quinta-feira, 29 de julho de 2010

ONDE VIVEM OS MONSTROS?



Comprei esse livro porque assisti ao filme e me apaixonei.
Antes, não conhecia a história, não sabia nem mesmo da existência dela, embora tenha ganhado importantes prêmios desde que foi escrita, em 1963.
O livro também me surpreendeu. Muito.
Primeiro, pela concisão do texto. (como foi que fizeram um longa-metragem a partir desse "parágrafo?")
Depois, pelas ilustrações, riquíssimas. São aquarelas e nanquins realizadas pelo autor, Maurice Sendak, que soube onde colocar os detalhes e onde suprimi-los para a criançada poder sonhar.
Por último, porque encontrei aqui a mesma essência selvagem do filme – ainda que seja essa a original –, a mistura da realidade com a ficção, o universo das fábulas infantis.



Fui assistir ao filme simplesmente porque o pôster atiçou minha curiosidade. E porque a música do Arcade Fire ("Wake Up") escolhida para compôr a trilha me pareceu perfeita.
Ele prometia um visual bonito e algo selvagem. Saí do cinema extasiado.
Dirigido por Spike Jonze (o mesmo de "Quero ser John Malkovich"), a história nos oferece uma série de perguntas cruciais:
1. Até onde temos que ir para entender o mundo em que vivemos?
2. Quem são os monstros de verdade?
3. Será que eles não vivem dentro de nós mesmos?
O filme pareceu forte demais para as crianças, queria ver como elas reagiriam. Mas sessão era legendada, então não deu para saber.
O termo "selvagem" do título original (Where the wild things are) me parece traduzir melhor o sentimento proposto, aquele pulso primitivo do livro, instintivo e natural.
As emoções descontroladas e imprevisíveis dos monstros são muitas vezes assustadoras. Será que já vimos algo parecido por aí?
Com certeza.
O que nos difere dos monstros, afinal?
Nossa capacidade de nos relacionar uns com os outros, talvez.
Nossa capacidade de nos organizar.
Nossa capacidade de amar.
Será?

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Clique e assista ao trailer de Onde vivem os monstros

quarta-feira, 28 de julho de 2010

AOS 25 ANOS, COM AFETO



Texto e fotos por Carlota Cafiero
Assessora de comunicação do LUME Teatro


Um clarinetista maluco desafiava os carros que desciam a Rua Monte Alegre, em Perdizes, enquanto uma moradora de rua puxava um trenzinho de madeira atrás de si, falando impropérios aos passantes. Jogado na calçada, um homem de short e camiseta ignorava o frio, visivelmente embriagado. Próximo dele, uma mulher com os cabelos desgrenhados tomava cachaça e contava piadas aos curiosos. Tudo isso aconteceu na noite de segunda-feira, em um mesmo momento e quarteirão, na frente do Teatro da Universidade Católica (TUCA), o que chamou atenção de pedestres e motoristas que, por alguns momentos, viram suas rotinas alteradas pela ocupação CASA LUME, que o LUME Teatro está promovendo em todos os espaços do TUCA, em comemoração aos seus 25 anos de fundação.

As cenas descritas acima foram apresentadas pelos atores Ricardo Puccetti, Ana Cristina Colla, Jesser de Souza e Raquel Scotti Hirson, respectivamente, e fizeram parte da abertura da programação da CASA LUME, que segue até 1 de agosto, domingo, com palestras, demonstrações técnicas, workshops e espetáculos no TUCA - que também está comemorando aniversário, mas de 45 anos.

As cenas não pararam por aí: dentro do foyer do TUCA, mais dois atores do LUME surpreendiam o público com suas figuras: Carlos Simioni vestia o figurino do espetáculo solo "Sopro", dirigido por Tadashi Endo, e se movimentava lentamente ao lado da exposição de fotos "Fluxolume", montada por Juliana Pfeifer. No alto de uma das escadarias do foyer, Naomi Silman apresentava a trágica figura de Lady Macbeth, em um exercício cênico que faz parte da demonstração técnica Não Tem Flor Quadrada. Em outra escadaria, Puccetti fazia um trecho do solo "Cnossos", espetáculo que está há 15 anos em cartaz.



