sexta-feira, 15 de abril de 2016

A ESCRITA CONTRAPRODUTIVA


O que significa escrever nestes tempos de alta tecnologia de comunicação, de imensa produção e consumo? Quando mal terminamos a mensagem e o destinatário já está a ler? Quando o leitor, cada vez mais ansioso, deseja significados e sentidos prontos, bem formatados, fáceis de reconhecer, entender e de concordar com eles? O que significa escrever para além das palavras, dobrando a língua, torcendo a moral? Escrever como ato de resistência e/ou dissidência, a inventar não-lugares? Escrever sem reproduzir discursos prontos, ideologias, preconceitos, verticalidades, pretensas verdades. Uma escrita que seja também ato político; que provoque, pela experiência estética, certa perturbação da ordem, certa reformulação das leituras e dos leitores. Que pode ser delicada; um toque sutil. Não necessariamente uma escrita combativa e muito menos persuasiva; mas sim uma que dissolva, areje, desconstrua; que seja dissonante e dissensual. Qual é o lugar dessa escrita hoje, no país em que vivemos, na situação que enfrentamos?

O escritor que percorre caminho tão inseguro está por fora, não está com nada. Está de parabéns. Seu trabalho não presta, seja ficcional ou não; o que significa que não alimenta o maquinário produtivo deste sistema de dominação e submissão, não dá corda à própria forca. Pois inventar um mundo de palavras implica, ao mesmo tempo, inventar o "mundo real" por meio das palavras.

Que seja descoberto em camadas, cada vez mais fundo; que não dite regras nem explique nada, não estabeleça certo ou errado. Um convite ao diálogo. Que pergunte mais e responda menos, incentivando a vontade de questionar e refletir. Que não subjugue nem menospreze o leitor, mas em vez disso o desloque do conforto da luz na direção das sombras desconhecidas. Que permita a ele, nessa escuridão sem fim, sonhar com horizontes mais encantadores.

Em entrevista ao jornal Rascunho, publicada na edição de fevereiro deste ano, Gonçalo M. Tavares fala da protagonista de seu romance Uma menina está perdida no seu século à procura do pai. Chama-se Hanna e é portadora da síndrome de Down. Tida como frágil pelos demais personagens, revela uma potência inesperada. O autor explica: "Essa ideia de que a fraqueza pode gerar novos acontecimentos me parece importante. Nós estamos muito habituados a pensar que é a força que gera acontecimentos, que a força é que faz as coisas, e o que vemos em muitos episódios do livro é que a fraqueza potencializa situações, que a fraqueza e a fragilidade de Hanna é que mudam muitas vezes as condições". Gonçalo notou esse movimento entre os portadores da síndrome com quem trabalha há vários anos e fez dele literatura. Em vez de inferiorizá-los num dramalhão, ele reverte a passividade costumeira e dá a ver seus conflitos.

Luiz Ruffato pensa de modo similar. Acusado de ser "difícil", portanto um "escritor para intelectuais", ele rebate com uma aula de política nada assistencialista: "Esta posição pressupõe que se o outro é um proletário, então ele é imbecil, ele só vai conseguir ler um texto ordenado de forma básica. (...) O mundo que eu quero é o mundo em que as pessoas tenham condições de ler qualquer coisa. (...) Aquela linguagem é abertura e não fechamento. Se faço um livro em que falo de favela, usando linguagem absolutamente pobre e falando de violência de uma maneira absolutamente pobre, que graça tem? Qual o sentido de reforçar, com a minha literatura, um pretenso papel de inferioridade do outro?"

Se a política se define como experiência de linguagem e o nosso ser político se forma em atos de linguagem – conforme Marcia Tiburi explica no livro Como conversar com um fascista –, impor ideias ao escrever denota autoritarismo. Pois a língua é um lugar de poder. Cujo exercício autoritário se dá no discurso que nega ou desautoriza o outro em prol da verdade do autor. Ao mesmo tempo, é pela palavra que as pessoas vulneráveis ou fragilizadas podem se empoderar e fazer corpo político – então devemos abrir ouvidos àquelas vozes e nos esforçar para que, ao falarem, adquiram sua emancipação.


