terça-feira, 30 de novembro de 2010

O SILÊNCIO TEM A PALAVRA


Gambiarra (1982), de Amelia Toledo

"Amélia, querida, sem palavras... Fiquei sem palavras, porque as palavras já não faziam sentido. Sua obra é grandiosa demais. Enquanto física e amante da arte e dos minerais, da luz e da cor, chego a ficar sem palavras diante da perfeita interação entre os elementos, o que surpreende os olhos e a alma. É a exposição mais perfeita que já vi em mais de sessenta anos de vida. Descrever é difícil. Relatar o que senti mais difícil ainda. Então é só ver, sentir, impregnar-se. Só hoje, depois de tantas vindas aqui, consegui escrever alguma palavra neste caderno. Assim mesmo, a emoção é muito mais do que qualquer palavra. Senti uma sensação esquisita quando entrei na exposição. Por isso gostei muito. É um choque maravilhoso. Só consigo sentir. Não consigo escrever o que sinto. Uma vontade de chorar ao tocar as pedras, calo-me para permitir apenas o sentir. O jogo de luz e a sombra, as cores e as pedras são fundamentais à interação corpo-espírito. É uma experiência única. Transcendental. É como se o dia especial, a emoção fundamental, a própria essência viessem a brotar agora. Do nada. Mas mostrando tudo. Arrancando das entranhas o néctar. Provando que o ser humano é capaz de coisas belíssimas... Não tenho palavras. Só pura emoção. Obrigada. É uma exposição que atravessa o Ser. Não há palavras para traduzir. É o silêncio que tem a palavra. Sobre a artista: ela é cruel, muito cruel. E sobre a exposição: ela é pura, natural. Mas é de tirar o fôlego. Obrigado."

O trecho acima foi montado a partir de recados deixados no livro de ouro – aquele caderno de visitas, sabe? – da exposição Entre, a obra está aberta, de Amelia Toledo, que se realizou na Galeria do Sesi, em São Paulo, entre 1999 e 2000. Ele integra a interessante análise que o psicanalista João Augusto Frayze-Pereira fez da reação do público com a obra da artista e com os resultados dessa relação.*

Achei muito bonita a maneira como os visitantes expõem seus sentimentos e agradecem Amelia pela experiência proporcionada. O artigo de João reúne outros trechos ainda mais emocionantes, mas resolvi compartilhar esse por dois motivos: pela poética do título, que foi citado por um dos visitantes, e pelo fato de que, mesmo sem palavras, eles conseguiram dizer muito.

A obra estava aberta. Bastou isso para que todos se sentissem à vontade e revelassem a si mesmos com profunda sinceridade. Foi uma exposição que não visitei e que, depois de lidos os relatos reunidos por João Frayze, deixou uma triste sensação de perda.


Glu-glu (1968), de Amelia Toledo. Esta obra pode ser vista – e experimentada – na 29ª Bienal de São Paulo.

Mais informações sobre a artista:
www2.uol.com.br/ameliatoledo e www.ameliatoledo.com

*O artigo completo, chamado A poética dos livros de ouro: Amelia Toledo, generosidade e gratidão, integra o livro Arte, dor: inquietudes entre estética e psicanálise, de João Augusto Frayze-Pereira (Cotia: Ateliê Editorial, 2005).

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

MORTE E VIDA SEVERINA, O FILME



Ótima notícia para quem tem curiosidade de conhecer um clássico da literatura brasileira mas ainda vive o trauma causado pelo nosso sistema de ensino, que desestimula até os estudantes mais interessados.

A animação Morte e Vida Severina, inspirada no livro homônimo de João Cabral de Melo Neto, é um projeto da TV Escola/Fundação Joaquim Nabuco e tem produção da OZI Escola de Audiovisual de Brasília.

O filme é uma adaptação dos quadrinhos de Miguel Falcão e terá 50 minutos. A estreia está marcada para janeiro de 2011, na TV Escola. Por enquanto, temos que nos contentar com o trailer acima, mas já dá para perceber da riqueza da produção. Tomara que a ideia pegue e que logo venham outros.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

TRÊS PALÁCIOS PARA A ELITE BRASILEIRA


Palácio Boa Vista, em Campos do Jordão

Estive em Campos do Jordão no fim de semana passado e resolvi visitar o Palácio Boa Vista, residência de inverno do governador do Estado de São Paulo. Fazia mais de quinze anos que não passava por ali, nem me lembrava de como era. Imagine minha surpresa ao encontrar, decorando os aposentos, um impressionante acervo de arte moderna brasileira.