No foyer superior do teatro, mais figuras: Renato Ferracini como o Seu Mata-Onça, de "Café com Queijo", provocava risos nos público espalhado pelas almofadas e sofás do Cantinho da Leitura da CASA LUME - com livros e revistas publicadas pelo grupo junto da editora da Unicamp e Hucitec -, enquanto Jesser de Souza, de chapéu e bengala, subia lentamente a escada como Seu Geraldinho, do espetáculo fora de cartaz "Contadores de Estórias.

Quem conduzia o público entre uma figura e outra era a atriz Silvia Leblon, como a palhaça esfarrapada do espetáculo "Sonho de Ícaro", do LUME. Dessa, forma - e com um guia ilustrado nas mãos - os cerca de 100 espectadores que compareceram à abertura da CASA LUME no TUCA foram apresentados a algumas figuras-chaves que marcaram a trajetória dos 25 anos do grupo.

Para finalizar o evento de abertura, os sete atores retomaram figuras do espetáculo cênico-musical "Parada de Rua", preenchendo todos os espaços do TUCA com canções, sopros e percussão, levando o público para o Tucarena - onde está montada a exposição de fotos "Singularidades Plurais", de Adalberto Lima. Lá, Carlos Simioni (que também é coordenador e cofundador do LUME), ainda vestindo o figurino feito de papel-arroz de "Sopro", falou à plateia sobre o desafio de manter um grupo de teatro durante 25 anos, seguido da fala da musicista Denise Garcia, viúva de Luís Otávio Burnier (idealizador e fundador do LUME) e também cofundadora do grupo.

Após a exibição de um trecho da rara gravação do espetáculo "Duo para Piano e Mímica", com Burnier e Denise, os atores rasgaram a tela de papel e entraram em cena como as exageradas e bem-humoradas figuras dos Bem Intencionados, para apresentar o número musical "Caleidoscópio de Emoções", que faz parte do novo espetáculo do LUME, ainda em processo. Foi dessa maneira afetiva, e rindo de si mesmos, que os atores inauguraram a semana que comemora as Bodas de Prata deste importante núcleo de pesquisa teatral.



Se você ainda não leu, aqui estão meus comentários sobre a abertura do evento.

terça-feira, 27 de julho de 2010

COMO SE DISSESSE ÁGUA

por Eco Moliterno

Fico imaginando como foi o recente encontro entre dois antigos desafetos: Saramago e Deus.