Como criar estratégias que abram o texto à experiência de leitura, ao invés de fechá-lo num sistema pré-concebido que somente reproduz a lógica do entretenimento? Que ampliem o vocabulário e, com ele, os limites da língua, tanto quanto o nosso entendimento sobre o outro? Esse é o desafio que rompe com o banal e apresenta a possibilidade de uma experiência estética. Olhar atentamente para tal questão resulta em escritores melhores, textos melhores, leitores melhores e, afinal, um mundo melhor. Esse sistema de retroalimentação opera por instabilidade. Porque é somente assim que podemos transformar o ser humano a tempo de evitar o colapso.

Precisamos criar um país de leitores. Lemos pouco e lemos mal. Cidades sem bibliotecas públicas são inconcebíveis. Escolas sem bibliotecas idem. O projeto social que fará um Brasil inteligente, propositivo, autocrítico é a implantação de uma rede de bibliotecas ativas, com bom acervo, bons profissionais e boa programação cultural. Se não é este governo autoritário e manipulador, seduzido pelo poder, que promoverá tamanha transformação, cabe aos escritores, às editoras, aos pais, alunos e professores, às associações civis e, no limite, à sociedade em geral exercer a tarefa.

A boa escrita desmancha realidades para que possamos fantasiar outras mais interessantes. Para que sentimentos ganhem forma. O bom texto não é estático nem preso ao seu tempo; é um fluxo de forças que percorre culturas; é a energia e também o alicerce para humanidades mais conscientes de si, dos seus problemas e soluções possíveis. É o único caminho? Não. Mas é ainda um caminho. À margem da via excludente, fria e agressiva da produção capitalista, preocupada apenas com desempenhos do mercado. A escrita necessária vai à contramão: prefere transitar pela presença, pela sensibilidade, pelo conhecimento, pela desconfiança e pelo diálogo. Prefere inventar o caminho enquanto transita por ele. Um caminho de ética e poética.


Obs.: As imagens que compõem este texto são excertos do Caderno de Escritos de Janmari, publicado na França em edição fac-símile.

domingo, 10 de abril de 2016

O CÃO


Às vezes eu acordava de madrugada e ia até o quarto de meus pais, querendo dormir com eles. Dizia ter pesadelos, de modo que me deixassem ficar. Nem sempre dava certo, mas tudo bem, custava apenas uma mentirinha e na maioria das vezes, exaustos, eles simplesmente se afastavam para os cantos, abrindo espaço onde eu me encaixava. A cama era pequena, porém suficiente para o meu tamanho.

Houve uma noite em que, no longo corredor que separava nossos quartos, deparei-me com um cachorro de olhos vermelhos e dentes tortos. Ele estava lá e rosnava, impedindo-me de avançar. Era pequeno, porém muito ameaçador. Fiquei paralisado, encarando o animal que brilhava, iluminado pelo luar da claraboia. Pensei em voltar a dormir. Ele anteviu meus movimentos e saltou para o ataque. Gritei.

Minha mãe abriu a porta do quarto na mesma hora, perguntando por instinto o que tinha acontecido. Meu pai saltou atrás dela e ambos se ajoelharam para me olhar nos olhos. Eu soluçava, sem fôlego.

Passado o susto, meus pais admitiram já não acreditar nesses pesadelos. Só me deixaram dormir na cama com eles quando perceberam a dentada profunda em minha canela, sangramento que demorou a estancar.

Passamos a noite seguinte juntos, numa cama de pensão. Voltei àquela casa apenas uma vez, acompanhado da equipe de mudança. Os carregadores estavam apressados e tremiam. Ouvi murmurarem que era por causa do cão. Para mim, estava evidente.