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domingo, 4 de julho de 2010

FOTOCONSTRUÇÃO

É possível ver muita coisa numa fotografia. As cores, as formas, um sonho idílico, uma ilusão, uma definição de verdade. Há quem veja grandes volumes verdes onde outros veem montanhas. Há quem veja paz onde outros veem céu. Há quem se lembre de algo triste diante de uma abstração colorida. Trata-se de um processo de construção e descontrução pessoal.

As fotos abaixo revelam uma conversa formal com o construtivismo e destacam a necessidade que o homem tem de geometrizar o mundo. Pura construção matemática. Pura fotografia.






sábado, 3 de julho de 2010

FOTOABSTRAÇÃO

É possível fotografar o abstrato? Ou, melhor dizendo, fotografar de maneira abstrata? Pois, se a origem das fotos é sempre o mundo figurativo, lógico e racional, como pode resultar em algo diferente?

Talvez seja o trabalho do olho do fotógrafo, talvez seja o processo de fixação da imagem no suporte. Seja como for, as fotografias abaixo são minhas tentativas de compreender essa ideia. Trata-se de um projeto quase inconsciente, que ganha forma na medida em que reúno obras antes desconexas.





quinta-feira, 1 de julho de 2010

FLUIDEZ



As palavras foram sumindo aos pouquinhos, sem que ele percebesse. Eram aquelas menos comuns, da literatura clássica e dos pseudo-intelectuais chatos de hoje em dia. Depois, foram as dos jornais, da língua escrita, da norma culta, do novo acordo. A estas seguiram as faladas, as gírias, as expressões, os palavrões, as mágicas "bom-dia" e "obrigado". É óbvio que ele percebeu antes – era escritor, poeta e tradutor, precisava delas tanto quanto elas precisavam dele, só que não houve jeito de reverter o quadro. Dia após dia, seus textos ficavam mais repetitivos, mais confusos, cansativos. Pareciam histórias mal contadas, repletas de "e daí", "e daí" e "daí". E então os leitores também começaram a perceber, que coisa, logo eles que não davam a mínima para suas construções elaboradas, sua preocupação com a fluidez, seus pontos de vista polêmicos, sua vontade de ser percebido e de aparecer, de receber elogios, ter seu trabalho reconhecido. Um simples "parabéns" bastaria, seria motivo para acreditar que não escrevia apenas para si. Que nada, nem isso, nem uma única palavra. Elas simplesmente sumiam sem deixar rastro; quando menos se esperava não estavam mais ali, evaporavam-se da mente criadora para o silêncio dos não-lidos. Nem o dicionário ajudava – é verdade que as palavras continuavam espalhadas pelas páginas segundo a mesma lógica alfabética de sempre, só que já não significavam nada, eram apenas consoantes e vogais dançando polca. Juntavam-se, separavam-se, davam as mãos, subiam e desciam no ritmo marcante das linhas, pontos e espaços. Havia algo a ser feito? Alguma esperança? Tentou loucamente colocar a angústia no papel, mas os termos que a traduziam já não existiam. Seria possível descrevê-la sem escrever? Rabiscar sem dizer? Desenhos mímicos tentaram em vão. Eram abstratos demais, puro sentimento. Dali para frente, não haveria exatidão em nada. Descobriu-se inútil sem alguém que o decodificasse, que o fizesse sentir quem era de verdade. Fundiu-se à matriz existencial da natureza, transformou-se quase que da mesma maneira como suas ideias antes se transformavam em histórias. A ficção se misturou à realidade. Não sabia mais quem era, onde estava, de onde veio, como seria e como foi. Perdeu as palavras que melhor o definiam, que só poderiam ter saído de sua boca. Amassou a folha de papel em branco. Sua história não teria fim. Ou melhor: fim teria, porém ninguém jamais o conheceria. Caput.

sábado, 26 de junho de 2010

FOTOGRAFIA, UMA QUESTÃO PICTÓRICA



Explorar com fotografia temas de que a pintura se cansou. Num primeiro momento, essa parece ser a premissa da mostra Pittoresco, de Antonio Saggese. Só que, aos pouquinhos, as cerca de setenta imagens exibidas ali vão revelando preocupações mais profundas, que abrangem aspectos formais e conceituais das artes visuais (não exclusivamente fotográficas).



A relação com a pintura é evidente, o próprio título da mostra já propõe um diálogo com o que Giorgio Vasari, lá na Itália renascentista, chamava de "a là pittoresca", e que desaguaria no inglês "picturesque" do século XVIII. Um modo de pintar e de escolher os assuntos, que busca qualidade pictórica além do objeto próprio da pintura, como lembra Saggese.



