quinta-feira, 28 de outubro de 2010

CUBA POR KORDA



"Eu optara por uma vida frívola quando, por volta dos trinta anos, um acontecimento excepcional transformou minha vida: a Revolução. Foi então que tirei esta foto, de uma garotinha abraçada a um pedaço de madeira, em substituição à boneca que não tinha. Percebi que valia a pena dedicar um trabalho à revolução que propunha a supressão de tais desigualdades."

Alberto Korda

(trecho retirado do livro Cuba por Korda
, publicado pela editora Cosac Naify em 2004)

sábado, 23 de outubro de 2010

DECÁLOGO DO CONTISTA

Os dez mandamentos abaixo foram escritos pelo uruguaio Horacio Quiroga (1878-1937), um dos expoentes mais talentosos do modernismo latino-americano. Ele ficou conhecido por produzir narrativas breves porém muito intensas, que prendiam a atenção do leitor já nas primeiras linhas e continuavam a pulsar mesmo depois de terminada a leitura.

Quem gosta de escrever pode até discordar das proposições de Quiroga, mas deve conhecê-las e refletir sobre elas. Deve também ler os contos escritos por ele, em especial os reunidos no livro
Contos de amor, de loucura e de morte, que constam entre suas obras mais importantes.




1. Creia em um mestre – Poe, Maupassant, Kipling, Tchekhov – como em Deus.

2. Creia que sua arte é uma montanha inacessível. Não sonhe dominá-la. Quando isso for possível, você saberá.

3. Resista o quanto for possível à imitação, mas imite se a tentação for muito forte. Mais que qualquer outra coisa, o desenvolvimento da personalidade exige paciência.

4. Tenha fé cega não na sua capacidade para o triunfo, mas no ardor com que você deseja esse triunfo. Ame a sua arte como a sua mulher, dando-lhe seu coração.

5. Não comece a escrever sem saber aonde ir. Em um bom conto, as três primeiras linhas têm quase a mesma importância que as três últimas.

6. Se você quiser expressar com exatidão esse fato – "Um vento frio soprava do rio" –, não há, na linguagem humana, palavras mais precisas que essas. Seja dono de suas palavras, sem se preocupar com suas dissonâncias.

7. Não adjetive sem necessidade. Inúteis serão as camadas de cor adicionadas a um substantivo fraco. Se você fizer o que for preciso, ele terá, por si só, um colorido incomparável. Mas você terá de ir buscar esse colorido.

8. Pegue seus personagens pela mão e conduza-os firmemente até o final, sem deixar que nada o desvie do caminho traçado. Não abuse do leitor. Um conto é um romance depurado de resíduos. Tenha isso como verdade absoluta, mesmo que não seja.

9. Não escreva sob emoção. Deixe-a morrer e depois a evoque. Se você for capaz de revivê-la, terá chegado à metade do caminho.

10. Ao escrever, não pense em seus amigos, nem nas reações deles à sua história. Pense como se o seu relato só interessasse aos seus personagens, e você fosse um deles. Não se dá vida a um conto a não ser dessa maneira.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

34ª MOSTRA INTERNACIONAL DE CINEMA

A mostra começa hoje. São cerca de 400 títulos sendo exibidos em mais de 20 espaços da cidade de São Paulo, além de exposições relacionadas ao tema, tais como a das fotos do diretor Win Wenders (MASP) e dos storyboards de Akira Kurosawa (Instituto Tomie Ohtake).

Quem quiser participar pode acessar a programação (imagens ou site abaixo) ou aproveitar a seleção de 68 filmes da Mostra Online, disponibilizados gratuitamente na internet para os primeiros 500 acessos.

De 22/10 a 28/10:


De 29/10 a 4/11:

Clique nas imagens para ampliá-las. (fonte: Guia da Folha)


34ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo
De 22 de outubro a 4 de novembro.
Site oficial: www.mostra.org

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

TEM HISTÓRIA PARA TODOS



O bate-papo de ontem com Laurentino Gomes, na FNAC de Pinheiros, foi bastante revelador. Por um lado, pela deliciosa aula de história brasileira, como jamais tinha experimentado antes. Por outro, pelo posicionamento editorial do autor que, muito bem definido, classifica seus livros 1808 e 1822 como “jornalísticos”, pois têm o objetivo de divulgar ao público geral o conhecimento produzido nas universidades. Em suas palavras: “Faço pela história do Brasil o que o Dr. Dráuzio Varella faz pela medicina e Marcelo Gleiser pela astrofísica”.

