segunda-feira, 25 de julho de 2011

A PSICANÁLISE, A ARTE E A CRIAÇÃO DO MUNDO

Quantos mundos diferentes existem nessa realidade compartilhada em que vivemos? Infinitos. Um mundo para cada pessoa, mundos e mais mundos instáveis, em constante mutação. A cada dia, somos uma pessoa diferente, e nosso universo particular muda também. Nosso mundo é, na verdade, nossa singular concepção de mundo. Nossa vida nada mais é do que o fruto da nossa própria criação.

"O homem só compreende enquanto cria. O que ele pode chegar a conhecer de verdade não é a essência das coisas, mas somente a estrutura e o caráter peculiar de suas obras. Nenhum ser conhece (ou verdadeiramente penetra em) qualquer coisa, exceto aquilo que ele mesmo cria."

Gilberto Safra, em A face estética do self

quinta-feira, 21 de julho de 2011

ARTE INVISÍVEL CUSTA OS OLHOS DA CARA

É verdade que existem muitas coisas que não podemos ver. Mas... arte também?

MONA (Museum of Non-Visible Art) é o nome do novo Museu de Arte Invisível que o grupo Art-Praxis e o ator James Franco estão lançando. A proposta é que, ao invés de obras materiais, encontremos ali imaginação, ideias e proposições visuais pertencentes ao mundo invisível do pensamento.

A iniciativa, bastante esquisita, não escapa do tal mercado de arte – o que depõe contra o conceito tradicional de museu e acaba por transformá-la numa galeria como outra qualquer. Digo isso porque as obras do MONA podem ser compradas por quantias que variam de mil até dez mil dólares.

Funciona assim: o comprador investe dinheiro de verdade e, em troca, recebe uma descrição da peça adquirida. Por exemplo, a peça intitulada "Ar fresco" chega às mãos do dono da seguinte maneira:

"Uma peça única, somente esta se encontra disponível para venda. Comprar esse ar é como comprar um tanque de oxigênio. Não importa onde você está, sempre poderá inspirar o mais delicioso e limpo ar que a Terra pode produzir. Cada inspiração dá a você uma infinita paz e saúde. Esta peça de arte é algo para carregar sempre com você, caso seja sua. Porque, seja lá onde estiver, você pode se imaginar provando o mais lindo e saboroso ar das montanhas, do campo ou do litoral; o suprimento jamais se extingue."

E alguém põe dinheiro nisso? Claro. Sempre tem quem ponha. Como diz meu pai, para tudo no mundo há um comprador; produto e interessado só precisam se encontrar.

Um exemplo é Aimee Davidson, que pagou dez mil dólares pelo ar fresco descrito acima. Para ele, o MONA pode parecer um golpe, mas na verdade é um movimento artístico de mídias sociais. Seja lá o que for, custa caro. E os preços parecem chamar mais a atenção do público do que as obras em si.

Entre a arte invisível e a convencional (dessas que podemos ver), acho que vale pesar o custo x benefício delas, e deixar que o mercado de arte penda para a mais compensadora. Se é que isso pode ser medido assim, com valores financeiros.


Site do museu: MONA

Assista ao vídeo de divulgação:


Uma reportagem interessante sobre o MONA: Paste Magazine

O CURIOSISMO

Este vídeo de divulgação da nova mostra de longa duração que a Pinacoteca de São Paulo está preparando explica por que a mesma curiosidade que matou o gato também pode matar você. É muito bacana, dê uma espiada:

terça-feira, 19 de julho de 2011

Acredite: arte é o que torna a vida interessante e possível de ser vivida com humanidade.

sábado, 16 de julho de 2011

ARTE, NECESSIDADE VITAL

Mãos de Portinari executando a pintura Menino com carneiro (1953)

Tem um fato marcante na biografia de Cândido Portinari que, de tão banalizado, já não recebe o devido respeito. Esse fato é a própria morte do pintor. Ontem mesmo, saiu escrito na Folha de São Paulo, numa reportagem sobre a exposição recém-inaugurada no MAM, que Portinari "morreu intoxicado pelas tintas aos 58 anos, em 1962". E o texto continua como se tivesse explicado uma fração da raiz de nove, sem demonstrar emoção por algo tão cheio de significado - a informação aparece como uma curiosidade qualquer.