Essa relação entre foto e quadro fica mais clara quando ultrapassamos o referente – nuvens, árvores, cachoeiras – e notamos o sistema de impressão "jato de tinta" que Saggese escolheu para fixar suas imagens no papel. Pois, se a maneira tradicional de trazer ao mundo as cenas capturadas pela câmera se modifica – filme, revelação e ampliação –, talvez a palavra "fotografia" também adquira novos sentidos. Na era digital, não se trata mais de "criar com luz", mas de criar a partir daquilo que a luz nos permite ver, aproximando a fotografia de outras linguagens visuais, como a própria pintura. Assim, as águas correntes de Saggese, tal como suas nuvens, transformam-se em manchas de cor e provam que algo tão impensável quanto fotografar abstratamente pode ser possível. E a tinta de impressora sobre papel algodão rende mesmo uma textura diferente, faz com que algumas obras se assemelhem a aquarelas ou guaches, adquirindo transparências que dificilmente seriam alcançadas com o papel fotográfico comum.



O debate não acaba aí – há também outros suportes na mostra, além do papel de gravura, como por exemplo chapas de metal, vídeos e panos, cada qual com suas peculiaridades. Todos, no entanto, parecem concordar com a decomposição da imagem em camadas. Se a tinta sobre papel obtém isso com a sugestão de transparência, os vídeos o fazem com os tecidos em que são projetados, que vão se apropriando da luz na medida em que ela os atravessa; os metais, com os diferentes brilhos que proporcionam e uma outra peça, em particular, o faz separando literalmente o primeiro plano (árvores) do segundo (céu), obrigando o visitante a observá-la por determinado ângulo para reunir a imagem. Esse processo chama nossa atenção não apenas para a ilusão que cria, mas também para as diversas dimensões que uma imagem pode adquirir nas mãos de um artista. De alguma maneira, ele nos faz pensar no que estaria oculto atrás daquilo que se revela a nós em primeira mão, como na superfície de um espelho.



Saggese capturou muitas imagens de nuvens, que exemplificam perfeitamente essa mistura ilusionista de planos. Pois, ao mesmo tempo em que parecem se fundir com o céu, as nuvens estão se movimentando, se transfigurando sobre aquele palco de aparência estática. Em outras palavras, as nuvens e o céu, que teoricamente pertencem ao mesmo plano, na verdade se encontram nele apenas durante um breve instante – o instante da foto –, pois pertencem a unidades de tempo diferentes. O céu é constante, nuvens são volúveis. Enquanto juntos apresentam seu maravilhoso espetáculo natural, mexem com nossa imaginação, ficamos a observá-las numa brincadeira de criança, procurando reconhecer ali personagens, ações e, talvez, a nós mesmos. É o efeito da nossa vivência sobre aquela massa plástica pendurada entre molduras. É também o convite de Saggese à nossa participação. Novamente, fotografia e pintura se encontram, uma comunhão de presente e passado, tendo a natureza como princípio de criação artística.


São as viagens atentas de Saggese por diversas localidades do país que nos permitem viajar também por mundos distantes, interiores e exteriores; é a busca do artista que nos proporciona tantas descobertas novas. Tudo isso tendo como tema... o quê? Nuvens? Árvores? Cachoeiras? Não, suspeito de algo maior, que extravasa esses limites meramente figurativos. Talvez tudo se resuma a uma conversa com o branco, a cor da modernidade, das múltiplas possibilidades, da alvura do papel que fixa e também expande infinitos significados através da atitude pictórica do artista. A atitude criadora, luz do princípio de tudo, oposta à caixa preta e à câmara escura. Há uma foto praticamente toda branca na exposição que contém essa ideia. Ela sugere uma possível paisagem, um pedaço de existência deixado ao nosso critério. A totalidade da luz e a ausência de pigmento. E vice-versa.

PITTORESCO
De Antonio Saggese
Instituto Tomie Ohtake
De 15 de junho a 25 de julho

segunda-feira, 21 de junho de 2010

A NECESSIDADE DA CRÍTICA



"O meio de arte é bastante democrático do ponto de vista das múltiplas possibilidades de ser das obras. A pluralidade é a regra. Há de tudo em um museu. Isto é extremamente fértil e razão maior para a necessidade da crítica e do juízo. Por outro lado, é também um meio atravessado por hierarquias, no qual o artista e sua criatividade indiscutível podem tudo, mas limitam constantemente a presença do outro, do público não-especializado. Limitam no sentido de evitarem muitas vezes romper com procedimentos poéticos já aceitos pelo mercado e instituições. Seja no Brasil, seja no exterior, há uma repetição de nomes e processos criativos um tanto redutores. Não há fórmula para enfrentar esses vícios do circuito. Evidentemente, muitos desses artistas são de qualidade indiscutível. O problema é a criação de modelos poéticos que se propagam e padronizam a criação, e isto pede mais crítica, não menos. O papel da crítica não é criar polêmica, mas procurar espaço para o confronto de ideias e a disseminação de sentidos para as obras de arte."

