quinta-feira, 27 de maio de 2010

Fui buscar mais uma foto da Cordilheira dos Andes para ilustrar o trecho abaixo, pois bastou eu ler para reviver toda aquela experiência maravilhosa da viagem.

Não é incrível o poder que as palavras têm de invocar imagens e sentimentos?



"Eu viajava. A paisagem na qual eu me encontrava era de uma grandeza e uma nobreza irresistíveis. Algo delas decerto passou naquele momento para minha alma. Meus pensamentos esvoaçavam com uma leveza igual à da atmosfera; as paixões vulgares, como o ódio e o amor profano, me pareciam agora tão distantes como as névoas que resvalavam no fundo do abismo aos meus pés; minha alma me parecia tão vasta e tão pura como a cúpula do céu que me envolvia; e a lembrança das coisas terrestres só me chegava ao coração enfraquecida e diminuída, como o som da sineta dos gados imperceptíveis que passavam longe, bem longe, na vertente de outra montanha."

Charles Baudelaire, em Pequenos Poema em Prosa

segunda-feira, 24 de maio de 2010

O(S) BABACA(S) DO GULLAR


Merda de artista, lata número 20 das 90 produzidas por Piero Manzoni em 1961. Elas foram vendidas pelo mesmo valor do peso do ouro.


Perguntei a Ferreira Gullar por que uma obra de arte deve sobreviver ao tempo, já que ele afirma a rápida decadência das “bobagens conceituais”. Será que elas não podem emocionar uma geração e depois ficar com seu discurso obsoleto? O que há de errado nisso? Eu estava com medo de que essa maneira de pensar se tornasse mais um critério para a definição de arte e não-arte – e ninguém precisa retomar esse debate retrógrado.

Gullar não tinha resposta, fingiu indignação e fez pouco caso da pergunta, como se a solução fosse tão óbvia que não merecesse ser anunciada em voz alta.

Para mim, qualquer manifestação humana é arte, não importa o quanto dure. Podemos ir de um gostoso pudim de pão à Monalisa: querer provar que não são obras de arte não leva a lugar algum. A obra pode mexer ou não com você, emocionar a muitos ou somente ao seu autor, conter uma ideia evidente ou não. E ponto final. Talvez esses critérios sirvam para medir sua relevância histórica, mas não vejo outro tipo de julgamento a ser feito. Aliás, qualquer nova medida parecerá impertinente e egoísta.



Vitória de Samotrácia

Gullar se sente dono da verdade e acredita que sua fama lhe dá o direito de ser mal educado. Chama os artistas conceituais de babacas, quer interná-los em hospitais psiquiátricos. Teimou comigo que obras como a Merda de artista, de Piero Manzoni, não são arte. Chamou-a de “cocô na lata” e disse que essas ideias esdrúxulas não sobrevivem. Ficou louco da vida quando retruquei, dizendo que, se não sobrevivem, por que ainda estávamos falando delas, quase meio século depois? E por que constam em qualquer livro básico de História da Arte, apenas alguns capítulos depois da Vitória de Samotrácia e do Davi, de Michelangelo?

A questão é não julgar a criação de Manzoni segundo aspectos formais, livres de contexto. Ou mesmo a Fonte, de Marcel Duchamp, outro exemplo dado por ele. Clemente Greenberg, influente crítico do modernismo, tentou seguir por esse caminho e chegou somente até meados do século passado, quando ficou sem critérios para continuar. Porque a arte mudou bastante e ambas as obras citadas aqui são concepções intelectuais, cápsulas de ideias, que não pretendem ser bonitas ou feias. Têm origem conceitual, criticam nossa maneira de encarar a produção artística, os artistas e a nós mesmos. São manifestações que falam da vida, das regras que se criam e se quebram e do comportamento humano perante tudo isso. Elas têm seu valor garantido, independentemente de Gullar gostar ou não.



Fonte (1917), de Marcel Duchamp

Para fechar com chave de ouro, ele quis provar para mim que a teoria da reprodutibilidade técnica de Walter Benjamin está completamente errada, pois a “aura” do objeto artístico continuaria existindo mesmo nas obras reproduzidas em larga escala. Acho que não entendeu direito o texto, ainda mais porque quis justificar sua posição dizendo que um veículo de 1930 foi vendido recentemente na Europa por 40 milhões de euros, mesmo tendo saído da fábrica junto com muitos outros iguais. Ora, esse é o exemplo perfeito do contrário, da aura adquirida com o tempo devido à raridade. Pois existem obras que se tornam “auráticas” por serem únicas, como a Monalisa; devido à autoria, como as cópias do Pensador, de Rodin; e devido à raridade, como esse carro que ele citou, entre tantas outras possibilidades destacadas por Benjamin.