Destaco isso porque o primeiro deles, 1808, foi visto com desconfiança na ocasião de seu lançamento, há 3 anos. Os historiadores, por exemplo, tiveram receio da competição e da banalização de seu trabalho. Porém não demoraram a perceber que a proposta de Laurentino não diminuía a importância das pesquisas científicas e tampouco roubava seus créditos, apenas as tornava mais acessíveis: “A história que eu escrevi já estava contada. A novidade é a linguagem, que a leva a um público maior”.

Como explicou o autor, a produção acadêmica está cada vez mais técnica e especializada. Se o jornalista, com visão ampla e liberdade de linguagem, consegue traduzir aquele conhecimento aos não-iniciados, acaba gerando interesse em assuntos até então fadados às aulas do colégio ou às revistas científicas.

Os livros de Laurentino Gomes transformaram a história do Brasil num fenômeno. Conquistaram o aval dos especialistas e a simpatia do leitor comum, sendo até mesmo utilizados como referência nas escolas. Também venderam muito bem em Portugal, “porque os portugueses têm curiosidade de saber como a ex-colônia conta sua história”. Proporcionalmente ao número de habitantes, 1808 vendeu mais lá do que aqui.

Se existe segredo para o sucesso, Laurentino não pretende guardá-lo para si. Entre as muitas dicas que deu, explicou que um jornalista com pretensões semelhantes às suas precisa pesquisar muito, respeitar as fontes, não confundir ficção com não-ficção e trabalhar junto com um orientador acadêmico, que tem conhecimento apropriado para analisar, criticar e comentar fatos específicos. No meio do papo, Laurentino ri. “Meu orientador corrigiu erros que teriam destruído minha reputação”.

Saí de lá mais do que satisfeito. Além das informações sobre a produção do livro, também ganhei autógrafos em minhas edições de 1808 e 1822. Agora, resta aguardar o último volume daquilo que o autor chamou de “trilogia da história brasileira do século XIX”. O livro, que se chamará 1889, abrangerá o governo de Dom Pedro II até a proclamação da república – um período extenso e repleto de acontecimentos relevantes.

As pesquisas já foram iniciadas. Tomando a mim mesmo como exemplo, imagino que os fãs mal podem esperar o fim desse intervalo para curtir mais uma instigante aula de história.

Site oficial do autor: www.laurentinogomes.com.br

NUNO RAMOS FALA DA POLÊMICA ENVOLVENDO SUA OBRA NA BIENAL

[Recebi o e-mail abaixo e achei por bem publicá-lo aqui. Pois muita gente está criticando a obra Bandeira Branca, de Nuno Ramos, em exposição na 29ª Bienal de São Paulo, sem nem mesmo tê-la visto. Ou sem conhecimento técnico suficiente para criticar sua instalação. Ou baseado apenas em reportagens. O que faltava nisso tudo era a palavra do artista. Aqui vai ela. Espero que esclareça parte da polêmica e sirva de informação para críticas posteriores, de preferência, melhor embasadas.]

Amigos,
Escrevi este texto como resposta aos acontecimentos da Bienal. Saiu na Ilustríssima de ontem. Estou enviando para quem não leu.
Se acharem que vale a pena, eu agradeceria se pudessem encaminhar à lista de contatos de vocês.
Um abraço e obrigado,
Nuno Ramos



BANDEIRA BRANCA, AMOR
Em defesa da soberba e do arbítrio da arte


RESUMO
Alvo de protestos de pichadores, jornalistas e militantes da causa animal, o trabalho "Bandeira Branca", de Nuno Ramos, foi desmontado na 29ª Bienal de São Paulo, por determinação do Ibama, que o havia autorizado. O artista faz uma defesa da legalidade da obra e reflete sobre consensos e rupturas inerentes à atividade artística.

PROCUREI INTENCIONALMENTE matar três urubus de fome e de sede no prédio da Bienal de São Paulo. Pus ali imensas latas cheias de tinta escura, para que se afogassem, além de espelhos, para que batessem a cabeça durante o voo. Construí túneis de areia preta, para que entrassem sem conseguir sair, morrendo ali dentro. E, para forçá-los a voar, costumo lançar rojões em sua direção.

