domingo, 30 de outubro de 2011

VIAJAR É O MELHOR REMÉDIO

Já ouvi estrangeiros perguntarem se o Brasil é um país doente, dada a quantidade de drogarias à disposição. Em alguns bairros, temos uma a cada dois ou três quarteirões, às vezes mais. Se nossas doenças não extrapolam o normal, ao menos hipocondria e ansiedade, essas sim, temos que admitir. Por quê? Onde estão o samba, o futebol e as mulatas? Será que, com a melhora econômica, esses prazeres banais deram lugar ao estresse do mundo contemporâneo? Ou, ainda, será que as crises político-sociais foram substituídas por crises existenciais?

Estive recentemente no Uruguai, e o que mais me fascina num país estrangeiro é o cotidiano dos nativos, muito mais do que os pontos turísticos. Gosto de caminhar pelas ruas, entrar nas lojas, estar no meio da multidão, pegar seus ônibus e metrôs, experimentar seus cafés no meio da tarde e folhear seus jornais nos bancos da praça. Inserir-se na realidade alheia abre os horizontes de nossos próprios universos.

Foi durante essa viagem que reparei como farmácias são escassas por lá, principalmente quando comparado com São Paulo. E, já que a procura por remédios é pequena, elas vendem outros produtos não convencionais, tais como vinhos, perfumes, cosméticos, livros e brinquedos. Achei o fato curioso. Meio estranho, inicialmente, mas faz sentido. Afinal, esses também são produtos com propriedades curativas: compartilhar uma garrafa de vinho com amigos e familiares faz um bem social danado; cuidar da própria beleza melhora a autoestima e cura a depressão de si e dos outros; ler um bom romance na frente da lareira, ou na poltrona da varanda, ou debaixo dos cobertores, ou na grama do parque, naquela tarde de domingo ensolarada, ou na praia, ou em qualquer outro lugar propício ao relaxamento pode até causar dependência, mas uma dependência boa que não pede moderação. E brincar... é remédio para todas as idades, quem não sabe se divertir não pode dizer que vive de verdade.

O comércio de um país reflete a cultura dos habitantes. Os indícios são fáceis de perceber. Em Montevidéu, há praticamente uma livraria por quarteirão. Não são megastores como as nossas, pelo contrário, são pequenas e entulhadas, mas devem vender muito mais literatura, porque têm livros nas prateleiras ao invés de televisores, computadores, câmeras fotográficas, papelaria, jogos de videogame e iPods.

Cafés também se encontram aos montes, sempre movimentados. Ali, folheia-se revistas, reúne-se amigos e até se trabalha, enquanto a correria permanece do lado de fora. Não vi um só hipermercado – frutas e verduras são compradas frescas diariamente, durante o retorno para casa, em quitandas amistosas. O pão é comprado na padaria. O queijo, no laticínio. A massa, na mercearia. E, em cada um desses lugares, o produto vem acompanhado de uma conversa gostosa com os donos, que prometem reservar alcachofras firmes ou uma penca de bananas maduras para quando voltarmos no dia seguinte.

Parece provinciano e retrógrado quando, na verdade, é um estilo de vida inteligente. Em vez de perderem duas, três ou mais horas por dia no trânsito, as pessoas caminham pela orla depois do trabalho. Não vi nenhuma academia, embora, no geral, os uruguaios sejam magros e cordiais. Museus, em compensação, tem um monte, e por mais esquisito que pareça eles também são frequentados pelo povo, que conhece e respeita a cultura local, e não somente por turistas. Basta ver os prédios antigos espalhados pela cidade, nem sempre bem cuidados, mas preservados como marcos de uma história que convém não esquecer. Existem edifícios modernos no Uruguai? Sim, claro, shopping centers bonitos também, com moda atual e alta tecnologia, só que eles não são construídos em cima do passado.

Se você ainda acha que prédios velhos, lojas familiares e andar a pé são coisa de terceiro mundo, vou dizer que me deparei com o mesmo na Itália, por exemplo, desde as cidadezinhas do interior até Roma. E eles não precisam convencer ninguém da riqueza material e cultural do país. Para mim, está claro que esse estilo de vida é uma opção consciente.