Pintar era a vida de Portinari; ainda que ela determinasse sua morte, deveria ser levada adiante. Porque a intoxicação não foi acidental - desde 1953, ele tinha plena consciência do mal que as tintas faziam ao seu organismo. Seu médico o havia proibido de usá-las, e ele tentou obedecer, testou lápis de cor, escreveu poesias, buscou outras linguagens. Morrer pela pintura - e por causa da pintura - foi sua escolha. A opção de viver sem ela jamais o convenceu.

Para esse paulista de Brodósqui que tanto contribuiu para a cultura nacional, a arte pictórica não era um vício impossível de largar. Era muito mais, uma necessidade física e intelectual; o tal "sentido da vida", como dizem por aí. Sua relação com as tintas contribui para o entendimento de toda a sua obra e ressignifica tudo que ele criou a partir delas. Uma dedicação sobre-humana que, para Portinari, valia a pena ser levada às últimas consequências.

No Ateliê de Portinari: 1920-45
Exposição no MAM/SP, com curadoria de Annateresa Fabris
Parque do Ibirapuera, portão 3 - s/nº
De 14 de julho a 11 de setembro de 2011
De terça-feira a domingo, das 10h às 18h

terça-feira, 12 de julho de 2011

"O mundo atual apresenta problemas e situações que levam o ser humano a adoecer em sua possibilidade de ser: ele vive hoje fragmentado, descentrado de si mesmo, impossibilitado de encontrar, na cultura, os elementos e o amparo necessários para conseguir a superação de suas dificuldades psíquicas."

Gilberto Safra, em A face estética do self

sábado, 9 de julho de 2011

EDITOR DA NOSSA HISTÓRIA


Não faz muito tempo, a Edusp e a Com-Arte lançaram um livro com o título de Paula Brito – Editor, Poeta e Artífice das Letras. Trata-se de uma coletânea de ensaios a respeito da produção desse que é considerado o primeiro editor do Brasil – ou, como o definiu Machado de Assis, "o primeiro editor digno deste nome que houve entre nós". Uma publicação importante, já que a história da nossa literatura é tão conhecida quanto o final de um livro inacabado. Pois bem, eu lia uma reportagem a respeito e alguma coisa parecia desconexa ali, só não sabia dizer o quê. Caminhando distraidamente pela página, demorei a perceber que era a foto, estampada bem no centro, que me inquietava: o tal editor era negro.

Estamos falando de outro Brasil, acontecido praticamente duzentos anos atrás. Francisco de Paula Brito nasceu em 1809, num Rio de Janeiro escravocrata e precário, dependente de Portugal em quase todos os sentidos. Nossas primeiras tipografias tinham sido inauguradas apenas um ano antes, com a vinda da família real, e publicar qualquer coisa por aqui era difícil, perigoso e praticamente inútil, já que a maior parte da população não sabia ler.

Toda história promissora começa mesmo com um drama. De origem humilde, descendente de escravos e autodidata, esse negro conseguiu um feito incrível para sua época e condição: levou uma vida dedicada às letras, tornou conhecida nossa produção literária de meados do século XIX e fez de A marmota um dos principais periódicos da primeira fase da imprensa nacional.

Apelidado de "artífice das letras", Francisco também era poeta, ainda que tenha se destacado não por conta de seus escritos, mas de seus escritores: Machado de Assis, Casimiro de Abreu, José de Alencar e Basílio da Gama, entre outros – nomes que, ao contrário do seu, vivem pipocando por aí.

Editar obras desse porte não é tarefa para qualquer um. Quando me dei conta do significado, a façanha me pareceu inacreditável. E mais inacreditável ainda é um herói do nosso povo ficar esquecido durante tanto tempo.

O Brasil é mesmo um país que não se cansa de me surpreender. Toda vez que a gente se desentende, ele saca um punhado de flores e me conquista de novo. Temos uma imensa desigualdade social, o maior leão do mundo se alimenta do nosso suor sem dar nada em troca, somos maltratados aqui dentro e lá fora, ninguém acredita muito em nosso potencial, nem a gente mesmo. Por aqui, rola uma corrupção tão escancarada que faz parecer errado agir certo, como se ética fosse coisa de ingênuo sonhador. Certo mesmo é agir errado, dizem, porque o mundo é dos espertos. Alguém contradiz?