De qualquer maneira, a conversa acabou aí, pois Gullar disse em bom tom que não valia a pena “perder tempo discutindo” comigo. Que belo crítico ele se tornou, que já traz as ideias prontas de casa e não se propõe a pensar diante daquilo que seu preconceito prefere ignorar. Ou diante de outros críticos interessados em compreender melhor esse troço esquisito denominado arte.

Fingindo-se revolucionário e exigente, com frases de efeito do tipo “o que eu mais quero é ser comovido”, Ferreira Gullar me decepciona a cada encontro. Logo ele, autor do repugnante Poema Sujo, se acha no direito de menosprezar outras repugnâncias artísticas. E por sua recusa teimosa de compreender (e participar) de diversas facetas da arte contemporânea, ele me parece muito mais babaca dos que os “babacas” que julga com critérios antiquadíssimos.

É uma pena que a maioria dos interessados em questões artísticas abaixe a cabeça e abane o rabo quando Gullar fala.

Penso em Hélio Oiticica, seu amigo de juventure e um dos artistas conceituais mais importantes do mundo, e fico triste. Ele deve se revirar no túmulo a cada barbaridade dita por Gullar. Acho que, no momento em que enterrou seu poema*, em 1959, Gullar enterrou também sua vontade de se atualizar. Só que a arte continua se transformando num ritmo alucinante, assim como a sociedade que dialoga com ela. Ainda bem. Tomara que ambas fechem os ouvidos aos resmungos inconformados do velho poeta ranzinza. Estaremos muito melhor sem eles.


*Poema enterrado era constituído por uma sala subterrânea, dentro da qual havia um cubo de madeira de cor vermelha. Dentro dele, um outro, verde e, finalmente, um último cubo de cor branca, com a palavra "Rejuvenesça". Construído na casa do pai de Hélio Oiticica, foi destruído por uma inundação, provocada por chuvas.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

PENETRÁVEIS


Éden (1969), de Hélio Oiticica

"O lazer não é usado por si mesmo, mas para tornar o trabalho mais suportável. Em Éden, você deve perder a noção de horas de trabalho e horas de lazer."
Hélio Oiticica



Tropicália (1967), de Hélio Oiticica

"Tropicália é um tipo de mapa. É um mapa do Rio e é um mapa da minha imaginação. É um mapa no qual você entra."
Hélio Oiticica


Três motivos para prestar atenção em Hélio Oiticica
por Gisele Kato, em Arteria

1. Ele convidava o público a abandonar a postura passiva diante das obras. Na mostra, entramos em seus Penetráveis, vestimos seus Parangolés, cheiramos café em seu Bólide, lixamos as unhas em sua Cosmococa.

2. Ele anunciava que as fronteiras entre pintura, escultura, desenho, instalação ficariam cada vez mais borradas. Pintava em Relevos. Desenhava com cocaína. Sambava, escrevia, refletia. Sem caber em classificações.

3. Ele aceitava que o valor de um artista não estava centrado em sua habilidade manual e sim em sua capacidade de pensar as coisas e traduzir isso visualmente. Tanto é que deixou orientações bem detalhadas para que qualquer um pudesse refazer suas peças.

terça-feira, 18 de maio de 2010

COR: RAZÃO E SENSIBILIDADE


Pintura nº 78 (2010), de Felipe Góes

Meus olhos tateiam as diversas camadas e texturas. O caminho do pincel dita o meu caminho, as linhas que não aparecem mas que estão lá, ocultas pelas dimensões de cor. Busco algo que ainda não sei definir, algo além do pigmento, um significado emergente na pintura. Talvez um lapso de memória, uma referência ao amor, uma apologia à vida. Entre coisa e outra, encontro na pintura de Felipe Góes minha própria vontade de sentir.

Experimentar com cores é experimentar o olhar. Transformar a superfície por meio de ranhuras, manchas, transparências, massas uniformes ou difusas. Os planos se sobrepõem e constroem uma nova espacialidade. Em outro canto, eles impõem limites, fronteiras, numa dialética sensível e sensual. O amarelo toca o azul mas eles não se misturam; o verde permanece como potência, na iminência de existir. O mesmo acontece com a figura, a perspectiva, a profundidade. Por quê? O que há por trás de tudo aquilo?