Agora, sabe o que eu mais encontrei no Uruguai? Brasileiros. Sim, nós estamos em todos os cantos, nas ruas, nas empresas, nos noticiários, nos restaurantes e nos pontos turísticos, basta prestar atenção que você ouve alguém falando português. Inclusive, conheci diversas pessoas que estudam nossa língua para nos atender melhor. Se os visitamos com essa frequência é porque gostamos do que eles têm a oferecer. Pois bem, será que não poderíamos trazer um pouco daquela cultura na bagagem, no lugar de jaquetas de couro e doce de leite?

É claro que a realidade do Brasil é muito distinta, incomparavelmente maior e complexa, e que não se pode tirar os costumes de um país e aplicá-los, ipsis litteris, a outro. Mas, para mim, viajar significa observar, aprender e mudar. Se você permitir, a experiência transforma sua maneira de lidar com o mundo.

O Brasil não se resume a samba, futebol e mulatas, não queremos ser conhecidos apenas por isso. Mas, então, o que mais somos? Será que essa dúvida não indica a origem de uma crise existencial? Talvez, se derrubássemos menos prédios históricos, se acompanhássemos a política de perto, se perdêssemos menos horas no trânsito, se caminhássemos mais pelas ruas, se tomássemos mais vinho com quem gostamos, se conversássemos mais sobre assuntos relevantes, se comprar pão fresco para o café de domingo rendesse o mesmo prazer do que sapatos caros no shopping, se ler um livro ou visitar um museu não fosse tão importuno, se fizéssemos piquenique no parque ao invés de ver Faustão na TV, talvez tivéssemos uma noção melhor da nossa própria identidade, aprenderíamos a encarar os perigos de se expor à tendência globalizante e superaríamos o paradoxo de pertencer ao grupo sem perder a singularidade. Não teríamos, assim, que remediar com calmantes, analgésicos e antidepressivos as angústias desse futuro tão promissor.

 
 
 
 
 