- Seja bem-vindo, José. Surpreso em Me ver?
- Pois estou mais surpreso em ter sido aceito aqui no céu.
- E por que Eu não te aceitaria?
- Porque sempre desdenhei do Senhor e desse lugar aqui, ora.
- Mas é exatamente por isso que você está aqui.
- Para uma vingança póstuma Sua, imagino.
- Não, pelo contrário: para Eu te recompensar.
- Me recompensar? Por ter blasfemado o Senhor e Seu filho?
- Você também é meu filho, José.
- Só acredito vendo o teste de DNA.
- E de todos os Meus filhos, é um dos poucos que nunca Me pediu nada.
- Decepcionei-te?
- Não, nem um pouco. Tanto que até te ajudei a ganhar o Prêmio Nobel.
- Votastes em mim? Não sabia que eras membro da Academia...
- Não votei, mas fiz Meus votos.
- Fizestes votos? Então fraudastes a eleição dos suecos, Gajo!
- Não se faça de tolo, José. Agora não há mais motivos para zombar de Mim.
- Pois bem, então já que o Senhor existe, exijo algumas explicações.
- Chegou a sua hora de perguntar.
- Por que deixastes o mundo do jeito em que está?
- Eu o criei para ser de outro jeito.
- Então o criastes para depois o abandonares?
- Não o abandonei. Eu o deixei para vocês tomarem conta.
- O Senhor o deixou para os banqueiros, para os políticos... não para nós.
- Deixei-o para todos, José.
- Mas por que nem todos têm acesso igual às mesmas coisas?
- No início, tinham. E deveriam ter até hoje.
- Então por que o Senhor não intervém?
- Eu já fiz Minha parte. Agora está na mão dos homens.
- Dos homens milionários norte-americanos, suponho.
- Não, esses ficarão com pouco.
- Bom, se esses ficarão com pouco, então quem ficará com muito?
- Você.
- Eu?
- Sim. Não disse que iria te recompensar?
- Mas por que não recompensas as crianças que morrem de fome na África?
- Porque não estou falando de recompensa material.
- E que tipo de recompensa eu mereço, ora pois?
- A eternidade.
- Como assim?
- A partir de agora, José, você é eterno.
- E o que fiz para merecer isso?
- Você se imortalizou. Simples assim.
- Curioso: precisei morrer para ficar imortal.
- Na verdade, você já era eterno antes de vir pra cá.
- Bom, se o Senhor está falando, quem sou eu pra discordar.
- Engraçado... antes de morrer você discordava bastante de Mim.
- Não me leves a mal, mas agora usarei minha eternidade de outra forma.
- "Não tenhamos pressa. Mas não percamos tempo."
- Conheço essa frase...
- Sim, foi você que escreveu.
- E como a sabes?
- Você deveria saber que Eu sei de tudo.
- Bom, até onde eu sei, acabamos de nos conhecer.
- Pois Eu te conheço desde quando você era serralheiro mecânico.
- E nunca me falou nada?
- Falei sim. Você que não ouviu.
- Se tivesse Te escutado, teria ouvido.
- Se acreditasse em Mim, teria escutado.
- Bom, não vamos transformar isso em uma discussão eterna, vamos?
- De acordo.
- Então o Senhor leu todos os meus livros?
- Todos.
- Ainda bem que não és um crítico literário...
- Pois saiba que gostei bastante do que li.
- Pois não deves entender bem o português, só pode ser.
- Entendo sim. Sou brasileiro, se esqueceu?
- Nunca soube disso.
- É porque você não deve gostar muito de futebol.
- Não mesmo. Mas voltando aos livros, algo que escrevi Te irritou?
- Nada.
- Nem o meu descrédito no Senhor?
- José, Eu nunca fui esse tal Deus em que você não acreditava.
- "Todos os dias tento encontrar um sinal de Deus, mas não encontro."
- Sim, Eu li essa sua frase também.
- E mesmo assim não mandastes um sinal?
- Se você estivesse falando comigo, teria mandado.
- Se soubesse que o Senhor existia, teria falado.
- "Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara."
- O Senhor realmente conhece minhas frases... estou surpreso, confesso.
- De todas que você escreveu, só existe uma que não entendi até hoje.
- Então chegou a Sua hora de perguntar.
- É a dedicatória em seu último livro para sua esposa Pilar.
- "À Pilar, como se dissese água". Essa?
- Exato. O que quer dizer?
- Esquece. O Senhor jamais entenderia.
- Mas agora temos a eternidade inteira para você me explicar.
- Mesmo assim. A eternidade é pouco tempo para o Senhor entender isso.
- Por que?
- Porque o Senhor nunca amou uma mulher.
- José, José... Você não existe...

Post original: CCSP

A QUEM SE INTERESSAR, COM CARINHO

Olha só a carta que Van Gogh enviou a seu irmão Theo em 1882. E não foi só essa não, são milhares, que depois foram reunidas em livros e ganharam fama mundo afora.

Enquanto isso, a gente envia e repassa um monte de e-mails sem graça.


CONSTRUIR ALGO, CHEGAR A ALGUM LUGAR


Foto de Carlota Cafiero

Fomos recebidos por uma mendiga louca que nos ofereceu a cachaça de sua canequinha. O segurança percebeu nossa apreensão, aproximou-se e disse que poderíamos ficar à vontade para perambular pelo lugar. A mendiga veio atrás e sumiu pouco depois, provavelmente porque encontrou outro casal para compartilhar seu vício. Nos dirigimos à escadaria da direita e, ao fim do primeiro lance, encontramos Lady Macbeth prostrada, contorcendo-se de dor e culpa. Foi só então que percebemos como a noite ia ser legal.

Estávamos no TUCA, teatro da PUC-SP, para a abertura do evento que marcaria duas importantes comemorações: os 45 anos do teatro e os 25 anos do grupo Lume, da Universidade de Campinas. De 26 de julho até o próximo domingo, 1º de agosto, haverá espetáculos, workshops, demonstrações técnicas, exposição de fotos, palestras e exibição de vídeos para todos os interessados – confira a programação aqui.