Não sei dizer. Não sei explicar o encanto, embora ele se mostre claramente. Acho curioso o fato de que, mesmo depois das tantas mutações que a arte sofreu no último século, Felipe ainda se deixe intrigar pelas cores.

ORA, EXISTE MISTÉRIO MAIS ESSENCIAL À PINTURA?

Ainda bem que ele o faz. Sua pesquisa é interessante e enigmática, viva e loquaz. Enquanto sintonizo tranquilamente suas ondas cromáticas, sinto o poder persuasivo da arte reativar os sensores mais abandonados do meu ser.

Talvez o excesso de conceitualismos dos últimos tempos tenha enrijecido minha alma. Por isso, é muito bom deixar a pintura me levar sem explicar por quê, por onde ou por quanto tempo. As cores, que falam a língua do sentimento mais puro. As cores que surgem e que se vão, deixando em minha alma uma marca inconfundível. Doce sedução.

Observar atentamente aquelas pinturas traz um risco gostoso de assumir: você se sente parte delas e quer ir sempre mais a fundo. Será possível? Felipe Góes nos prova que sim.


SOBRE A EXPOSIÇÃO
Corpo da Cor, individual de Felipe Góes na Casa Galeria
De 17 de maio a 19 de junho
www.casagaleriacafe.com.br





Na sequência: Pintura nº 72, Pintura nº 70 e Pintura nº 63

Veja mais obras em: Felipe Góes_Portifólio de Pinturas

quinta-feira, 13 de maio de 2010

A PARTE PELO TODO

A maior parte das pessoas desce na estação
A outra maior parte permanece no trem para seguir adiante
A maior parte das pessoas está em todo lugar
A menor parte está escondida dentro de cada um.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

quinta-feira, 6 de maio de 2010


Concetto spaziale "attese" (década de 1960), de Lucio Fontana


Sobre a fragilidade da vida
Construímos e devastamos cidades
Unimos e derrubamos pontes
Amamos e blefamos continuamente

Baixamos decretos sobre o amor


Sobre a fragilidade da vida
Definimos e vencemos fronteiras
Reinventamos o corpo humano
Chegamos à essência indivisível
E continuamos a anos-luz da perfeição

O microcosmo,
A efêmera vitória


Sobre a fragilidade da vida
Abandonamos o mundo ao rés do chão
E com narizes empinados
Aspiramos ao infinito

A morada dos deuses


Mas é sob a fragilidade da vida
Que finalmente nos enterramos
E nas profundezas da insignificância
Alcançamos a eternidade

terça-feira, 4 de maio de 2010

"(...) que a cultura seja um estímulo à vida atual, e não um culto aos mortos."

Marshall Berman, em Tudo que é sólido desmancha no ar

segunda-feira, 3 de maio de 2010

DILEMA E REALIDADE



Quando você finalmente relaciona as imagens com o título e compreende a poesia de Heitor Dahlia, sobra aquela sensação gostosa de que o cinema pode ser mesmo uma grande arte. Pois estar à deriva é flutuar ao sabor das ondas, como um barco que já consumiu todo o combustível de que dispunha, e entre se desesperar e aceitar que é mesmo impossível controlar os entraves da vida, o melhor talvez seja simplesmente se deixar levar.

A história é contada a partir de Filipa, uma adolescente de catorze anos que se encontra entre os dilemas típicos da idade. Tudo ao seu redor está se transformando, suas ilusões infantis começam a dar lugar à fria racionalidade da vida adulta, as férias não têm mais sabor de sorvete, os irmãos mais novos parecem distantes e as pessoas mais velhas ainda se mostram inacessíveis.



A solidez das relações familiares desmorona à sua frente sem que ela possa fazer nada para mantê-la no lugar. Pode apenas observá-la e tentar manter a própria solidez. O ato de olhar guarda um grande poder, mais um dualismo que Filipa precisa enfrentar. Pois ver é descobrir, encontrar, vislumbrar; porém, ver também é destruir, desfazer o encanto, revelar o truque. No filme, temos esses dois olhares muito bem definidos. O primeiro mostrado pelas tomadas amplas, que exploram a maravilhosa geografia de Búzios (RJ), onde o terreno pedregoso separa a mata virgem das águas traiçoeiras do mar. O segundo está nas câmeras voyeristas, bisbilhoteiras, sempre escondidas atrás de uma cerca ou persiana. Elas espiam o que não deveria ser visto, profana o que até então permanecia sagrado.