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

SÃO PAULO

Estive andando pelo centro de São Paulo. Queria aproveitar os últimos instantes das férias, pois só me restavam aquela sexta-feira e o final de semana subsequente. Fui com objetivo de visitar uns pontos turísticos que, confesso, ainda desconhecia, mesmo tendo nascido aqui – e permanecido desde então. Se fosse rápido o bastante, sobraria tempo para uma passada pelo Mercado Municipal e um café antes de recomeçar o rush do metrô. Então almocei cedo e, lá pelas 13h, desembarquei na Estação Sé.
     O tempo estava bom, com céu azul e calor, aquele típico tempo que só me agrada quando estou em férias, livre dos trajes sociais. Porque no trânsito, a pé ou espremido nos trens, prefiro um friozinho nublado, bem comum ao longo do ano. Gosto até das garoas repentinas, que, ultimamente, só dão as caras quando tocam, nos bares, músicas saudosistas a respeito de uma cidade que a maioria não conheceu.
     Visitei a catedral e a praça, o Pátio do Colégio, o calçadão do ouro, o Mosteiro São Bento e uma porção de outros lugares de que nem me lembro mais. Tudo fica bem perto, a quadras de distância. Comprei uma garrafa de água gelada para beber no percurso. Foi uma tarde gostosa, andando livre por entre os prédios históricos, cruzando com ternos e gravatas sem vestir as suas preocupações e sem me contagiar com seu ritmo afobado. Eu tinha poucas horas, mas elas eram imensas.
     As ruas estavam cheias, assim como as lojas. Nunca tinha visto tudo funcionando daquele jeito, uma vez que só vou ao centro aos sábados e domingos, o que é bem diferente. Aquela era uma São Paulo no esplendor, intensa, coração pulsando acelerado e as pernas, desbaratadas, tentando alcançá-lo. Era uma cidade tão ocupada que não tinha consciência de si mesma.
     Parei numa banca de jornais para ler manchetes. Não passou nem um minuto, uma mulher apareceu e perguntou:
     – Oi, por favor, qual é o edifício Martinelli?
     – Esse da esquina –, respondeu o jornaleiro de modo automático, como quem ouvia aquela pergunta dezenas de vezes por dia.
     Pus um pé para fora e olhei para o alto. Tive que cobrir o rosto com a mão por causa do sol. Aquele era o famoso Martinelli?
     Estava rodeado por essas proteções de madeira que se colocam em prédios em construção. Elas ficavam no último andar, bem acima da rua, restaurando a coroa do rei deposto.
     Havia luzes acesas nos pavimentos inferiores, pelo que pude observar, inclusive no térreo, onde diversos estabelecimentos tinham as portas abertas para a rua.
     – Está em reforma? –, perguntei ao jornaleiro. A mulher já tinha mergulhado de volta na multidão.
     – Parece que sim. Mas ainda dá para fazer a visita.
     – Eu achei que estivesse fechado – na verdade, achei que estivesse abandonado ou demolido, mas seria ignorância demais para demonstrar naquele momento; assim, preferi amenizar. Até porque eu já tinha passado anteriormente por ele e nem sabia que se tratava do Martinelli. – Quer dizer que posso subir lá?
     – Sim, até onde eu sei.
     O jornaleiro nunca tinha subido, ainda que sua banca estivesse ali há décadas. Talvez o fato de os turistas virem lhe importunar o tempo todo tivesse gerado algum tipo de ressentimento, ou talvez a proximidade do edifício tivesse banalizado a relação. Fosse o que fosse, não era o meu caso.
     De volta à rua, procurei uma entrada entre as lojas. Poucos metros adiante, me deparei com um balcão e duas recepcionistas. Perguntei da visita, recebi um ticket e um aviso para me apressar, pois o grupo já estava saindo e o próximo ainda demoraria outra meia hora, no mínimo.
     A entrada ficava na rua lateral, número 35. Dobrei a esquina com passos largos e, no local indicado, dei num portão fechado. Forcei a maçaneta e a estrutura inteira rangeu. Era um portão de metal bastante antigo, todo ornamentado, enferrujado aqui e ali. Para minha sorte, o barulho chamou a atenção do segurança. Falei da visita, ele me deixou entrar e passou um rádio para o guia que acompanhava os turistas. Ouvi o rádio responder: “Manda ele aí”.
     Foram vinte e seis andares no elevador expresso, que, de tão rápido, fez meus ouvidos entupirem. Quando parou, um bombeiro me aguardava.
     – O grupo já está adiantado. Vou começar com você e alcançamos eles no caminho.
     Era um senhor barrigudo, de bigodes e jeito nervoso de falar. Bem diferente do que vem à cabeça quando penso em bombeiros.
     Saímos para o terraço por uma porta de madeira. Porta antiga, com janelinhas de vidro. Dava para ver a cidade toda. Quer dizer, essa era a sensação que eu tinha.
     Meu companheiro contou a história do prédio, que foi o primeiro arranha-céu de São Paulo e testemunha de muitos momentos marcantes. Explicou a ambição ousada do empreiteiro, um imigrante italiano que resolveu duplicar o número de andares enquanto o levantava; falou do assombro que a obra causou na população da época e revelou por que existe uma casa de quatro andares lá em cima, que parece ter levantado voo nas proximidades e pousado ali, no topo do Martinelli. Sem nenhum morador propriamente dito, a tal casa abriga hoje uma secretaria da prefeitura.
     Depois, o bombeiro apontou lugares-chave dos arredores e deu informações específicas sobre eles, tais como altura, número de freqüentadores e ano de inauguração. Dados que o turista ouve com espanto e esquece no minuto seguinte. Ele dominava o assunto e falava com peito inflado. Deveria trabalhar ali há um bom tempo, pois fornecer aquelas informações não era tarefa sua.
     Lá do alto, vi o Vale do Anhangabaú, a Estação Júlio Prestes, as serras do Mar e da Cantareira, as antenas da Avenida Paulista e, atrás de um prédio mais alto ainda, ele apontou minha casa. Ficava naquela direção e daria para vê-la, não fosse o gigantesco obstáculo. Comecei a puxar assunto, o bombeiro se entusiasmou e, em consequência, o grupo a que deveríamos nos juntar acabou se afastando ainda mais.
     Contornamos todo o lugar, concluindo um giro de trezentos e sessenta graus sobre a cidade. Deve ter levado uns quinze ou vinte minutos. Eu continuava curioso, principalmente a respeito de um assunto. Quando estávamos terminando, perguntei qual era o papel do Corpo de Bombeiros ali, uma vez que havia um guia turístico para realizar o passeio.
     – É segurança. Segurança dos visitantes. Ninguém pode subir aqui sem estar acompanhado por um de nós. Não podemos deixar que ninguém debruce no beiral, e nem tente outra coisa, você sabe.
     – Imagino – Não falei nada por educação, mas achei bem desnecessário mobilizar um oficial para aquele trabalho aparentemente tão simples. Anos de treinamento para evitar que as pessoas se debrucem no beiral?
     – É, isso virou obrigatório desde que uma turma de faculdade veio aqui e um dos garotos subiu na mureta, se agarrou no pilar e ficou pendurado ali, do lado de fora, para se exibir. Já pensou se o infeliz cai? É por isso que, agora, os bombeiros acompanham todas as visitas, e se o secretário vê alguém sozinho aqui, liga lá embaixo e dá uma bronca na gente.
     Foi assim, ele leu meus pensamentos. Tentei me redimir, embora ainda não tivesse captado a gravidade da mensagem:
     – Só vocês mesmo para proteger esses malucos.
     – Pois é, pois é. Tem pior. Lá no edifício Itália acontece direto. O sujeito janta, fica no bar bebendo, criando coragem, sabe?, e depois se atira lá de cima. No Banespa é a mesma coisa. E, no Viaduto do Chá, eles se jogam para os carros passarem por cima. Acontece direto. A gente fica aqui para evitar.