A coleção foi adquirida a partir de 1969 e nela figuram artistas como Di Cavalcanti, Guignard, Rebolo, Volpi, Brecheret, Anita Malfatti e Walter Zanini, entre outros. São pinturas e esculturas relevantes, daquelas que todo colecionador disputaria a tapas num leilão, se tivesse cacife para bancá-las. O destaque fica para Tarsila do Amaral, que tem uma sala só para ela, com obras das suas mais diversas fases – inclusive do começo da carreira, que raramente temos oportunidade de ver.

Vale lembrar que, além do Palácio Boa Vista, em Campos do Jordão, fazem parte do grupo o Palácio dos Bandeirantes (no bairro do Morumbi, em São Paulo) e o Palácio do Horto (no Horto Florestal, também em São Paulo). Pelo que descobri depois, a riqueza do acervo não é exclusividade daquele; os três possuem ótimos exemplares e costumam ainda receber exposições temporárias, montadas a partir de outras coleções.

As visitas são acompanhadas por educadores e, nos palácios de São Paulo, são gratuitas. Em Campos do Jordão, a entrada custou R$ 5,00. Para mim, foi um dinheiro bem gasto. Fiz um passeio diferente e, além de conhecer um prédio histórico do país, levei de brinde uma ótima exposição de arte.

Mais informações: www.acervo.sp.gov.br


Retrato de Mário de Andrade (1922), Autorretrato I (1924) e Operários (1933), de Tarsila do Amaral, são pinturas que constam no acervo do Palácio Boa Vista

(sem título), Campos do Jordão, novembro de 2010


(sem título), Estação da Luz, São Paulo, novembro de 2010

sábado, 20 de novembro de 2010


The Lighthouse at Two Lights (1929), de Edward Hopper

"Dias inteiros de calmaria, noites de ardentia, dedos no leme e olhos no horizonte, descobri a alegria de transformar distâncias em tempo. Um tempo em que aprendi a entender as coisas do mar, a conversar com grandes ondas e não discutir com o mau tempo. A transformar o medo em respeito, o respeito em confiança. Descobri como é bom chegar quando se tem paciência. E para se chegar, onde quer que seja, aprendi que não é preciso dominar a força, mas a razão. É preciso, antes de mais nada, querer."

Amyr Klink, em Cem dias entre céu e mar

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

SE ATRAEM OS OPOSTOS

[é uma letra de música. Leia cantando]

Separados pelo parto
Unidos por acaso
Em comum pelo tanto incomum

Seria só um caso
que jamais deixou de ser
Daria tudo errado
se houvesse por quê

Porque sim
Porque não
Por que não sei?

Por que eu
questionar
Por que você?

Por que sim?
Por que não?
Porque não sei

Por que eu?
Questionar


Tanto um quanto outro
Tanto faz quanto fez
Quanto vale se for pra valer?

Uma vez nada mais
que jamais deixou de ser
Tudo aquilo que se enxerga
e não tem nada a ver

[para J. L. A.]

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

O LUGAR DO GRAFITE NA CIDADE E NA SOCIEDADE

"As pessoas que passam por nossas cidades não entendem o grafite porque acreditam que nada deve existir a não ser que dê lucro, o que torna essa própria opinião sem valor."

Foi com essa lógica ácida e simples que o grafiteiro inglês Banksy conquistou minha admiração. O primeiro contato com sua obra ocorreu recentemente, quando ele reinventou a vinheta de abertura do seriado Os Simpsons a convite da produtora e obteve repercussão bastante polêmica. Na ocasião, Banksy criticou o próprio programa, o sistema capitalista de que faz parte, a máquina industrial chinesa, o trabalho infantil e a atitude indiferente da sociedade que consome os produtos desse processo. Tudo isso em pouco mais de um minuto de desenho animado.

Acho muito difícil concordar totalmente com alguém que viola e depreda patrimônio alheio – público e particular – para exercer sua arte. Mas assumo que o trabalho de Banksy, apesar do meio em que atua, é no mínimo intrigante. Veja bem, a abertura de Os Simpsons foi uma exceção, quase toda a produção do artista está nas ruas. Então, fico me perguntando se é possível dissociar o grafite desse meio; quer dizer, será que ele se sustentaria se não estivesse ocupando ilegalmente os muros da cidade? A resposta mais provável é "não".

Banksy precisa dos muros, mesmo que essa dependência não seja recíproca. Ele precisa da ilegalidade, do atrevimento, pois é isso que dá significado às suas criações – para não dizer visibilidade. Grafite sem violação é alma sem corpo, que vaga por aí sem jamais ser percebida pelos passantes.