Luiz Camillo Osorio, em Razões da Crítica

sábado, 19 de junho de 2010

AS ASAS DAS BORBOLETAS



Imagine-se caminhando por um campo florido sob o claro sol de inverno, a brisa fria tocando seu rosto de leve, o céu azulzinho, a grama ainda molhada pelo sereno da noite recém-vencida. E uma xícara de café quente lhe aguardando a poucos passos num chalé com lareira acesa e cheiro de pão no ar. Agora, imagine-se preso a uma cama de hospital com o corpo totalmente paralisado, os olhos fixos no teto, condenado a sonhar eternamente com a cena anterior sabendo que jamais poderá vivenciá-la. Imagine também a angústia de não poder falar, escrever ou fazer qualquer outra coisa para dividir esse sentimento com alguém.

Não importa o quanto você imagine, jamais poderá compreender a realidade de quem carrega uma sina tão cruel. Ainda bem que aos poucos vêm surgindo promessas de melhorias, seja para revertê-la, seja para amenizar o sofrimento.

Talvez você também esteja imaginando por que trago um assunto delicado como esse para o caderno de cultura. Simples: um projeto recente tem ajudado pessoas com paralisia a recuperarem a vontade de viver por meio de – adivinhem – arte.

Acho que não existe nada pior do que sermos privados de nossa expressão pessoal ou, melhor dizendo, dos meios que possuímos para exercê-la. Porque o ato de expressar-se é natural do ser humano, não conseguimos simplesmente nos livrar dele. Colocar sentimentos, vontades e pensamentos para fora é nossa maneira de pertencer ao mundo.

Olhe ao redor, todos se revelam de alguma maneira, seja pintando girassóis, seja jogando bola, cozinhando, organizando encontros de amigos e assim por diante. Agora, o que faríamos se de repente nos víssemos obrigados a manter essa necessidade criativa trancafiada, essa criança hiperativa que quer pular, cantar e correr o tempo inteiro? É uma tarefa árdua e também impossível de se cumprir sozinho.

Eis que surge o EyeWriter, um projeto que visa desenvolver a capacidade expressiva a quem perdeu os movimentos do corpo. Simplificando, trata-se de óculos equipados com microcâmera que, ligados a um software gráfico, reconhecem o movimento do globo ocular e possibilitam a execução de desenhos digitais. São três equipes de profissionais que, em parceria com o grafiteiro Tony Quan (diagnosticado em 2003 com uma doença degenerativa) vêm implementando as novas descobertas em diversos países. Eles utilizam materiais locais e fontes de pesquisa compartilhadas para obterem resultados positivos com custo baixo, o que possivelmente caracteriza o grande diferencial do EyeWriter e o torna muito mais relevante. Afinal, quanto mais barato for, mais pessoas terão acesso. No site do projeto há inclusive um passo-a-passo para quem precisa montar um.

Fiquei muito contente ao descobrir tamanha engenhosidade e me lembrei imediatamente de Jean-Dominique Bauby, ex-redator chefe da revista francesa Elle, atingido por aquilo que a medicina chama de "locked-in syndrome" (literalmente, trancado dentro de si mesmo). Durante os meses em que ficou hospitalizado, ele podia mover apenas um olho, que se tornou seu meio de conexão com o mundo. Com esse olho, Bauby realizou a proeza de escrever um livro, intitulado O escafandro e a borboleta, no qual relatou as angústias enterradas sob sua pele. Isso só foi possível graças a um precário sistema de "digitação" criado por sua enfermeira, que ia ditando letras até obter uma piscadela do paciente.

Bauby memorizava os capítulos previamente e, letra por letra, palavra por palavra, o livro foi surgindo. Isso o manteve focado, produzindo, refletindo e enfrentando diariamente a situação crítica que vivia. Talvez possamos até mesmo dizer que foi aquele sistema de escrita que o manteve são, dividindo com o papel o peso psicológico da doença. Em determinado momento, ele revela: "O escafandro já não oprime tanto, e o espírito pode vaguear como borboleta".