Voltei ao hall do elevador ainda estupefato com a revelação. Era tão absurdo que jamais passaria pela minha cabeça, por isso demorei a entender o que tinha sido sugerido no início do papo. Fiquei imerso uns instantes, tentando digerir a nova informação. Isso era comum na minha cidade e eu não sabia? Já tinha ouvido falar, mas sempre achei que fosse uma dessas lorotas locais. Vez ou outra, quando o assunto surgiu, eu encarei como bobagem sensacionalista. Então era verdade? Quer dizer, o bombeiro não mentiria. Não ganharia nada mentindo para mim. Bateu uma vertigem repentina.
     A campainha me pôs de volta no chão. As portas do elevador se abriram e meu colega fez um gesto para eu entrar. Pus um pé para dentro e estendi a mão com propósito de cumprimentá-lo.
     – Vou descer com você –, respondeu.
     Fiquei um pouco sem graça. Recolhi a mão e a coloquei no bolso da calça. Talvez tenha sido medida de segurança, ou talvez ele tivesse que buscar o próximo grupo de turistas. O fato é que o bombeiro não me deixou descer sozinho. Fiquei pensando se eu parecia um potencial suicida, se ele suspeitara de mim, com todo aquele interesse pelo local. Voltaria enquanto ele não estivesse olhando e saltaria de lá?
     Descemos em silêncio. Durou um minuto, acho, tão rápido quanto a subida, embora eu não prestasse a mesma atenção. Vinte e seis andares abaixo, com os ouvidos entupidos e um frio na barriga, apertamos as mãos, finalmente. Agora sim, agradeci e perguntei seu nome.
     – Paulo.
     Voltei às ruas e me dirigi imediatamente ao metrô, pois já eram quase 17h e o aglomerado começava a se formar. Um pouco daquilo permaneceu em minha cabeça. O trabalho esquisito daquele bombeiro, esperando o próximo suicida chegar, prestando atenção em cada um para, se for o caso, frustrar seus planos. Não para salvar a vida; quer dizer, acho que essa não era a prioridade, sabe-se lá qual o tipo. Era mais para não sujar a reputação do lugar. Não sei, não sei. Se os bombeiros têm reputação de santos, à toa não é. Talvez aquele fosse um homem bom, salvando suicidas que, se estivessem certos do que desejavam, rumariam para outro edifício tão alto como aquele ou optariam por uma caixa de comprimidos. Ou um revólver, se fosse fácil obtê-lo. Os bombeiros não estão em todos os lugares ao mesmo tempo, como os suicidas, convivendo perto de mim, habitando os mesmo bares, as mesmas ruas, talvez ali mesmo, no metrô, pensando no assunto, considerando o que valia mais a pena. Fiquei ruminando aquilo durante a viagem de volta. Queria contar aos amigos, mas caí na rotina outra vez e acabei esquecendo. Só me dei conta da coincidência do nome muito tempo depois.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011


Sol, Sozinha
(Punta del Este, Uruguai, 2011)

A BELEZA EM CADA UM DE NÓS

"A beleza absoluta e eterna inexiste, ou melhor, é apenas abstração empobrecida na superfície geral das diferentes belezas. O elemento particular de cada beleza vem das paixões, e como temos nossas paixões particulares, temos nossa beleza particular."