No fim dos degraus, passados a Sra. Laranjeiras (moradora de rua que a atriz Ana Cristina observou para a montagem do espetáculo “Um dia…”, de 2000) e de Lady Macbeth (figura clássica desenvolvida pela atriz Naomi Silman a partir da técnica de Dança Pessoal), encontramos Seu Mata-Onça (Renato Ferraccini) e Cnossos (Ricardo Puccetti), entre outros personagens-chave dessas duas décadas e meia de história. Eram apenas amostras de espetáculos passados, mas a gente se envolvia de maneira tão profunda que se esquecia do contexto e queria participar. Eu mesmo quase fui ajudar o velho Geraldinho (Jesser de Souza) a subir as escadas com sua bengala de pau. Que aflição que dava aquele esforço!

Aos pouquinhos, a sensação de caminhar por um hospital psiquiátrico foi cedendo lugar a uma curiosidade contagiante, uma vontade de tocar e dançar com os sete atores do grupo, de deixar a razão de lado e mergulhar de vez na ficção. Com aquelas encenações acontecendo ao redor, nos sentíamos de fato num enorme palco.

Em seguida, fomos conduzidos à arena do TUCA, onde ouvimos os depoimentos dos dois fundadores restantes do Lume, Carlos Simioni e Denise Garcia (Luís Otávio Burnier faleceu uns anos atrás). Foi espontâneo e bonito. Deve ser difícil resumir uma história tão rica, ainda mais quando se trata de um dos mais importantes centros de pesquisa teatral do mundo. Como núcleo artístico e pedagógico vinculado à Unicamp, o Lume elabora novas possibilidades expressivas e reinventa o teatro a cada novo espetáculo, difundindo esse trabalho também por meio de oficinas e projetos de intercâmbio.

Praticamente sem alteração de integrantes durante todo esse tempo, víamos ali uma grande família. Como confessou o ator Carlos Simioni, depois de vinte e cinco anos de trabalho em conjunto, como é que se deixa o Lume? Não se deixa. Mantém-se criando, ensinando e pesquisando, sem muita certeza de aonde vai chegar. Carlota Cafiero, assessora de comunicação do grupo, comentou deslumbrada a cena em que os atores incorporavam uma banda brega e meio decadente: são os primeiros minutos de um novo espetáculo, e quem diria que eles, conhecidos por encenações sérias e dramáticas, agora fariam uma banda cômica? É mesmo um processo contínuo de construir algo e chegar a algum lugar, como disse Simioni, mesmo que não se saiba muito bem o que e aonde.

É impossível calcular a abrangência do Lume – tanta gente que já passou pelas salas de aula e pela plateia! Só que um dado relevante mostra a influência deles: em 1985, eram o primeiro grupo de pesquisa teatral da região; hoje, são catorze, muitos formados por ex-alunos.

Seja qual for esse “algum lugar” para onde eles rumam, posso dizer que, depois de muita construção e descontrução, o Lume já protagonizou uma conquista especial: vinte e cinco velinhas no bolo. Foi muita honra para mim presenciar essa festa.


O Lume está de site novo. Confira aqui.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

BRINCADEIRA DE CRIANÇA

Ou tão efêmero quanto. Mas quem nunca quis desenhar assim na lousa da escola?









Site do artista: Philippe Baudelocque
WELCOME TO – oh, shit, what happened there!? – LIFE.