Jean-Dominique Bauby venceu a doença porque pôde continuar expressando seus sentimentos e se sentindo parte do mundo. Sua história ainda hoje é exemplo do poder vital da criação artística. Imagino que projetos inovadores como o EyeWriter permitirão que muitas outras histórias semelhantes se concretizem. Pois, contrariando a sabedoria popular, talvez não seja a esperança a última que morre, mas nossos sentimentos mais profundos. Quando tudo parece ter chegado ao fim, eles permanecem vivos. E a arte ainda pulsa.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

MORRE JOSÉ SARAMAGO


O sorriso sincero do escritor português José Saramago (1922-2010)

A notícia da morte de José Saramago me deixou muito triste. Sempre admirei sua atuação literária, crítica e social. Li seus romances, embora menos do que gostaria. Visitei a retrospectiva biográfica de sua obra no Instituto Tomiê Ohtake e me senti ainda mais próximo de sua pessoa, foi uma pena que não pude ir no dia de abertura, quando ele esteve presente. A gente se desencontrou naquele momento, mas eu o encontrei em tantos outros durante a vida, nas páginas dos livros, nas declarações da TV, nas notícias de jornais e em seu blog pessoal. Só tenho a agradecer por seus serviços prestados à humanidade. Fica aqui minha homenagem. Sentirei sua falta.


Este vídeo mostra a reação de José Saramago ao ver pela primeira vez o filme Ensaio sobre a cegueira, que Fernando Meirelles fez baseado no romance homônio. É um momento emocionante tanto para eles quanto para nós. E exemplar também.

Se o vídeo não funcionar (tem acontecido bastante ultimamente), tente aqui.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

O MUSEU E O BRASIL

Na revista BRAVO! deste mês, a jornalista Gisele Kato aproveitou a matéria sobre o museu Metropolitan de Nova York para fazer uma crítica muito pertinente à sociedade e às instituições privadas brasileiras, tal como reproduzo abaixo:


Gertrude Stein (1905-6), de Pablo Picasso

UMA SAGA EXEMPLAR
por Gisele Kato

Não seria exagero dizer que a coleção de obras de Pablo Picasso (1881-1973) no Museu Metropolitan, em Nova York, começou por acaso. Em 1946, a poeta Gertrude Stein decidiu doar ao museu americano o retrato que o mestre espanhol havia feito dela em 1906. Na época, escreveu: “Eu sempre quis entrar para a história”. E assim aconteceu. A tela, a primeira do artista a figurar no acervo do Metropolitan, foi recebida no hall principal da instituição e atribuiu de vez um status de celebridade a Gertrude. Hoje, o museu possui 34 pinturas, 58 desenhos, aquarelas e pastéis, duas esculturas, dez placas de cerâmica e quase quatrocentas gravuras de Picasso. Muitas das peças são obras-primas. E, com exceção de 36 delas, todas vieram de doações – com histórias que envolveram desde londas negociações até entregas mais repentinas. A saga é ilustrativo de uma cultura – a americana – em que os cidadãos se sentem responsáveis por seus museus. Fica em cartaz até o dia 1º de agosto a mostra Picasso in the Metropolitan Museum of Art em Nova York – que, além de impressionante, chama a atenção para esse exemplo a ser seguido por países como o Brasil, em que se espera muito do Estado mas são poucos os cidadãos e instituições privadas que realmente fazem algo pelo mundo da cultura.

Link para a obra no Metropolitan: Gertrude Stein

quarta-feira, 9 de junho de 2010

A ARTE DO OLHAR

Um projeto genial permite que pessoas com paralisia possam pintar por meio de softwares que interagem diretamente com o globo ocular. E o melhor: a custos baixíssimos.

Um dos pioneiros é Tony Quan, grafiteiro diagnosticado com ALS em 2003, que voltou a exercer sua arte por meio do EyeWriter e agora ajuda também a difundir esperança mundo afora.




Conheça o projeto em detalhes: EyeWriter





Ouça o comentário de Gilberto Dimenstein que originou este post: Pintura com os olhos, por Gilberto Dimenstein (CBN)

terça-feira, 8 de junho de 2010

É POR ISSO QUE EU ADORO PATO FU

Quem é que nunca pensou em como seria legal fazer música como as que você vê abaixo. E quem foram os únicos que superaram o "Não vai dar certo" e conseguiram?


Live or let die, com Pato Fu (Música de Brinquedo)


Primavera, com Pato Fu (Música de Brinquedo)


Link original: UPDATEorDIE

domingo, 6 de junho de 2010

LYGIA CLARK À DISTÂNCIA

A arte brasileira enfrenta um problema sério: o das famílias de artistas falecidos que possuem direito sobre as obras remanescentes. No ano passado, por exemplo, um incêndio consumiu parte da produção de Hélio Oiticica, precariamente armazenada por seu irmão em um apartamento comum no Rio de Janeiro. Agora, como mostrou a Folha de São Paulo, a questão se volta sobre Lygia Clark, outra das mais importantes figuras artísticas do Brasil. Se a exposição de sua obra fica prejudicada, toda a população a quem ela se dirige também. Leia abaixo um trecho da matéria:


Exposição sobre fase terapêutica de Clark, com curadoria de Suely Rolnik, na Pinacoteca do Estado, em 2006 (Tuca Vieira/24.jan.06/Folhapress)

Não é apenas da 29ª Bienal de São Paulo que Lygia Clark foi retirada por desacordo com a associação O Mundo de Lygia Clark, dirigida por Álvaro Clark, filho da artista.

