quinta-feira, 29 de setembro de 2011

A PALAVRA AO LEITOR

"(...) O texto literário é um texto que também dá voz ao leitor. Quando escrevo, por exemplo: 'A casa é bonita', coloco um ponto final. Quando você lê para uma criança 'A casa é bonita', para ela pode significar a que tem pai e mãe. Para outra criança, 'casa bonita' é a que tem comida. Para outra, a que tem colchão. Eu não sei o que é casa bonita, quem sabe é o leitor. A importância para mim da literatura é acreditar que o cidadão possui a palavra. O texto literário dá a palavra ao leitor. O texto literário convida o leitor a se dizer diante dele. Isso é o que há de mais importante para mim na literatura."

Bartolomeu Campos de Queirós, no projeto Paiol Literário, promovido pelo jornal Rascunho

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

POESIA HOJE E SEMPRE

Poemas adquirem um novo significado a cada dia, e outros significados de acordo com as pessoas que os leem. Por isso, encontrar o poema certo no dia certo é um privilégio.

Quando William Blake me disse que, se somos amados, não sofremos, poderia ter parecido uma bobagem sentimentalista. Poderia, se ele não tivesse dito isso na hora certa.

Foi o que o poema abaixo significou para mim, e significou muito. Talvez ele diga algo diferente a você, ou talvez não diga nada.

Talvez o problema seja o poema, mas eu acredito que, se isso acontecer, o errado é o dia. O segredo é continuar tentando.


O LÍRIO
A modesta Rosa exibe espinhos agora:
A humilde Ovelha pôs seu chifre pra fora:
Enquanto o branco Lírio goza feliz o Amor,
Espinhos e chifres não lhe tiram o alvor.

THE LILY
The modest Rose puts forth a thorn:
The humble Sheep, a threating horn:
While the Lily white, shall in Love delight,
Nor a thorn nor a threat stain her beauty bright.

sábado, 10 de setembro de 2011

TODOS QUEREM SER EUROPA/EUA E RUMAM PARA LÁ?

Chamamos a nós mesmos de subdesenvolvidos, de terceiro mundo, de periferia do mundo. Aceitamos os termos sem procurar entender o que eles significam, se é que significam algo verdadeiramente relevante. Afinal, existe um modelo de civilização a seguir? Em que ela é melhor do que a nossa? Para onde a cultura brasileira ruma? O poeta e crítico mexicano Octavio Paz me fez pensar nisso um instante.

"O artigo subdesenvolvido pertence à linguagem anêmica e castrada das Nações Unidas. (...) O vocábulo não tem nenhum significado preciso nos campos da antropologia e da história: não é um termo científico, mas um termo burocrático. (...) Sob o amparo da sua ambiguidade, deslizam-se duas pseudoideias, duas superstições igualmente nefastas: a primeira é dar como estabelecido que só existe uma civilização ou que as diferentes civilizações podem ser reduzidas a um modelo único, a civilização ocidental moderna; a outra é acreditar que a mudança das sociedades e culturas são lineares, progressivas, e que, em consequência, podem ser medidas."

Octavio Paz, em Os filhos do barro (1974)

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

A morte chega sorrateiramente;
ela engana, desvia do alvo,
muda de ideia, não avisa,
age sem pensar.
Às vezes, morrer parece ser,
simplesmente,
questão de sorte
ou azar.

(inspirado no conto Em um outro país, de Ernest Hemingway)

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

“O que oferecerás a Morte, quando
ela bater à tua porta?
Vou oferecer à minha hóspede a taça
cheia de minha vida. Não deixarei que ela
vá embora de mãos vazias.
Colocarei diante dela a suave colheita
de todos os meus dias de outono e de todas
as minhas noites de verão. No fim dos meus
dias, quando ela bater à minha porta, vou
entregar-lhe tudo o que ganhei e tudo o que
recolhi com o árduo trabalho da minha vida.”

Rabindranath Tagore, em Gitanjali

terça-feira, 6 de setembro de 2011

ARTE NO LIXO



Lixo Extraordinário, documentário que concorreu ao Oscar deste ano, mostra como a arte pode envolver e transformar pessoas. É emocionante, mesmo para quem não se liga muito no assunto.

Trata-se de uma espécie de making of de um projeto artístico de Vik Muniz, em que fica evidente a complexidade da sua criação. Por trás das fotos exibidas em museus e galerias de todo o mundo existe uma vontade muito grande de fazê-las acontecer, uma equipe de especialistas e um longo tempo de execução.

Vi o filme no sábado passado, durante evento da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. Na sequência, houve duas leituras críticas, acompanhadas de um debate aberto com a plateia. Os convidados para a mesa foram o jornalista Manuel da Costa Pinto e o psicanalista Plinio Montagna.

A conversa foi ótima, mas o filme foi melhor ainda, principalmente pelas questões que nos propõe. Por essas e por muitas outras, acho que você também precisa assistir.