FILHOS DO BRASIL, NOTAS RÁPIDAS



• Musical criado e dirigido por Oswaldo Montenegro
• Não possui narrativa linear. Parece mais um apanhado de cenas com um tema em comum – o perfil do brasileiro
• É uma tentativa de compreender a essência do brasileiro, esse pressuposto filho da nação
• Encontrar uma única definição não é um reducionismo perigoso?
• É difícil conhecer os filhos se não sabemos nem quem é o Brasil
• Os esteriótipos do nordestino, do político corrupto, da loira burra, do povo sofrido, do mineirinho da terra, do homem do morro, do hip hop, entre outros, rendem uma leitura ingênua, patética e banal
• O trabalho dos atores e músicos é muito competente
• Música e dramatização se complementam bem
• Em muitos momentos a peça lembra a antiga "Noturno": aparecimentos repentinos em diferentes lugares do teatro, lanternas no rosto, pontos de luz para direcionar a atenção do espectador
• A cena de Léo e Bia é o melhor momento, embora pertença originalmente a outra peça – a lógica fraca e sem graça de Oswaldo dá lugar à lírica
• A defesa do Brasil como território e cultura faz Oswaldo parecer o Policarpo Quaresma da nova era
• Não creio que o nacionalismo seja o caminho para o brasileiro se encontrar. Isso parece retrógrado, principalmente em tempos de universalização, internet, redes sociais internacionalizadas etc. Gosto mais do conceito de "cidadão do mundo", que Alanis Morrissete inseriu em seu último disco
• Desde quando se deve gostar de MPB só porque nascemos aqui?
• "No Brasil não há preconceito, a natureza faz parte do povo, judeus e muçulmanos convivem decentemente, todos se amam e se abraçam nas ruas" são mentiras em que fingimos acreditar
• Discordo conceitualmente de Oswaldo em diversos pontos, principalmente quanto a querer encontrar a essência do brasileiro e a amar incontestavelmente a nação. Tirando isso, a peça é divertida

Ps.: Alguma ligação com o filme "Lula, o filho do Brasil"?
Ps. 2: Lula seria mesmo o único?

sexta-feira, 23 de julho de 2010

AS PEQUENAS COISAS DA VIDA

Encontro muitas pessoas curiosas nas aulas de arco e flecha. Até porque quem pratica arco e flecha no Brasil é índio ou, no mínimo, diferente. E o diferente é sempre curioso.

Por exemplo, descobri ontem que um dos colegas tem o braço torto porque, quando criança, ele o quebrou. Depois, devido a uma calcificação errada, o braço foi quebrado mais nove vezes, exatamente o número de tombos que o menino colecionou. O resultado é que a articulação do seu cotovelo emperrou, o bíceps atrofiou e, para compensar, o corpo desenvolveu uma estrutura diferente. A clavícula direita, por exemplo, ficou grossa, e os músculos das costas cresceram mais do que o normal. É por isso que ele consegue puxar a corda do arco.

Mas não era bem disso que eu queria falar. Acontece que fiquei pensando naquela história do anão sequestrado e, coincidentemente, um colega arqueiro – obstetra nas horas vagas – começou a falar do parto de uma anã. Disse que ocorreu um recentemente no hospital em que trabalha, que isso é raríssimo, talvez até mais raro que enterro de anão, e que o pai também é anão e que, mesmo assim, a criança pode nascer normal. Tem alguma coisa a ver com herança genética e cromossomo modificado. Perguntei se essa criança, especificamente, nasceu anã. Ele disse que não dava para saber. A criança ainda era muito pequena.
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Mediations (towards a remake of Soundings), 1979-1986, de Gary Hill

CONVITE PARA UM PIQUENIQUE FLORESCENTISTA



Saiba mais sobre as propostas do artista: Natureza da Arte

RIA COM GORGONZOLA

Citei a criação do queijo gorgonzola no post anterior e me lembrei dessa versão engraçada que inicia o filme Estômago, de Lusa Silvestre, Marcos Jorge e Cláudia da Natividade.

Seria verdade ou ficção? Tanto faz. É apenas uma história em que a gente decide acreditar ou não, conforme convier.

O importante, no final, é ser divertido.



Clique na imagem para ampliar

Leia o roteiro na íntegra: Coleção Aplauso_Estômago

PINTURA NA ÁGUA

Como é que ele descobriu isso? Ou, melhor: o que veio primeiro, a ideia ou a concepção?

Não quero tirar o mérito de ninguém, mas muita coisa na vida é descoberta simplesmente por acaso. Bom, "acaso" se der errado, porque se funcionar é melhor chamar de "sorte".

Dizem que o champagne foi descoberto por conta de uma fermentação indesejada do vinho. E que o gorgonzola foi um queijo comum que embolorou e um monge corajoso – e provavelmente muito faminto – resolveu provar.

No mundo da arte, o acaso também costuma dividir a autoria de muita coisa. Seria o caso da técnica abaixo?