Charles Baudelaire, 1846

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

DESFAZER

Seria um costume estranho, que os mais chegados certamente criticariam, caso soubessem. Pois não sabiam e, pela mesma razão, os mais chegados tampouco existiam. Ele não tinha por que contar, tratava-se da sua maneira particular de pertencer ao mundo. Deixando rastros quase imperceptíveis, plantando provas de sua passagem, demarcando territórios anonimamente. Era muito simples, bastava tirar um pedacinho de seu corpo e o deixar para trás. Ficaria ali para sempre, enquanto o resto seguiria seu caminho. Uma ideia linda, pura poesia. Uma lasca de unha no assoalho do táxi que foi buscá-lo no aeroporto. Pelos da perna ou do braço sob o colchão do hotel. Cera de ouvido no tampo da mesa do bar, esfregada por baixo. Cabelo no ralo do banheiro. No ralo da pia, que é mais difícil de limpar. Uma fina camada de pele inserida com cuidado no vão de uma escultura de museu. Saliva no banco da praça.

Viajava sozinho, como sempre. A vida é solitária, por mais que as pessoas se envolvam e disfarcem o fato. A vida solitária é um castigo para o qual os insatisfeitos com a própria existência nos empurram. Fazem força para dar à luz, os desgraçados. Ele sabia disso muito bem, aprendera sozinho, observando. Sabia que tinha sido posto no mundo coletivamente, mas morreria sozinho, porque morrer é uma tarefa que ninguém poderia cumprir por ele. Nenhum dos egoístas do passado, nenhum dos individualistas do presente. Os egocêntricos. Incerto dia, ele morreria num lugar qualquer sem jamais ter tocado o chão, mudado a paisagem, conduzido as rédeas da humanidade. Sem jamais ter protagonizado nada relevante ou ter assumido responsabilidades. O mundo continuaria a existir exatamente da mesma maneira que existia antes dele, e ele morreria sem jamais ter sido alguém.

Tal como as migalhas de pão do conto de fadas, ele espalhava frações de seu corpo por aí. Não para retornar mais tarde, porque ainda havia muito caminho pela frente, um caminho interminável, impossível de vencer. A estrada era maior do que ele. Incomparavelmente maior. A lasca de unha, os fios de cabelo, as células de seu corpo que iam caindo e compunham a poeira do mundo ficavam para trás com objetivo de marcar a passagem, de oficializar sua breve estada, de pontuar um capítulo para que ele pudesse, de alguma maneira, sentir-se presente, sentir-se vivo, tocar e ser tocado. Ele queria estar no maior número de lugares possível. Era um ritual próprio, sua maneira de pertencer. Não ficaria preso a si, ao seu corpo. Estaria, ao mesmo tempo, no mundo inteiro e dentro de sua consciência pessoal.

Tudo bem que ninguém o notasse. Os outros estavam preocupados demais com as próprias trajetórias para acolhê-lo em atenção. Ele preferia existir no anonimato, com total autonomia, a incomodar o cão. Bastava de latidos e perseguições, sua infância tinha experimentado o suficiente, era só fechar os olhos e lembrar, caso necessitasse.

Pois não necessitava. O caminho ia à frente, era impossível enxergar o final, tão impossível alcançá-lo com os olhos quanto com os pés. Mas a próxima curva não ficava tão longe. Era para lá que ele rumava. Sempre na direção da próxima curva.

Deixou os restos da barba recém-feita, ainda misturados à espuma, em cima da porta do banheiro. Puxou uma cadeira, subiu, ficou observando a água penetrar na folha de madeira e grudar os pelinhos ali, onde ninguém iria mexer. Mudou-se, então, para outra casa. Não havia tempo a perder. Nessa, grudou um chiclete no fundo da caixa d’água, arrancando antes um dos dentes e o enfiando na goma. Ele esvaziou a caixa cuidadosamente e só voltou a enchê-la três dias depois, quando o chiclete secara bem o suficiente para ficar firme. O rito se aperfeiçoava. A boca ainda sangrava quando a escova de dente resvalava a ferida, mas deveria estancar dentro de dois ou três dias. Foi o que aconteceu, e ele já tinha partido de lá.