Site oficial: LixoExtraordinário.net




sábado, 3 de setembro de 2011

BEM DIANTE DOS OLHOS

Perto do meu trabalho havia uma casa antiga, daquelas com hall de entrada envidraçado que dava para a rua – uma das poucas construções do tipo que conseguira sobreviver aos prédios espelhados e às franquias de estacionamento. Um casal de velhinhos passava as tardes ali, cada um em sua cadeira de balanço, fizesse chuva ou sol. Eles observavam, simplesmente. Sempre que eu cruzava o local, virava o rosto para conferir e lá estavam os dois, observando o movimento. A cena continha um lirismo particular. Agora, ao terminar a leitura do conto A janela de esquina do meu primo, ela me voltou à lembrança. Já explico por quê.

Trata-se da narrativa derradeira do alemão E. T. A. Hoffmann, publicada entre abril e maio de 1822, dois meses antes de seu falecimento, aos 46 anos, vitimado por uma doença degenerativa muito semelhante a do protagonista, que o impedia de andar e escrever.

Sem dúvida, o teor autobiográfico do texto é irrefutável. Merece destaque, entretanto, o relato que faz da vida social metropolitana daquela Berlim em plena transformação.

O personagem que dá título ao conto, escritor de certo renome, então condenado a passar os dias observando a vida acontecer através da janela de seu apartamento, tenta ensinar ao primo como enxergar a modernidade que se apresenta logo adiante, na feira livre do outro lado da rua.

O frenesi, o efêmero, o senso de civilidade, o comércio, os tipos urbanos, a burguesia em ascensão, as relações sociais e a nítida diferença entre classes – tudo isso aparece no conto de Hoffmann. Talvez o autor tenha sido o primeiro a explorar tais temas com tamanho afinco, embora a façanha ficasse mais conhecida com Edgar Allan Poe (O homem da multidão, 1840) e Charles Baudelaire (O pintor da vida moderna, 1863).

"Falta-lhe a disposição mais elementar para poder seguir os passos de seu primo digno e paralítico, ou seja, um olho! Um olho que realmente enxergue! Aquela feira do mercado não lhe oferece senão a visão de um colorido e alucinante amontoado de gente se movendo num afã insignificante. Há, há! Ao contrário de você, meu amigo, vejo desenrolar-se um cenário variado da vida burguesa e meu espírito (...) inventa um esboço após o outro, cujos contornos mostram-se com frequência impregnados de malícia." 
 
Ilustração de Daniel Bueno para edição da Cosac&Naify

Com uma luneta em mãos, o escritor paralítico consegue se aproximar da multidão que se acotovela na praça, caminhar entre as pessoas e as observar uma a uma, em detalhes. Munido de olhos atentos e muita imaginação, passa a preencher as lacunas proporcionadas por esses breves encontros, inventando premissas e desenlaces, modificando a realidade por meio da ficção, recriando o mundo como lhe parece mais conveniente.

É um artifício que permite ao autor desenvolver os mais diversos assuntos, incluindo alguns bastante proféticos. Hoffmann denuncia, por exemplo, o preconceito com estrangeiros e a repulsa que a miscigenação de culturas provoca nos mais ingênuos, que desejam manter a identidade local intacta. Antecede, portanto, em quase dois séculos os anseios da globalização e as diferentes fobias sociais que, infelizmente, ainda constatamos nas cidades de hoje.

Há também o anonimato e o conflito paradoxal de se misturar à massa sem perder a individualidade, questões-chave do modernismo europeu. Observando pela janela o mundo em transformação, os atores do conto nos introduzem uma problemática que renderia reflexões por, no mínimo, mais cem anos.

"Essa janela é meu consolo, aqui a vida alegre ressurgiu para mim e eu me sinto reconciliado com o movimento incessante que me proporciona. Venha, primo, dê uma olhada para fora!"

O apartamento ocupado por Hoffmann ficava acima da taverna Lutter & Wegner, que ele tanto frequentou

Terminada a leitura, lembrei imediatamente do casal de velhinhos lá de perto do trabalho, que ficava a observar a vida acontecendo através do vidro do alpendre. Não sei o que houve com eles. Passei um dia e não estavam lá, nem no outro, nem no seguinte. A casa acumulou poeira, a janela embaçou, as cadeiras de balanço desapareceram. Então, numa tarde como outra qualquer, um trator colocou tudo abaixo. No lugar, montaram um fast food especializado em yakisoba.

Há diversos prédios comerciais nas proximidades, o restaurante vive lotado. Eu mesmo almoço lá de vez em quando, naqueles dias de pressa em que tenho muito a escrever e prazo curto para terminar. O conto de Hoffmann me fez perceber que, mergulhado nessa realidade alucinante, fico impedido de ver – e de compreender – o que acontece ao meu redor. Na maior parte do tempo, minha vida é uma reação instintiva aos constantes estímulos externos. E só.

Lembrei do simpático casal de velhinhos que ficava a observar o frenesi cotidiano através da janela e, inspirado pelo conto recém-lido, passei a me perguntar que tipo de futuro eles enxergavam ali.