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Postagem original: Robi Carusi, em Update or Die

quinta-feira, 22 de julho de 2010


Ubatuba (2009), de João Wainer

FICÇÕES


A traição das imagens (1928-9), de René Magritte
(tradução do francês: "Isso não é um cachimbo.")

Estava almoçando com mais nove colegas do trabalho quando alguém começou a contar o caso de um amigo do amigo do cunhado que, de tão bêbado e drogado que estava, confundiu um anão com um gnomo, colocou-o debaixo do braço e o levou para casa. Eles estavam num ponto de ônibus quando aconteceu. Aparentemente, o anão está processando o raptor até hoje.

Todos rimos por bastante tempo. De repente, um colega me olhou com cara de quem achava tudo aquilo muito suspeito. Como assim? O cara tomou o ônibus com um anão se debatendo e gritando debaixo do braço e ninguém fez nada?

"É tudo ficção", respondi. "O importante é ser divertido".

Às vezes, eu queria que as pessoas não fossem tão racionais.
Às vezes, eu queria que tudo na vida fosse fição.
Às vezes, tenho certeza de que tudo é.
Em certo grau.

FOTOCONSTRUÇÃO


Fotoconstrução 6

PROGRAMAÇÃO DA CASA LUME NO TUCA


Clique para ampliar

Saiba mais sobre o LUME: www.lumeteatro.com.br

terça-feira, 20 de julho de 2010

OLÁ, OLÁ, SEJA BEM-VINDO AO NOVO SITE



Veja só que beleza: o blog ficou maior, com colunas mais largas e bem mais gostosas de ler. As mudanças não foram radicais, é verdade. O conteúdo antigo continua no mesmo lugar, os links, o campo de pesquisa, o sistema de armazenamento... vamos aos pouquinhos para ninguém se perder. Eu tive um professor baiano que falava com aquele sotaque gracioso que só os baianos têm: "Tudo que é gostoso tem que ser feito devagar". Então vamos aproveitar cada etapa do novo blog juntos.

Primeiro, o visual, sempre leve e objetivo. Depois virão as novas páginas, as outras áreas de interesse etc. Por enquanto, quero que todos se sintam em casa como já estavam acostumados. A única diferença é que, para chegar aqui, terão que digitar http://www.artefazparte.com/ na barrinha lá de cima e apertar "enter". Tudo bem, né?

Além do nome, temos também um novo conceito: mostrar como, onde e por que você e a arte se encontram. Leia a apresentação no canto superior direito que fica mais fácil. De qualquer maneira, já adianto: o conteúdo permanecerá do jeito como você gosta, não precisa se preocupar. A definição do conceito é só para eu não perder o foco.

Comece a curtir o novo site lendo meus comentários (abaixo) a respeito da Supertrunfo, banda que acabou de lançar seu primeiro CD no SESC São José dos Campos. Nada melhor do que estrear este site citando um talento recente que vingou.

SUPERESTREIA EM CD



Fiquei muito feliz ao ver o show de lançamento do CD Supertrunfo, da banda que leva o mesmo nome. Feliz e também aliviado, pois descobri que não se trata de mais uma dessas bandas que apontam e logo desaparecem, vitimadas pela falta de caráter do rock brasileiro. Não, Jorge Neri (vocais), Duda Becker (guitarra), Fell Vieira (baixo) e Thiago Sansão (bateria) são diferentes e vou tentar explicar por que em poucas linhas.

A começar pela qualidade técnica dos músicos, coisa rara nesses tempos de samplers repetitivos, playback e rostinhos bonitos se chacoalhando freneticamente de um lado para outro do palco. Pôxa, dava para ver na segurança de cada compasso que eles sabiam o que estavam fazendo. E faziam por pura paixão, porque acreditavam na própria música e não apenas nas promessas do produtor.