Há ainda uma terceira câmera, bastante intimista, que se mantém próxima dos personagens e esquenta o filme, leva o espectador para dentro da crise familiar que se encena, fazendo com que ele participe com o coração e sinta mais intensamente o conflito.

O figurino muito bem escolhido por Alexandre Herchcovitch colabora com essa relação, situando-nos no tempo e no espaço do filme, enquanto a maravilhosa fotografia de Ricardo della Rosa acrescenta sentimento ao visual retro. O granulado sépia e azul desbotados sugere a presença da memória, como se estivéssemos regredindo e revivendo um momento então incompreensível. As contraluzes, o brilho do sol, a magia da lua, os reflexos e as transparências – tudo ofusca e preenche a tela de encanto.



Entre o dia e a noite, as férias de Filipa vão chegando ao fim, assim como sua inocência. O livro que seu pai escreve – e do qual pouco revela – traça um paralelo com a realidade, recontando a história que acaba de acontecer e acentuando ainda mais a divergência entre as verdades e mentiras do casal. Pode ser uma espécie de reflexão meditativa, só que também é necessariamente uma ficção, a ser reinventada segundo o ponto de vista de uma única pessoa: o autor.

É dentro do livro que Filipa encontra pela primeira vez os fatos de que a vida é frágil e suscetível a erros. É levantando a cabeça e olhando ao redor que descobre a possibilidade da morte. E é assim, encarando sua antagonista, que ela compreende as regras da existência.

O pai de Filipa então deixa de ser um herói infalível e se torna um homem como outro qualquer, sujeito às adversidades da convivência, e seus braços de aço já não conseguem mais afastar a filha das ameaças do entorno. A mãe deixa de ser a mulher mais bonita do mundo e perde o encanto para as rugas que lhe começam a tomar o rosto. Todos que foram adolescentes um dia passaram por isso, só que não está no roteiro de Dahlia a redescoberta do heroísmo e da beleza dos pais, coisa que só acontece muito mais tarde, quando amadurecemos de verdade. A Filipa da tela permanece jovem, sem entender muito bem o que se passa porque é apenas uma criança, embora seja obrigada a ajudar porque também é adulta. Assim, ela fica perdida entre os seus sentimentos e os dos outros, entre o amor ideal e as decepções reais, entre a idade adulta e os sonhos da infância.

Filipa flutua num mar revolto, encontra-se a uma profundidade em que não consegue mais tocar o chão e não sabe se está a centímetros ou a quilômetros dele. No decorrer da história, nós flutuamos com ela, compartilhamos suas dúvidas e nos emocionamos com seus sofrimentos. Mérito de Heitor Dahlia.

domingo, 2 de maio de 2010

O POP E O PAPA


Marilyn Monroe, de Andy Warhol

A gente se acotovelava para vê-lo, o lugar não parecia grande o bastante, os corredores estavam lotados e os seguranças a ponto de perder o controle. "Lá está! Lá está!", gritavam os mais afoitos quando reconheciam algum indício de toque divino. As mulheres suspiravam encantadas com a fama, querendo fazer parte daquilo tudo de uma maneira ou de outra, querendo um retrato seu em cores berrantes. "Ai-que-lindos", deuses aqui e acolá, o Olimpo hollywoodiano em todos os cantos, musos e musas do mundo flash. Olha o Marlon Brando!, olha o Jimmy Carter!, olha a Estátua da Liberdade! Pois é, eis que finalmente Mr. America vem nos visitar, o papa do pop, grande apropriador de ícones sócio-culturais e mobilizador de massas. Senhoras e senhores, please welcome, Mister Andy Warhol!

A Estação Pinacoteca, em São Paulo, estava lotada de analfabetos da arte em busca da tal "aura" que Walter Benjamin teorizou. Não compreendiam nada do que se pendurava à sua volta, apenas achavam bonito o que lhes fora ensinado como bonito e feio o que não lhes fora ensinado. Só que era pop estar ali. Nada como dar uma olhada nas Marilyn Monroe, todas coloridinhas, extravagantes, um show. As latas de sopa? Ficam ótimas quando estampadas em camisetas. Venham conferir! Garantam já as suas! E a lojinha estava ainda mais lotada do que o resto da exposição.