Pois é, são absurdos que, de tão repetidos, já nem surpreendem mais. Logo vem alguém tentar me convencer de que o problema é cultural, mas cultura, para mim, é outra coisa. Cultura é coisa boa, enriquecedora, dessas que transformam bichos em seres humanos civilizados, solidários e justos. É a cultura que me faz manter intacta a esperança de que, um dia, quem sabe...

O Brasil tem jeito sim. O que me confirma isso são homens e mulheres como Francisco de Paula Brito, que acreditam num bem maior e lutam para concretizá-lo. Um filho do povo que, certa vez, escreveu: "a eternidade depende das obras úteis: se ele as fez, quaisquer que elas sejam, mas de que se aproveitem os presentes e os vindouros, esse homem vive na glória".

Para nossa sorte, conheço um monte de franciscos assim, compartilhando conosco o agora, trabalhando quase sempre no anonimato, mas fazendo acontecer, criando, melhorando, ensinando etc.; ou seja, produzindo essa nossa cultura que é uma obra sempre em processo de formação e transformação. Tal como acreditava o primeiro editor da nossa história, esses homens vivem na glória, ainda que o país demore para reconhecê-los. Ele próprio apareceu só agora para comprovar.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

LER COM OS OUVIDOS

"Temos de ler musicalmente, testando a precisão e o ritmo da frase, ouvindo o ruído quase inaudível de associações históricas que se prendem à margem das palavras modernas, prestando atenção nos padrões, nas repetições, nas ressonâncias, decidindo por que uma metáfora é boa e outra não, avaliando de que forma a colocação perfeita do verbo ou do adjetivo confere à frase um caráter matematicamente definitivo."
James Wood, em Como funciona a ficção

terça-feira, 5 de julho de 2011

VAI UM POUCO DE CULTURA AÍ?

A revista Continuum deste mês revela um dado impressionante: QUASE METADE DA POPULAÇÃO BRASILEIRA NÃO CONSOME CULTURA PORQUE NÃO QUER. Impressionante e alarmante, claro.

Quem frequenta o universo da cultura já parte do pressuposto que ele é essencial à vida, que todos precisam experimentar, que é um absurdo ficar de fora alimentando a ignorância, sabe como é... Uma atitude natural, ainda que precipitada, porque quem valoriza também gosta de compartilhar.

Então surgem ideias de mobilização, de incentivo, pulverizamos palavras de ordem na internet e acabamos correndo o risco de nos tornar chatos persistentes.

Antes de sairmos divulgando cultura por aí, convém perguntar a nós mesmos: por qual razão as outras pessoas teriam interesse nela? Quando isso ficar claro, será mais fácil entender a falta que a cultura faz.

Porque um pouco de cultura não faz mal a ninguém, mas um pouco de consciência também não.


Ps.: Para ler a reportagem da Continuum nº 31, intitulada Vou não, quero não, carregue-a diretamente na web (aqui) ou baixe o arquivo (aqui).

segunda-feira, 4 de julho de 2011

NOTA DA TRADUTORA

Estou lendo Como funciona a ficção, livro de crítica literária escrito pelo americano James Wood que propõe reflexões bastante interessantes sobre técnicas narrativas, construção de personagens, relação da fantasia com a realidade etc. Para melhorar, a edição brasileira chegou com algo a mais: Denise Bottmann, responsável por verter a obra para o português, criticou publicamente a escolha da editora Cosac Naify de utilizar trechos traduzidos anteriormente das obras citadas por Wood. Para ela, o mais correto seria traduzi-los novamente, de modo que fossem compatíveis com a análise do autor.

A crítica não invalida ou prejudica a edição brasileira, muito pelo contrário; discussões como essa são mais do que pertinentes quando o assunto é literatura. Melhor ainda quando vêm a público.

Quem gosta de escrever tem obrigação de ler o livro de Wood. Quem gosta de ler também vai adorar, porque passará a conhecer mais a fundo os detalhes dessa arte. Depois – ou antes, como preferirem – leiam também os argumentos da tradutora Denise Bottmann. Esse "capítulo extra" está disponível aqui: Como engripa a ficção.