Depois, pela obra propriamente dita, as harmonias criativas e bem resolvidas, a cadência do show, as letras que mais parecem diferentes versões da mesma história, falando de curtir o presente a dois e deixar o resto para depois. Tudo muito redondinho, bonito de se ver e de se ouvir. Mas o melhor mesmo são os riffs de guitarra, as distorções e os refrãos decentemente gritados – que saudade! Afinal, rock brasileiro também é rock, diacho, tem muita banda por aí que se esqueceu disso. Quer saber mais? É maravilhoso assistir a shows como esse, em que os músicos se preocupam mais com o que sai dos amplificadores do que com figurinos e penteados. Dá mais credibilidade, sabe? Dá vontade de comprar o CD e prestigiar.

Isso é outra coisa que me deixou feliz: o Vale do Paraíba compareceu em massa ao SESC São José dos Campos, cidade de origem da banda e lugar onde eles já construíram certa fama. Pois bem, foram três edições do Unifest, além da abertura de shows do Rappa, Charlie Brown Jr. e Detonautas. E, enquanto muitos desses aí já caíram na rotina minimamente produtiva do sucesso, a Supertrunfo está começando com o pé direito.

Pena que o tempo era curto e só pudemos ouvir dois covers além das canções do disco. Foram: Dream on, do Aerosmith e Bohemian Rapshody, do Queen, ambos executados como se deve. Bom, nem preciso falar que tipo de som você pode esperar de uma banda com essas referências. Se bateu aquela curiosidade boa, acesse o site e o myspace dos caras.

Deixo assim meus parabéns. Com o primeiro degrau alcançado com reconhecimento da crítica e do público, já dá para pensar no que está por vir. Fazendo uma gracinha ridícula para terminar, a estreia dessa foi realmente um supertrunfo. Há!

sexta-feira, 16 de julho de 2010

ALTA GRACIA



















Alta Gracia é uma antiga cidade da Província de Cordoba e também um patrimônio da humanidade. Localizada a mais ou menos 600 quilômetros a noroeste de Buenos Aires, Argentina, começou sua história em 1643 a partir de uma Estância Jesuítica – espécie de complexo agrário composto por igreja, fazenda, torre e lago artificial –, uma das seis que se desenvolveram e que se preservam até hoje na região.


Eu queria muito escrever alguns contos como Hemingway, pois ele pinça pequenos acontecimentos do dia-a-dia e faz daquilo histórias repletas de lirismo.

Vejo a solidão, a cultura dos povos, os espíritos do tempo e do lugar. Vejo a vida que acontece dentro e fora dos personagens. Mas, se me perguntam de que se trata o texto, só poderia responder: "Não sei".
Trata-se apenas de um teste.
Sempre um teste.
A etapa oficial é na verdade uma fachada para a gente se mexer.

MEMÓRIA, VERDADE, JUSTIÇA



A repressão durante a ditadura militar foi dura em todos os países da América do Sul. Agora, se já conhecemos pouco da história brasileira – os arquivos oficiais permanecem vergonhosamente fechados –, imagine as dos outros países.

Na cidade de Cordoba, a mais ou menos 600 quilômetros de Buenos Aires, encontrei esta antiga cadeia para presos políticos, onde muitos foram assumidamente assassinados ou simplesmente "desapareceram".

Ali funciona agora um memorial, nos moldes do nosso prédio do DOPS, no bairro da Luz, em São Paulo. As paredes externas exibem os nomes das vítimas da ditadura na Província de Cordoba. "Pessoas que entre 1969 e 1983 foram sequestradas, torturadas e executadas pelas forças repressivas do Estado", como diz o mural.

Tornar seus nomes públicos é uma maneira de mantê-los vivos na memória e dizer "Nunca Mais".


Para saber mais sobre a repressão no Brasil, acesse as Memórias Reveladas.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

OUTRA ORIGEM DO UNIVERSO



Big bang big boom, por Blu (dica de Estevam Leal)

Site do artista: Blublu.org


MAIS VÍDEOS DO MESMO ARTISTA:

Muto


Combo
De flanco sobre o lençol,
paisagem já tão marinha,
a uma onda deitada,
na praia, te parecias.

Uma onda que parava
ou melhor: que se continha;
que contivesse um momento
seu rumor de folhas líquidas.

Uma onda que parava
naquela hora precisa
em que a pálpebra da onda
cai sobre a própria pupila.

Uma onda que parava
naquela hora precisa
em que a pálpebra da onda
cai sobre a própria pupila.