Uma mostra no Centro Cultural Banco do Nordeste, em Fortaleza, com curadoria de Suely Rolnik, que apresentou, de 17/4 a 7/5 passado, 20 depoimentos sobre Clark, parte de sua antológica mostra na Pinacoteca, em 2006, não pôde exibir sequer o nome da artista.

Os depoimentos colhidos por Rolnik abordavam a obra de Clark por meio de pessoas que passaram por seu set terapêutico, entre eles Jards Macalé e Caetano Veloso.

A mostra de 2006, "Lygia Clark: da Obra ao Acontecimento", foi considerada internacionalmente uma das melhores formas de exibir essas práticas experimentais.

Em Fortaleza, a exposição teria apenas os vídeos, mas, para que o nome da artista constasse dos folhetos, anúncios na internet e textos de parede, a associação cobrou cerca de R$ 40 mil.

"Esse valor é alto por incluir uma multa, já que nem fomos procurados sobre essa mostra", diz Álvaro Clark.

"Realmente, isso não pode continuar, várias famílias estão causando prejuízo para a obra dos artistas, como também ocorre com Volpi e Goeldi", diz Ricardo Resende, consultor do projeto Leonilson e diretor do Centro de Artes Visuais da Funarte.

Reforma da lei
Segundo Resende, a Funarte irá criar um edital para ajudar famílias de artistas a cuidar do patrimônio herdado, mas com alguma forma de restrição ao poder excessivo dessas famílias.

"Na nova lei de direito autoral, há um grupo de trabalho que busca repensar essa questão", afirma o diretor.

"A lei brasileira é nosso maior problema, pois, da forma como as coisas estão ocorrendo, parece que não se quer que a cultura tenha um canal de fruição", diz Maria Alice Milliet, curadora da Fundação Nemirovsky.

Seu livro "Lygia Clark: Obra Trajeto", de 1992, está esgotado há mais de dez anos e não teve nova edição por conta dos custos que a associação impôs à Edusp.

"Essa foi minha dissertação de mestrado, primeiro livro sobre Clark, lançada por uma editora universitária, portanto, sem fins lucrativos", conta Milliet. "Mas os custos impostos pela família da artista inviabilizaram uma segunda edição."

Na 29ª Bienal, Clark participaria com "Caminhando", uma de suas obras mais importantes e, ao mesmo tempo, de execução mais simples: precisa de rolo de papel e tesoura para ser realizada.

"A ausência do trabalho só vai levantar mais curiosidade. Será a política do evento", disse a curadora convidada Yuko Hasegawa, num debate anteontem.

por Fábio Cypriano, com colaboração de Silas Martí
(retirado do jornal Folha de São Paulo, 4 de junho de 2010)


Link para versão online: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/745303-projetos-sobre-lygia-clark-sofrem-com-custos-impostos-por-sua-familia.shtml

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Fui buscar mais uma foto da Cordilheira dos Andes para ilustrar o trecho abaixo, pois bastou eu ler para reviver toda aquela experiência maravilhosa da viagem.

Não é incrível o poder que as palavras têm de invocar imagens e sentimentos?



"Eu viajava. A paisagem na qual eu me encontrava era de uma grandeza e uma nobreza irresistíveis. Algo delas decerto passou naquele momento para minha alma. Meus pensamentos esvoaçavam com uma leveza igual à da atmosfera; as paixões vulgares, como o ódio e o amor profano, me pareciam agora tão distantes como as névoas que resvalavam no fundo do abismo aos meus pés; minha alma me parecia tão vasta e tão pura como a cúpula do céu que me envolvia; e a lembrança das coisas terrestres só me chegava ao coração enfraquecida e diminuída, como o som da sineta dos gados imperceptíveis que passavam longe, bem longe, na vertente de outra montanha."

Charles Baudelaire, em Pequenos Poema em Prosa

segunda-feira, 24 de maio de 2010

O(S) BABACA(S) DO GULLAR


Merda de artista, lata número 20 das 90 produzidas por Piero Manzoni em 1961. Elas foram vendidas pelo mesmo valor do peso do ouro.


Perguntei a Ferreira Gullar por que uma obra de arte deve sobreviver ao tempo, já que ele afirma a rápida decadência das “bobagens conceituais”. Será que elas não podem emocionar uma geração e depois ficar com seu discurso obsoleto? O que há de errado nisso? Eu estava com medo de que essa maneira de pensar se tornasse mais um critério para a definição de arte e não-arte – e ninguém precisa retomar esse debate retrógrado.

Gullar não tinha resposta, fingiu indignação e fez pouco caso da pergunta, como se a solução fosse tão óbvia que não merecesse ser anunciada em voz alta.