O costume o acompanhou durante todo o tempo, ganhou estatuto de missão, de objetivo de vida. Sempre um sacrifício novo.

Houve uma casa da qual ele gostou mais, sentiu vontade de se estabelecer e isso não podia acontecer, não poderia se deixar seduzir. Era uma casa confortável, com roseiras plantadas junto ao muro da frente e crisântemos no quintal dos fundos. Havia touceiras grandes de crisântemos, eram bonitos e repousantes. Ele estava cansado da caminhada, cansado de mudar e mudar novamente, de carregar todos os seus pertences em duas malas de mão, de aprender novas línguas, de se adequar forçosamente a outros costumes, perdendo sempre. Cansado de tratar com o entorno, de dar tanto de si... em troca de quê, mesmo? Hesitou por um instante, surgiram dúvidas. Isso não podia acontecer. Ainda restava muito caminho pela frente; o cansaço e os vícios não poderiam vencê-lo. Ser derrotado por um motivo tão reles, jamais.

Ele deixou um dedo naquela casa, como forma de gratidão. Achava que o lugar merecia um dedo, talvez mais. Enfim, tinha sido um dedo útil, deveria bastar.

Dali em diante, começou a prestar mais atenção aos imóveis alugados. O dedo que faltava serviria para lembrá-lo de não cometer o mesmo erro duas vezes. As casas ou os apartamentos não podiam ter atrativos que ofuscassem sua missão. Daria preferência a hotéis sempre que possível. Ele também não poderia ser tentado por ruas, praças, campos, praias, estradas ou poltronas – adorava poltronas, em especial aquelas que cedem ao peso do corpo cansado e reclinam para trás. Só que não podia se deixar ludibriar por móveis ou imóveis ou paisagens banais, por mais idílicos que fossem. Precisava continuar indo em frente, sempre em frente, superar os vícios e evitar ao máximo dispêndios irreversíveis.

Anos depois, não lhe restavam muitos dedos para contar. Com o avanço da idade, ficava difícil não se envolver emocionalmente com um lugar e estabelecer raízes. Precisava podá-las, arrancá-las da terra quando começavam a brotar, e isso lhe doía.

Teve que apelar para uma orelha quando encontrou a praia dos seus sonhos, um paraíso bonito e tranquilo, de águas quentes e vastidão deserta. Decepou-a com um velho canivete de bolso e a enterrou com carinho na areia, perto de um amontoado de pedras que ia até o mar. Queria aquela praia para si, estar nela por toda a eternidade. Queria espalhar-se inteiro por ali.

Levantou o rosto com um sorriso triste. O sangue escorria pelo pescoço e pingava no peito, misturando-se ao suor. Fazia tanto calor, o sol estava tão a pino que ele não percebia nem o sangue nem a dor. As gotas caíam na areia como chuva. Ele tinha notado isso antes, porém, o lugar era perfeito demais para que deixasse ali apenas suor e sangue, tal como outros também poderiam fazer.

Levantou o rosto essa última vez, respirou profundamente, deixou que a paisagem o invadisse por todos os cantos, inflando-o com força de vontade. Então, virou as costas e partiu sem olhar para trás.

Um dos pés ficaria numa acolhedora cidade interiorana, dessas em que dá vontade de chegar e não sair mais. A patela ficou no campo, perto dali, numa plantação amarela que, com o vento abafado movimentando a vista, lembrava pinturas de Van Gogh. A omoplata, difícil de tirar, ficou no alto do edifício mais alto, porque ela parecia uma asa e, naquele momento, tudo o que ele queria era saber voar.

Sua vida se sucedeu assim, pé ante pé, até que precisou arrastá-la com os cotovelos, depois com os ombros, depois com o movimento dos músculos do abdômen. Quanto mais avançava, mais feliz ficava, mais satisfeito por conhecer e se espalhar no infinito. A cada metro vencido, ele ficava maior, ficava mais completo; ainda que continuasse incógnito. Apesar de seus feitos, apesar de estar ao mesmo tempo em tantos lugares diferentes, de ter conquistado tudo aquilo, ele continuava ignorado. Pois bem, os outros não importavam. Na vida, tinha sido sempre ele e o mundo, e agora que a morte se aproximava, deveria continuar assim.