ACUSAÇÕES
Como nos pesadelos ou nos linchamentos, não é possível responder a acusações desta ordem, que circularam pela internet e no boca a boca com força insaciável nas últimas três semanas, criando um caldo de cultura próximo à violência e à intimidação. Como resultado disso, em plena Bienal, entre faixas pedindo que eu fosse preso, meu trabalho foi atacado por um pichador, que driblou a segurança, rasgou a tela de proteção aos bichos e danificou uma das esculturas de areia.

Fomos cercados, eu e minha mulher, por militantes ecologistas, que nos xingavam e gritavam do outro lado do vidro do carro, a boca em câmera lenta, "a-li-men-ta-e-les!" – o que, claro, já havia sido feito naquele mesmo dia. Barbara Gancia, colunista da Folha, chegou a pedir, utilizando um imaginário de repressão militar ou de milícia fascista, que eu fosse colocado de cuecas contra um muro e submetido a uma ducha com as mangueiras para incêndio do corpo de bombeiros.

Ingrid E. Newkirk, presidente da organização não governamental Peta [pessoas pelo tratamento ético de animais, na sigla em inglês], num artigo feroz, publicado na Folha em 8/10, encontra apenas o que pressupõe desde o início: que eu quero aparecer (ela, não? alguém duvida que um dos temas da polêmica é justamente a disputa pelo espaço na mídia?); que sou (os termos são dela) cruel, "bad boy", sem compaixão e produtor de arte de má qualidade. Como não há argumentos e o raciocínio é circular, tudo retorna à ilibada consciência da articulista.

A notícia atravessou fronteiras raras para questões envolvendo arte (horários insuspeitos em todos os canais de TV, cadernos de jornal pouco afeitos à cultura e nas mais diversas regiões do país), passando a assunto de bar e padaria. Os urubus, definitivamente, haviam conseguido escapar e, para usar os versos de Augusto dos Anjos, pousaram na minha sorte.

TOM
Frequento uma área da cultura afastada dessa luz radioativa, e não quero errar o tom. Começo este texto, portanto, fazendo a minha lição de casa: o que quer que tenha acontecido, aconteceu por meio das instituições. A licença do Ibama de Sergipe, que permitiu o transporte e a exposição dos animais, era legítima e dentro de parâmetros absolutamente legais, bem como sua cassação pelo Ibama de Brasília.

Tentamos, eu e a Fundação Bienal, que me apoiou de todos os modos possíveis em defesa do meu trabalho, uma liminar na Justiça e perdemos. Acatamos e tiramos, no mesmo dia em que a decisão liminar saiu, as três aves. Sinto-me coibido, injustiçado e chocado com tudo isso, mas não posso dizer que fui censurado. E por entender que a forma que destruiu meu trabalho ao tirar as três aves é legítima, quero divergir completamente dela.

Como quase nenhuma informação sensata circulou, tenho primeiro que dizer o óbvio:

1) As aves que utilizei em meu trabalho são aves nascidas em cativeiro, e não sequestradas ao habitat natural; é para este cativeiro que voltaram (e onde estão neste momento), quando foram "soltas" do meu trabalho;

2) Pertencem ao Parque dos Falcões (criadouro conservacionista que funciona com autorização do Ibama, realizando atividades educacionais e pedagógicas, pelo Brasil inteiro, com aves de rapina), que as mantêm em exposição para o público, como num zoológico;

3) Estas mesmas três aves participaram em 2008 de uma versão bastante similar deste trabalho, no Centro Cultural Banco do Brasil de Brasília, durante dois meses, adaptando-se perfeitamente ao espaço e sem nada sofrer, com plano de manejo aprovado pelo mesmo Ibama;

4) As aves foram adaptadas ao espaço da Bienal antes do início da mostra, com a presença do veterinário responsável por elas e de um tratador;

5) Esse tratador, o mesmo que cuida delas em Sergipe, ficou permanentemente com elas durante todo o tempo de exibição das aves ao público, literalmente abrindo e fechando a mostra:

6) Eram alimentadas por ele todas as manhãs, em quantidade e frequência estipuladas pelo plano de manejo;