Para mim, qualquer manifestação humana é arte, não importa o quanto dure. Podemos ir de um gostoso pudim de pão à Monalisa: querer provar que não são obras de arte não leva a lugar algum. A obra pode mexer ou não com você, emocionar a muitos ou somente ao seu autor, conter uma ideia evidente ou não. E ponto final. Talvez esses critérios sirvam para medir sua relevância histórica, mas não vejo outro tipo de julgamento a ser feito. Aliás, qualquer nova medida parecerá impertinente e egoísta.



Vitória de Samotrácia

Gullar se sente dono da verdade e acredita que sua fama lhe dá o direito de ser mal educado. Chama os artistas conceituais de babacas, quer interná-los em hospitais psiquiátricos. Teimou comigo que obras como a Merda de artista, de Piero Manzoni, não são arte. Chamou-a de “cocô na lata” e disse que essas ideias esdrúxulas não sobrevivem. Ficou louco da vida quando retruquei, dizendo que, se não sobrevivem, por que ainda estávamos falando delas, quase meio século depois? E por que constam em qualquer livro básico de História da Arte, apenas alguns capítulos depois da Vitória de Samotrácia e do Davi, de Michelangelo?

A questão é não julgar a criação de Manzoni segundo aspectos formais, livres de contexto. Ou mesmo a Fonte, de Marcel Duchamp, outro exemplo dado por ele. Clemente Greenberg, influente crítico do modernismo, tentou seguir por esse caminho e chegou somente até meados do século passado, quando ficou sem critérios para continuar. Porque a arte mudou bastante e ambas as obras citadas aqui são concepções intelectuais, cápsulas de ideias, que não pretendem ser bonitas ou feias. Têm origem conceitual, criticam nossa maneira de encarar a produção artística, os artistas e a nós mesmos. São manifestações que falam da vida, das regras que se criam e se quebram e do comportamento humano perante tudo isso. Elas têm seu valor garantido, independentemente de Gullar gostar ou não.



Fonte (1917), de Marcel Duchamp

Para fechar com chave de ouro, ele quis provar para mim que a teoria da reprodutibilidade técnica de Walter Benjamin está completamente errada, pois a “aura” do objeto artístico continuaria existindo mesmo nas obras reproduzidas em larga escala. Acho que não entendeu direito o texto, ainda mais porque quis justificar sua posição dizendo que um veículo de 1930 foi vendido recentemente na Europa por 40 milhões de euros, mesmo tendo saído da fábrica junto com muitos outros iguais. Ora, esse é o exemplo perfeito do contrário, da aura adquirida com o tempo devido à raridade. Pois existem obras que se tornam “auráticas” por serem únicas, como a Monalisa; devido à autoria, como as cópias do Pensador, de Rodin; e devido à raridade, como esse carro que ele citou, entre tantas outras possibilidades destacadas por Benjamin.

De qualquer maneira, a conversa acabou aí, pois Gullar disse em bom tom que não valia a pena “perder tempo discutindo” comigo. Que belo crítico ele se tornou, que já traz as ideias prontas de casa e não se propõe a pensar diante daquilo que seu preconceito prefere ignorar. Ou diante de outros críticos interessados em compreender melhor esse troço esquisito denominado arte.

Fingindo-se revolucionário e exigente, com frases de efeito do tipo “o que eu mais quero é ser comovido”, Ferreira Gullar me decepciona a cada encontro. Logo ele, autor do repugnante Poema Sujo, se acha no direito de menosprezar outras repugnâncias artísticas. E por sua recusa teimosa de compreender (e participar) de diversas facetas da arte contemporânea, ele me parece muito mais babaca dos que os “babacas” que julga com critérios antiquadíssimos.

É uma pena que a maioria dos interessados em questões artísticas abaixe a cabeça e abane o rabo quando Gullar fala.

Penso em Hélio Oiticica, seu amigo de juventure e um dos artistas conceituais mais importantes do mundo, e fico triste. Ele deve se revirar no túmulo a cada barbaridade dita por Gullar. Acho que, no momento em que enterrou seu poema*, em 1959, Gullar enterrou também sua vontade de se atualizar. Só que a arte continua se transformando num ritmo alucinante, assim como a sociedade que dialoga com ela. Ainda bem. Tomara que ambas fechem os ouvidos aos resmungos inconformados do velho poeta ranzinza. Estaremos muito melhor sem eles.