Quando nada mais lhe restava, cavou um buraco fundo, tão fundo que não pertencia oficialmente a lugar nenhum, a cultura nenhuma, a governo nenhum, a nenhuma forma de vida ou instituição que pudesse reivindicar o conteúdo. Depositou ali seu coração, tal como uma semente de amor no centro do mundo, de modo que pertencesse ao tudo e ao nada consecutivamente. Queria brotar, crescer e se espalhar o máximo possível com raízes, galhos, frutos e sementes. Queria transformar o ar. Multiplicar-se. Aquele seria seu lugar definitivo, embora um lugar definitivo fosse o que menos desejasse.

Não havia mais o que fazer, acreditava ser a hora derradeira. Jamais saberia quanto da missão tinha cumprido, se tinha andado o suficiente para se afastar do início e se aproximar do fim com dignidade. Jamais saberia se tinha valido a pena, se tinha conseguido escrever suas linhas, colaborar com a história, transformar um pouco o curso das coisas, acrescentar seu toque pessoal ao entorno, sugerir seu gosto, mesmo que fosse imperceptível ao sentimento alheio. Jamais saberia em que locais do mundo se encontrava. Nunca se sabe. Tudo o que ele queria era pertencer, de uma maneira ou de outra. Pois bem, tinha chegado a algum lugar. Se era para ser assim, então, que fosse.

Mal sabia que a história não termina, que não tem começo, meio ou fim. Naquela nova cavidade, construída com tanta fé, seu coração continuou pulsando. Continuou batendo forte, mesmo quando sua alma foi dali para outro lugar qualquer.

*A imagem que ilustra o conto chama-se Mesa Surrealista (1933), de Alberto Giacometti

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

"A arte se diferencia do pensamento puro porque é material, e das coisas ordinárias porque é pensamento."

Waldemar Cordeiro, O objeto (1956)

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

ÁGUA MOLE, PEDRA DURA

Era para ser uma pintura rápida, um esboço a óleo sobre tela que, nas palavras do retratado, levaria uma ou duas horas para ser concluído. Alberto Giacometti e James Lord eram amigos, e aquilo tinha como propósito apenas a diversão de ambos. Um disse que queria, o outro respondeu que faria e pronto, estavam combinados. Só que a persistência do artista para obter um resultado satisfatório – entre suas tormentas existenciais e ameaças de abandono do projeto – levou o modelo a posar durante catorze dias não-consecutivos. Isso mesmo, catorze sessões de duas a quatro horas cada! Esse processo criativo foi registrado pelo escritor num divertido diário, que, além de revelar detalhes sobre a obra de Giacometti e sobre sua concepção de arte, também nos leva a pensar em nossas próprias vidas, em como reagimos às adversidades, na relevância de nossos planos e no que, afinal, nos faz felizes.

E tem mais: durante esse tempo todo, o artista pintou apenas a cabeça do amigo. Pintou e repintou, pintou e repintou, concentrando-se somente nela. Considerava a tarefa impossível, mas continuava tentando. Ao fim de cada sessão, os dois olhavam a tela e notavam certo avanço, mas no dia seguinte o pintor apagava tudo e recomeçava do zero. “Estou destruindo você”, dizia. James Lord se angustiava. Com o tempo, porém, aprendeu a dar de ombros e assentir: “É você quem manda”. Seu respeito pelas escolhas do mestre beirava à devoção. Em troca, Alberto lhe ensinou que cada passo adiante é sempre uma luta contra as próprias crenças, e que a superação depende também de muita cessão, além da tradicional força de vontade.

Em setembro de 1964, dinheiro e fama já não eram problemas para ele. Suas obras podiam ser vistas mundo afora e agradavam tanto o público quanto a crítica. O artista já tinha até mesmo conquistado o Grande Prêmio de Escultura da Bienal de Veneza, o mais importante de sua carreira. Ainda assim, persistia na empreitada, blasfemava que não entendia nada daquilo, que deveria desistir de uma vez por todas, pois jamais conseguiria fazer alguma coisa bem feita. As glórias do passado não iludiam seus olhos nem transbordavam sua autoconfiança. Todo dia era um novo dia, e isso ficou evidente durante a pintura do retrato. Seu temperamento exagerado pedia toda a paciência de James Lord. No entanto, ao ler o diário, publicado propositadamente sob o ambíguo título de Um retrato de Giacometti, ele chega a ser hilariante.