Uma onda que parava
ao dobrar-se, interrompida,
que imóvel se interrompesse
no alto de sua crista

e se fizesse montanha
(por horizontal e fixa),
mas que ao se fazer montanha
continuasse água ainda.

Uma onda que guardasse
na paria cama, finita,
a natureza sem fim
do mar de que participa,

e em sua imobilidade,
que precária se adivinha,
o dom de se derramar
que as águas faz femininas

mais o clima de águas fundas,
a intimidade sombria
e certo abraçar completo
que dos líquidos copias.

Imitação das águas, de João Cabral de Melo Neto

O SUGESTIVO BALANÇO DAS ÁGUAS



A sensação imediata é de se perder naqueles mares em fúria que se debatem em movimentos frenéticos pelas paredes do salão. Só que não há água de verdade ali, nada se movimenta, há apenas uma sugestão, uma imitação. E o gostoso mesmo é se deixar perder na solidão das ondas, na profundidade do azul, nos grafismos quase orientais que a artista Sandra Cinto realizou especialmente para o piso térreo do Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo.

Seu trabalho manual é tão complexo quanto poético. São pinturas de grandes dimensões feitas com tinta acrílica, caneta permanente prata (também conhecida como "caneta spray"), telas de algodão, placas de MDF e muita sensibilidade. Têm a imitação como princípio e deixam claro que se trata de criações inspiradas nas águas. Mas... em que águas? As chuvas, os mares, os rios, a natureza; tudo está ali, imitado, recriado, traduzido em arte.



Em alguns momentos, as pinturas lembram grafitti, talvez pelo aspecto metálico da tinta, talvez porque o MDF se confunde com as paredes do lugar. Aliás, paredes que também estão pintadas de azul e, junto com a imagem das águas, envolvem o espectador num mergulho profundo. Mérito do cuidado que a artista teve não apenas com os objetos, mas também com a arquitetura ao redor.

Há volume, imensidão, movimento. Eles evocam o sublime, aquele receio primordial que impele e repele, que dá vontade de explorar porém exige cautela, tudo aos pouquinhos, como nas fábulas, nas aventuras infantis.

Para completar a mostra, há também uma instalação feita com barquinhos de papel, todos eles espalhados voluptuosamente pelo chão, modificando a dureza do piso, transformando-o numa superfície líquida e móvel. Ela deixa-nos a navegar, navegar e navegar pelo oceano da imaginação.

Imitação da água é uma apologia a esse elemento ao mesmo tempo banal e místico, uma poesia transformada em traços e cor. Se você deixar, o trabalho de Sandra Cinto vai lhe carregar para um novo mundo.


IMITAÇÃO DA ÁGUA, de Sandra Cinto
Instituto Tomie Ohtake
De 6 de julho a 1 de agosto
Curadoria de Jacopo Crivelli Visconti

terça-feira, 13 de julho de 2010

A ORIGEM DO UNIVERSO, SEGUNDO CRUMB



(a morte de Harvey Pekar me fez lembrar disso aqui)

Robert Crumb virá para a FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty) deste ano e eu consegui comprar meu ingresso para vê-lo (sim, fui um dos muitos desesperados que comprou nos primeiros minutos, pois eles se esgotaram rapidamente).

Como ainda não tinha lido sua última obra, resolvi tirar o atraso antes do grande dia (trata-se do Gênesis, sim, esse mesmo, um dos livros que compõem o Velho Testamento). Até porque o artista veio para falar sobre a origem do universo e, creio, isso será impagável.



Crumb realizou uma extensa pesquisa entre as diversas versões da história e em seguida a ilustrou, respeitando aquilo que considerou mais fiel ao original.

Pois muito me surpreendeu tudo que o Gênesis tem de crumbiano. Os personagens para lá de peculiares, as reviravoltas no enredo, os costumes praticamente inexplicáveis e o cotidiano sofrido dos homens. Se ele não avisa, poderia achar que o texto também é seu.

O objetivo não era satirizar e, realmente, os desenhos são muito pertinentes à história, duvido que possam ofender alguém. Seja qual for sua crença, essa versão ilustrada do Gênesis é uma interessante maneira de ler um texto considerado sagrado há anos por grande parte da humanidade. Vale a experiência.

E que venha a FLIP!