Não consegui assistir a filme algum, pois as salas de exibição estavam cheias de pessoas se socializando e prestando atenção em tudo, menos na tela. Deve ser chato, né? Preto e branco, sei lá, coisa velha. É melhor voltar para casa a tempo de pegar o Big Brother na TV.

Ah, bom seria se os artistas tivessem mesmo perdido a auréola, tal como quis Baudelaire quase duzentos anos atrás. Nada de divino, nada de devoção, apenas homens comuns como eu e você. Eu também queria um mundo sem tietagem. E o coitado do Benjamin ainda teve tempo de pensar, antes que os nazistas o levassem ao suicídio, que o futuro da arte estava no cinema, pois para ele a pintura era incompatível com as massas. Mas a verdade, meu caro Walter, é que a massa gosta mesmo é de uma massa, não está nem aí para a pintura ou a filmagem. A Monalisa que o diga, leva milhões ao Louvre todos os anos e, acanhada em sua redoma de vidro, mal deixa os olhos dos passantes a observarem diretamente. Tudo bem, para estes, o que importa é tirar uma foto escondido e dizer aos amigos que estiveram lá.



O pensador, de Auguste Rodin

Embora na maioria das vezes seja trágico, o preço da fama também tem seu lado cômico. Foi o Pensador de Rodin que me disse, sentado em sua pose clássica, com o cotovelo apoiado no joelho, a cabeça no punho e os olhos desbravando o além: "Todo mundo se aproxima, tenta me imitar, tira uma foto para o Orkut e vai embora rapidinho com medo de causar incômodo". Mal sabem que o que mais o incomoda é não darem a menor atenção às suas formas moldadas em argila (e não esculpidas), não tentarem compreender seus pensamentos e não perceberem que, ao imitá-lo, apoiam o cotovelo no joelho errado – veja bem, o cotovelo direito vai na perna esquerda, é por isso que seu tronco fica tão torcido. Que mico, hein?

Voltando ao pop de Mr. America, vou logo avisando que quase tudo ali era reprodução, o original não tem importância maior, é apenas uma matriz de impressora. Imagino que isso deverá desapontar muita gente, desculpe por destruir suas crenças. Só que era essa a ideia do homem, vou fazer o quê? Ele queria acabar com a aura criada pela obra de arte única – e ganhar muito dinheiro com sua fábrica de imagens –, embora ainda hoje seja incompreendido, basta ver o fuzuê da exposição. Então, o mínimo que devemos fazer é encará-lo da maneira correta. Pois, se hoje até o papa é pop, por que a Pop Art tem que ser sagrada? Não, a ideia é profanar, banalizar os ícones sócio-culturais, transformando-os em arte e depois destransformando, copiando, copiando e copiando. Se bater aquela vontade de chamar o Andy de "deus", cuidado: o que a arte de hoje menos precisa é ser considerada sagrada, e devemos evitar a todo custo transformar novamente o museu em templo. O divino não está ali, veja bem, ele está entre nós.

PERDA DA AURÉOLA


Marilyn Monroe, foto de Bert Stern

– O quê? Você por aqui, meu caro? Num lugar suspeito? Você, o bebedor de quintessências? O comedor de ambrosia? Na verdade, tenho de surpreender-me!
– Você conhece, caro amigo, meu pavor pelos cavalos e pelos carros. Ainda há pouco, quando atravessava a avenida, apressadíssimo, e saltitava na lama em meio a esse caos movediço em que a morte chega a galope por todos os lados ao mesmo tempo, minha auréola, num movimento brusco, escorregou da minha cabeça para a lama da calçada. Não tive coragem de juntá-la. Julguei menos desagradável perder minhas insígnias do que deixar que me rompessem os ossos. E depois, pensei, há males que vêm para bem. Posso agora passear incógnito, praticar ações vis e me entregar à devassidão, como os simples mortais. E aqui estou, igualzinho a você, como vê!
– Você deveria ao menos mandar pôr um anúncio pela auréola, ou mandar reavê-la pelo delegado.
– Não, ora essa! Sinto-me bem aqui. Só você me reconheceu. A dignidade, aliás, me entedia. E também, me alegra pensar que algum poeta ruim há de juntá-la e vesti-la impudentemente. Fazer alguém feliz, que prazer! Principalmente um feliz que ainda vai me fazer rir! Pense em X ou em Z, puxa! Que engraçado vai ser!

Charles Baudelaire, em Pequenos poemas em prosa