Pois bem, qual é a relação disso tudo com a nossa busca por felicidade? No livro A arte da vida, o filósofo Zygmunt Bauman afirma que a vida é uma obra de arte e que “devemos, tal como qualquer outro tipo de artista, estabelecer desafios que são difíceis de confrontar diretamente; devemos escolher alvos que estão muito além de nosso alcance, e padrões de excelência que, de modo perturbador, parecem permanecer teimosamente muito acima de nossa capacidade de harmonizar com o que quer que estejamos ou possamos estar fazendo. Precisamos tentar o impossível”.

Alberto Giacometti parece ter sido a encarnação perfeita dessa proposta. Em um momento de desânimo, chegou a prometer os milhões de sua poupança a alguém que pintasse “aquela maldita cabeça” por ele.

“Tenho certeza de que, por essa quantia, muitos o fariam”, comentou o modelo na ocasião, ao que o artista prontamente retrucou: “Não fariam à minha maneira”. Não se tratava apenas de uma saída irônica. Ele realmente assumia a tarefa como um desafio pessoal e precisava cumpri-la a qualquer preço. A razão da sua arte consistia em representar o mundo da maneira como ele se mostrava a seus olhos, e só com muito suor conseguia executá-la – o dinheiro não lhe valia de nada.

No citado livro, Bauman faz uma comparação interessante entre renda e felicidade, mostrando que, após serem atendidas as exigências básicas para se viver com dignidade, o nível de felicidade continua estagnado, mesmo que a renda se multiplique exponencialmente. Em outras palavras, o crescimento econômico só influencia a felicidade das pessoas até certo ponto.

No geral, continuamos acreditando que comprar nos deixa mais felizes. Bauman alerta para o perigo de se cair no conto do publicitário, que sempre apresenta uma nova etapa nessa busca. Prolongando o caminho, nunca atingimos o fim. E, durante a jornada, acabamos nos esquecendo de coisas mais importantes, que o dinheiro não compra.

Uma delas é o desafio que se impõe a cada dia e nos obriga a superar obstáculos para realizarmos um bom trabalho, digno de orgulho próprio, exatamente como fazia Giacometti. Trata-se de uma satisfação cada vez mais rara. Confrontando-se com problemas que pareciam insolúveis, ele reinventava a si e a sua arte. Possivelmente foi essa incessante busca que o fez, além de um talento mundialmente reconhecido, um homem feliz. A persistência, como sugere o ditado, leva à realização. O diário de James Lord é testemunha disso e, por que não?, serve de manual para uma vida melhor, em que tanto a arte quanto a felicidade estão ao alcance de todos.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

ALGUNS SÃO ARTISTAS, INDEPENDENTEMENTE DA ÁREA EM QUE ATUAM



Ó MORTE, Ó MORTE
SÁBIO DOM DE DEUS.
DE TI VÊM AS GRAÇAS DO MUNDO
ATÉ O AMOR.
E AGORA AQUI, ONDE NÃO HÁ
                                       RETORNO 
COM OLHOS VAZIOS OLHAMOS
AS NUVENS, O MAR, AS SELVAS
SEM MAIS MISTÉRIOS.

Dino Buzzati, em Poema em Quadrinhos

domingo, 2 de outubro de 2011

A SE CONSIDERAR

Outro dia, me perguntaram por que tento sempre destacar um ponto positivo nas obras que critico, mesmo naquelas que não me agradam. Ora, acho muito triste quem não encontra algo interessante em livros, músicas, filmes, quadros, danças, esculturas... enfim, na criação artística em geral. Acho, inclusive, que nesses casos o problema não está na obra, mas no crítico. Nada é 100% bom ou 100% ruim, nem a arte nem os homens; o que existe são pontos de vista. O que um odeia, outro pode amar. Quem está errado? Ninguém. O papel da crítica é propor uma leitura, fundamentar reflexões a respeito, instigar o leitor a experimentar – muito se engana quem acredita que o crítico deve falar mal, e só. Penso justamente o contrário. Falar mal é fácil demais. Existe, porém, sempre um ponto positivo, e para revelá-lo é necessário antes vencer a própria mesquinhez. Se você não consegue vê-lo, talvez seja hora de deixar a produção alheia de lado e criticar os seus sentimentos pessoais.