*Poema enterrado era constituído por uma sala subterrânea, dentro da qual havia um cubo de madeira de cor vermelha. Dentro dele, um outro, verde e, finalmente, um último cubo de cor branca, com a palavra "Rejuvenesça". Construído na casa do pai de Hélio Oiticica, foi destruído por uma inundação, provocada por chuvas.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

PENETRÁVEIS


Éden (1969), de Hélio Oiticica

"O lazer não é usado por si mesmo, mas para tornar o trabalho mais suportável. Em Éden, você deve perder a noção de horas de trabalho e horas de lazer."
Hélio Oiticica



Tropicália (1967), de Hélio Oiticica

"Tropicália é um tipo de mapa. É um mapa do Rio e é um mapa da minha imaginação. É um mapa no qual você entra."
Hélio Oiticica


Três motivos para prestar atenção em Hélio Oiticica
por Gisele Kato, em Arteria

1. Ele convidava o público a abandonar a postura passiva diante das obras. Na mostra, entramos em seus Penetráveis, vestimos seus Parangolés, cheiramos café em seu Bólide, lixamos as unhas em sua Cosmococa.

2. Ele anunciava que as fronteiras entre pintura, escultura, desenho, instalação ficariam cada vez mais borradas. Pintava em Relevos. Desenhava com cocaína. Sambava, escrevia, refletia. Sem caber em classificações.

3. Ele aceitava que o valor de um artista não estava centrado em sua habilidade manual e sim em sua capacidade de pensar as coisas e traduzir isso visualmente. Tanto é que deixou orientações bem detalhadas para que qualquer um pudesse refazer suas peças.

terça-feira, 18 de maio de 2010

COR: RAZÃO E SENSIBILIDADE


Pintura nº 78 (2010), de Felipe Góes

Meus olhos tateiam as diversas camadas e texturas. O caminho do pincel dita o meu caminho, as linhas que não aparecem mas que estão lá, ocultas pelas dimensões de cor. Busco algo que ainda não sei definir, algo além do pigmento, um significado emergente na pintura. Talvez um lapso de memória, uma referência ao amor, uma apologia à vida. Entre coisa e outra, encontro na pintura de Felipe Góes minha própria vontade de sentir.

Experimentar com cores é experimentar o olhar. Transformar a superfície por meio de ranhuras, manchas, transparências, massas uniformes ou difusas. Os planos se sobrepõem e constroem uma nova espacialidade. Em outro canto, eles impõem limites, fronteiras, numa dialética sensível e sensual. O amarelo toca o azul mas eles não se misturam; o verde permanece como potência, na iminência de existir. O mesmo acontece com a figura, a perspectiva, a profundidade. Por quê? O que há por trás de tudo aquilo?

Não sei dizer. Não sei explicar o encanto, embora ele se mostre claramente. Acho curioso o fato de que, mesmo depois das tantas mutações que a arte sofreu no último século, Felipe ainda se deixe intrigar pelas cores.

ORA, EXISTE MISTÉRIO MAIS ESSENCIAL À PINTURA?

Ainda bem que ele o faz. Sua pesquisa é interessante e enigmática, viva e loquaz. Enquanto sintonizo tranquilamente suas ondas cromáticas, sinto o poder persuasivo da arte reativar os sensores mais abandonados do meu ser.

Talvez o excesso de conceitualismos dos últimos tempos tenha enrijecido minha alma. Por isso, é muito bom deixar a pintura me levar sem explicar por quê, por onde ou por quanto tempo. As cores, que falam a língua do sentimento mais puro. As cores que surgem e que se vão, deixando em minha alma uma marca inconfundível. Doce sedução.

Observar atentamente aquelas pinturas traz um risco gostoso de assumir: você se sente parte delas e quer ir sempre mais a fundo. Será possível? Felipe Góes nos prova que sim.


SOBRE A EXPOSIÇÃO
Corpo da Cor, individual de Felipe Góes na Casa Galeria
De 17 de maio a 19 de junho
www.casagaleriacafe.com.br





Na sequência: Pintura nº 72, Pintura nº 70 e Pintura nº 63

Veja mais obras em: Felipe Góes_Portifólio de Pinturas

quinta-feira, 13 de maio de 2010

A PARTE PELO TODO

A maior parte das pessoas desce na estação
A outra maior parte permanece no trem para seguir adiante
A maior parte das pessoas está em todo lugar
A menor parte está escondida dentro de cada um.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

ILHA BELA





É bela, é verdade
Não somos os únicos a notá-la
Bela porque foi feita assim
E assim permanece
Ela

quinta-feira, 6 de maio de 2010


Concetto spaziale "attese" (década de 1960), de Lucio Fontana


Sobre a fragilidade da vida
Construímos e devastamos cidades
Unimos e derrubamos pontes
Amamos e blefamos continuamente

Baixamos decretos sobre o amor


Sobre a fragilidade da vida
Definimos e vencemos fronteiras
Reinventamos o corpo humano
Chegamos à essência indivisível
E continuamos a anos-luz da perfeição

O microcosmo,
A efêmera vitória


Sobre a fragilidade da vida
Abandonamos o mundo ao rés do chão
E com narizes empinados
Aspiramos ao infinito

A morada dos deuses


Mas é sob a fragilidade da vida
Que finalmente nos enterramos
E nas profundezas da insignificância
Alcançamos a eternidade

terça-feira, 4 de maio de 2010

"(...) que a cultura seja um estímulo à vida atual, e não um culto aos mortos."

