.


Muito mais do que um amontoado de volumes, minha biblioteca significa, para mim, uma reunião de memórias. Isso porque cada livro na prateleira tem uma história, que extravasa linhas, palavras e idéias para influenciar minha vida à sua maneira. Quase sempre me recordo de quando o comprei, dos motivos que me levaram a isso e da sensação que ele deixou. Cada pessoa coleciona seu passado de um jeito. Acho que o meu é esse. Quando olho para a biblioteca que toma conta do quarto, estou olhando para dentro de mim mesmo, onde cada livro representa uma experiência de vida.

Sou um assíduo freqüentador de sebos. Descobri-os na época da faculdade e desde então tenho comprado muita coisa neles. Não nego que os livros novos têm seus atrativos, como o cheiro gostoso de papel recém-saído da gráfica; mas os usados possuem um estilo todo especial, um tipo de “aura” própria que lhes foi sendo imbuída pelos antigos donos. Quem é apaixonado por leitura deve compreender. Gosto de pegá-los com cuidado, observar os sinais deixados em suas páginas e tentar descobrir a quem pertenceu. É emocionante ter em mãos um pedaço da história de alguém. Afinal, como ele veio parar aqui?

Algo bastante curioso aconteceu nesta semana. Perto de onde trabalho, existe uma porção de bons sebos, que costumo visitar na hora do almoço. Para meu deleite, um novo acabara de abrir as portas e, naquele mesmo instante, fui xeretar.

Já na vitrine vi um livro de arte, sobre o movimento impressionista, que estive namorando em outra loja vizinha, mas que não comprei porque custava caro demais. De qualquer modo, por curiosidade, perguntei o preço: 45 reais. Fiquei espantado. Era 25% do valor da tabela, por um livro que sequer tinha sido folheado! Uma grana que provavelmente me faria falta, nesta época de vacas magras, mas não podia deixar uma oportunidade como aquela passar e me propus a levá-lo. O ruim é que eu tinha no bolso apenas o troco do almoço. Assim, reservei o volume para o dia seguinte.

Acontece que passei por lá na mesma noite, quando caminhava para o ponto de ônibus, e me deparei com a loja aberta. Entrei e disse o que viera buscar. O vendedor ficou sem graça, pediu desculpas e explicou que errara o preço – o livro custava 145 reais, muito além das minhas possibilidades. Fui embora decepcionado.

Minha namorada, especialista em marketing, comentou que, uma vez dito o preço, o vendedor deveria mantê-lo. Também achei ser o correto. Porém, fiquei pensando que, se soubesse do erro dele, jamais conseguiria pagar mais barato e deixá-lo no prejuízo.

Pois ontem à noite, três dias depois, encontrei o sebo aberto novamente. O vendedor estava na porta e me chamou a atenção, estendeu o livro e disse: “Ainda está com a grana? É seu.” Tentei explicar que não queria prejudicá-lo, mas ele foi enfático: “Eu já havia dado minha palavra e não conseguiria dormir se não vendesse o livro para você. Faça bom proveito.” Fiquei sem saber o que falar. Agradeci, paguei os 45 reais e fui embora.

A dignidade do vendedor me fez lembrar de uma outra história que meu pai costuma contar, de quando se confundiu e colocou o dinheiro recebido por uma venda na sacola da cliente, junto com o produto comprado.

Era uma senhora muito humilde, que freqüentava a loja uma vez por mês e cujo sacrifício feito em cada compra ficava evidente. Ele só soube do erro quando, no mês seguinte, a cliente quis lhe devolver a quantia. Ela ainda se desculpou por não ter ido antes e explicou que não tinha sido possível. Meu pai tem certeza de que, entre as duas visitas, a senhorinha passou por dificuldades, mas não tocou no dinheiro que não lhe pertencia. É emocionante vê-lo contar. Em recompensa pela honestidade, ele se recusou a receber o valor, fazendo questão que ficasse com ela.

Essas e várias outras histórias muito me ensinaram. Histórias que ficaram enraizadas em meu caráter e que, aos pouquinhos, dão seus frutos, transformando meus modos de pensar e de agir.

Ontem, quando cheguei em casa com o livro na mão, pretendia registrar em suas primeiras páginas o ocorrido no sebo. Porém, logo me dei conta de que isso não seria necessário. Percebi que, ao olhar para ele em uma das prateleiras de minha biblioteca, vou sempre trazer à tona tudo o que aprendi antes mesmo de abri-lo.

Então transformei o registro numa crônica. Fiquei repassando o episódio e tentando colocar em palavras o que ele significou para mim. Nesse sentido, os livros da biblioteca servem para ajudar a manter vivas em minha memória algumas das pessoas que conheço por aí e também suas histórias. Acho incrível como apenas umas poucas sementinhas podem fazer brotarem grandes experiências de vida! Pois olho para meus livros, penso no vendedor do sebo, na cliente de meu pai e, num momento de profunda introspecção, fico perguntando a mim mesmo: “O que você tem plantado ultimamente?”

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