Por mais que às vezes eu me convença das reais necessidades dessa prática, do engajamento, da subversão dos valores, da crítica política e social, como poderia justificá-la? Como poderia argumentar a favor, estando do lado da lei? Não, defendê-la seria hipocrisia, seria abrir precedente para diversas outras práticas tão ou ainda mais danosas. Nosso papel nessa relação é ser contra. Aquela obra precisa dessa forma paradoxal de legitimação para sobreviver, precisa dela tanto quanto das paredes em que ganha corpo, precisa da madrugada, da adrenalina e da ousadia. Em outras palavras, o consentimento da comunidade destruiria o conceito da obra ou, no mínimo, a condenaria a se adequar ao universo da arte reconhecido oficialmente – título que, com certeza, o grafite não deseja.

Como disse antes, é muito difícil estar totalmente de acordo com Banksy e seus semelhantes, mesmo que os argumentos utilizados por eles se baseiem na tradição amplamente aceita de que "a parede sempre foi o melhor lugar para exibir o trabalho [artístico]".

Aliás, o livro de onde tirei essa citação é uma fonte de pesquisa bastante irreverente. Chama-se Wall and Piece (Muro e Obra), uma analogia com War and Peace (Guerra e Paz). Escrito pelo próprio Banksy, ele apresenta um panorama de seus trabalhos e elucida a maneira como o autor entende a arte de rua. Se não nos convence a aceitá-la, ao menos dá a oportunidade de refletir sobre o assunto e imaginar, por exemplo, os motivos de o grupo Pixação SP ter sido convidado a participar da 29ª Bienal de São Paulo, mesmo após os ataques polêmicos ocorridos durante a edição anterior. O catálogo da nova mostra explica a decisão dos curadores afirmando que "nem tudo que é arte o campo institucional é capaz de abrigar ou de entender plenamente". Acho que o mesmo vale para nós, cidadãos-espectadores.

O fato de Banksy chegar à televisão e às livrarias, de o grupo Pixação SP estar na Bienal e de muitos outros grafiteiros serem aos poucos incluídos em galerias e museus de todo o mundo prova que a sociedade se interessa cada vez mais por esse tipo de arte, não somente por curiosidade, mas também para aprender a lidar com ela. No entanto, é bem difícil prever o futuro dessa relação. Pois já constatamos que o grafite conquistou um lugar de destaque na cidade; agora, resta saber com exatidão que lugar é esse, se deve continuar ilegal, se é célebre ou banalizado, atraente ou banido, cultuado ou apenas perseguido. Mesmo estando a apenas alguns passos de um muro grafitado, ainda vai levar um tempo para nos posicionarmos com segurança em relação a ele. Enquanto isso, as discussões estão abertas e são muito bem-vindas.


Ria agora, mas um dia nós estaremos no comando, de Banksy


Este artigo também foi publicado em Psicanalítica – Revista de Cultura e Arte

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

QUEM SOMOS NÓS

O filme abaixo me respondeu, de maneira clara e divertida, muitas daquelas perguntas existenciais que estamos sempre fazendo, do tipo "quem somos nós? qual é o nosso papel na vida? o que desejamos? quais são os nossos sonhos? para onde vamos?" Ele surgiu de estudos que a BOX1824* realizou nos últimos cinco anos.

Vale a pena prestar atenção num fato: a arte – leia "cinema, música, artes plásticas, literatura, etc." – não apenas entretém, não apenas emociona. Ela determina nossa cultura e, consequentemente, nos permite crescer como seres humanos. Seres mutantes, vivos e sempre em busca da verdadeira felicidade, seja ela qual for.

We All Want to Be Young
(Nós todos queremos ser jovens)

Roteiro e direção: Lena Maciel, Lucas Liedke e Rony Rodrigues.

*A BOX1824 é uma empresa de pesquisa especializada em tendências de comportamento e consumo. Site: www.box1824.com.br

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

A VOZ DO JAZZ ÀS GARGALHADAS

Quem gosta de jazz vive falando dos diálogos e improvisos entre os instrumentos, da sintonia com o cotidiano, da verdadeira voz da música, etc. Quem não gosta se faz de desinteressado, considera aquilo tudo invencionice de gente aficcionada, parece tão chato de ouvir quanto de argumentar a respeito.