Marshall Berman, em Tudo que é sólido desmancha no ar

segunda-feira, 3 de maio de 2010

DILEMA E REALIDADE



Quando você finalmente relaciona as imagens com o título e compreende a poesia de Heitor Dahlia, sobra aquela sensação gostosa de que o cinema pode ser mesmo uma grande arte. Pois estar à deriva é flutuar ao sabor das ondas, como um barco que já consumiu todo o combustível de que dispunha, e entre se desesperar e aceitar que é mesmo impossível controlar os entraves da vida, o melhor talvez seja simplesmente se deixar levar.

A história é contada a partir de Filipa, uma adolescente de catorze anos que se encontra entre os dilemas típicos da idade. Tudo ao seu redor está se transformando, suas ilusões infantis começam a dar lugar à fria racionalidade da vida adulta, as férias não têm mais sabor de sorvete, os irmãos mais novos parecem distantes e as pessoas mais velhas ainda se mostram inacessíveis.



A solidez das relações familiares desmorona à sua frente sem que ela possa fazer nada para mantê-la no lugar. Pode apenas observá-la e tentar manter a própria solidez. O ato de olhar guarda um grande poder, mais um dualismo que Filipa precisa enfrentar. Pois ver é descobrir, encontrar, vislumbrar; porém, ver também é destruir, desfazer o encanto, revelar o truque. No filme, temos esses dois olhares muito bem definidos. O primeiro mostrado pelas tomadas amplas, que exploram a maravilhosa geografia de Búzios (RJ), onde o terreno pedregoso separa a mata virgem das águas traiçoeiras do mar. O segundo está nas câmeras voyeristas, bisbilhoteiras, sempre escondidas atrás de uma cerca ou persiana. Elas espiam o que não deveria ser visto, profana o que até então permanecia sagrado.

Há ainda uma terceira câmera, bastante intimista, que se mantém próxima dos personagens e esquenta o filme, leva o espectador para dentro da crise familiar que se encena, fazendo com que ele participe com o coração e sinta mais intensamente o conflito.

O figurino muito bem escolhido por Alexandre Herchcovitch colabora com essa relação, situando-nos no tempo e no espaço do filme, enquanto a maravilhosa fotografia de Ricardo della Rosa acrescenta sentimento ao visual retro. O granulado sépia e azul desbotados sugere a presença da memória, como se estivéssemos regredindo e revivendo um momento então incompreensível. As contraluzes, o brilho do sol, a magia da lua, os reflexos e as transparências – tudo ofusca e preenche a tela de encanto.



Entre o dia e a noite, as férias de Filipa vão chegando ao fim, assim como sua inocência. O livro que seu pai escreve – e do qual pouco revela – traça um paralelo com a realidade, recontando a história que acaba de acontecer e acentuando ainda mais a divergência entre as verdades e mentiras do casal. Pode ser uma espécie de reflexão meditativa, só que também é necessariamente uma ficção, a ser reinventada segundo o ponto de vista de uma única pessoa: o autor.

É dentro do livro que Filipa encontra pela primeira vez os fatos de que a vida é frágil e suscetível a erros. É levantando a cabeça e olhando ao redor que descobre a possibilidade da morte. E é assim, encarando sua antagonista, que ela compreende as regras da existência.

O pai de Filipa então deixa de ser um herói infalível e se torna um homem como outro qualquer, sujeito às adversidades da convivência, e seus braços de aço já não conseguem mais afastar a filha das ameaças do entorno. A mãe deixa de ser a mulher mais bonita do mundo e perde o encanto para as rugas que lhe começam a tomar o rosto. Todos que foram adolescentes um dia passaram por isso, só que não está no roteiro de Dahlia a redescoberta do heroísmo e da beleza dos pais, coisa que só acontece muito mais tarde, quando amadurecemos de verdade. A Filipa da tela permanece jovem, sem entender muito bem o que se passa porque é apenas uma criança, embora seja obrigada a ajudar porque também é adulta. Assim, ela fica perdida entre os seus sentimentos e os dos outros, entre o amor ideal e as decepções reais, entre a idade adulta e os sonhos da infância.

Filipa flutua num mar revolto, encontra-se a uma profundidade em que não consegue mais tocar o chão e não sabe se está a centímetros ou a quilômetros dele. No decorrer da história, nós flutuamos com ela, compartilhamos suas dúvidas e nos emocionamos com seus sofrimentos. Mérito de Heitor Dahlia.