Nesta cena maravilhosa, o humorista americano Jerry Lewis mostra que o jazz e a vida têm muito em comum. Tudo bem, falo como fã do estilo. Se você também é, assista, vai ser divertido. Se você não é, assista também. Tenho certeza de que os nossos blá blá blás passarão a fazer muito mais sentido.

video
Jerry Lewis - O garoto dos recados (1961)

terça-feira, 9 de novembro de 2010

MORTE E VIDA MONALISA

Hoje, estivemos falando da Monalisa. Pobre mulher, sempre vira assunto, seja na sala de aula, seja na mesa do bar. Falamos bem, falamos mal, falamos dela. Concluímos que está morta. É verdade, não lhe contaram? Morreu e agora se encontra em um esquife blindado, inacessível a todos os olhos, inclusive aos mais exigentes.

Ou melhor, acho que foi embalsamada. Pois tem gente que ainda passa por ela, insiste, acotovela-se para tirar uma foto às escondidas, sem chamar a atenção dos seguranças. Puro fetiche. A Monalisa, entendida como obra de arte, está morta. Virou informação.

Há algo de misterioso nessa tragédia, algo de muito suspeito: se a pintura – fisicamente falando – pereceu, a imagem continua viva. Não se chega a ela, é verdade, não se pode tocá-la ou experimentá-la tal como foi criada para ser. A Monalisa de hoje é um conceito, um ideal platônico que jamais será alcançado.

Sua imagem, porém, virou ícone da arte. Não só da história, mas da arte como um todo. Basta ver seu sorrisinho irônico estampando um texto para saber do que se trata. Sim, falamos de arte e, como deu para perceber, é impossível ignorar a onipresente Momô.

Ela está em todas.

sábado, 6 de novembro de 2010


Arco inclinado (1981), de Richard Serra

"As tensões ainda existentes entre o público em geral e a arte, ostensivamente concebida com o total bem-estar público em mente, ficaram patentes na discussão do destino do Arco inclinado de Serra, encomendado em 1981 por um programa oficial para a Federal Plaza de Nova York. A escultura em aço – muito mais alta que um homem – cortava a praça, restringindo em muito a visão e o trânsito dos pedestres. Em 1985, o protesto dos que trabalhavam em edifícios das imediações tornou-se tão intenso que a Administração dos Serviços Gerais, o órgão governamental que havia encomendado a obra, anunciou que ela seria removida. Seguiu-se um processo jurídico, com Serra afirmando que sua remoção constituiria uma violação ao seu contrato e que uma proposta de deslocamento para um dos lados da praça era inútil, pois a obra havia sido concebida para ocupar sua posição original. Qualquer alteração nessa concepção destruiria a obra. Ela foi finalmente removida em 1989."

Retirado de Arte contemporânea: uma história concisa, de Michael Archer


quarta-feira, 3 de novembro de 2010

VISÃO PARCIAL DO MUNDO

Somos escravos das cores e o preço da liberdade é alto demais. As cores dão sentido ao mundo, é verdade. Mas também é verdade que dão um sentido só: aquele que se vê com os próprios olhos e prevalece como verdade. Os outros sentidos, que podem ser ouvidos, tocados, cheirados, provados ou intuídos são menosprezados, não recebem a credibilidade e a atenção que merecem. É o que mostra o filme Vermelho como o céu, produção italiana que recebeu o Prêmio do Público da 30ª Mostra de Cinema de São Paulo (2006) e que foi exibido recentemente no programa Mostra Internacional de Cinema, da TV Cultura.

A história trata de um menino que perde a visão em um acidente e é enviado a uma escola para cegos. Sua sina é cruel: deve aprender a perceber o mundo por meio dos outros sentidos que lhe restam.

Em um de seus momentos mais sensíveis, o protagonista tenta explicar a experiência das cores a um colega, cego de nascença. "O azul? É como o vento que toca o rosto quando a gente anda de bicicleta. O marrom é rugoso como a casca de uma árvore. O vermelho é quente como o fogo, como o céu ao pôr-do-sol".

Assisti àquilo e tentei me colocar em seu lugar. Como eu explicaria as cores, como poderia traduzi-las em outros sentidos?

Percebi que, mesmo lidando com elas há décadas, mal consigo descrevê-las sem recorrer a referências visuais.

Talvez meus outros sentidos estejam cegos para o mundo. Talvez eu não saiba o que as cores são de verdade. Talvez eu saiba apenas o que elas parecem ser. Não há profundidade, não há sentimento. Minhas cores são superficiais. Minha apreensão das coisas é parcial.

O filme Vermelho como o céu me mostrou que sou cego e não sabia.