7) O volume das caixas de som foi controlado, sendo mantido numa altura bastante inferior ao do murmúrio do público, para evitar estresse aos bichos;

8) O plano de manejo das aves, aceito pelo Ibama de Sergipe, foi revogado, já no meio da polêmica, pelo Ibama de São Paulo – mas sem recomendação de cassação. O que o laudo técnico, sério e sisudo do Ibama de São Paulo solicitava eram ajustes –basicamente, que desligássemos uma das caixas de som e que instituíssemos banhos de luz ultravioleta todas as manhãs, para suprir a falta de luz solar direta sobre os bichos (embora a luz do dia banhasse o espaço). Oferecia, ainda, uma licença de 15 dias, a ser prorrogada de acordo com a avaliação periódica sobre o bem-estar dos animais. O Ibama de Brasília, que, sob pressão política e midiática, determinou arbitrariamente a saída das aves, em desacordo com o laudo do Ibama de São Paulo, travou o que parecia ser um processo rico de colaboração entre técnicos sérios, com conhecimento sobre os animais, e um trabalho de arte;

9) Obtivemos laudo favorável do Departamento de Parques e Áreas Verdes da Prefeitura de São Paulo;

10) Técnicos do setor de aves do Zoológico de São Paulo, em vistoria ao trabalho, não manifestaram qualquer crítica específica ao manejo das aves – fiquei sabendo nesta visita, inclusive, que a jaula dos urubus era bem maior que qualquer jaula do zoológico, inclusive a do condor.


Bandeira Branca (2008), de Nuno Ramos, no CCBB de Brasília

EXPIAÇÃO
Por que, então, tanta confusão? Que é que está sendo expiado aqui?

Para começo de conversa, e como aproximação ao problema, quero lembrar que "Bandeira Branca" não é um trabalho de ecologia, nem eu sou especialista em aves de rapina, assim como "Guernica" de Picasso não é apenas um trabalho sobre a Guerra Civil Espanhola, nem Picasso um historiador. Por isso utilizei os serviços de uma entidade ecológica, o Parque dos Falcões, e obtive, tanto na montagem em Brasília, em 2008, quanto em São Paulo, autorização do órgão legal em meu país para esses assuntos.

Ou a lei não vale para todos? Tratar meu trabalho como crime e a mim como criminoso é fazer o que fazia a direita franquista, ao chamar "Guernica" de quadro comunista, ou a aristocracia francesa da segunda metade do século 19, quando ameaçava retalhar a "Olympia", de Manet, em nome dos bons costumes.

O que me foi negado com a criminalização do meu trabalho foi a possibilidade de um sentido – o sequestro, digamos, de qualquer sentido que ele pudesse propor. E é contra isso, mais do que contra a boataria e a calúnia, que escrevo hoje.

VALORES
Arte não cabe nos bons nem nos maus valores, por mais confiança que se tenha neles. Dela emana um signo aberto, para isso foi inventada, para que fanatismos como os que ouvi nessas últimas semanas não circunscrevam completamente o possível da vida. Claro que ninguém está acima da lei, e, repito, cumprimos, artista e instituição, rigorosamente a legislação ambiental brasileira – mas é a possibilidade de pensar diferente que está sendo criminalizada aqui.

Artistas extraordinários como Joseph Beuys (por sinal, fundador do Partido Verde na Alemanha), Jannis Kounellis, Hélio Oiticica, Nelson Felix, Tunga, Cildo Meireles, utilizaram animais em suas instalações. Provavelmente o trabalho de Beuys que inclui um coiote ("I Love America and America Loves Me") seja, sem nenhum favor, uma das mais importantes obras de arte do século 20.

"Tropicália", de Hélio Oiticica, que tem araras vivas em seu interior (curiosamente, exposta há poucos meses, com as aves, no prédio do Itaú Cultural de São Paulo, na avenida Paulista, sem despertar qualquer polêmica), é um trabalho fundamental para a compreensão do que somos e do que queremos ser. Negar o que estes artistas conseguiram com seus trabalhos – uma oxigenação radical de nosso imaginário- tratando-os como criminosos certamente seria regredir a épocas de triste memória.

Posso entender quem seja contra bichos em cativeiro. Seria interessante exigir um pouco de coerência dessa posição – ou seja, vegetarianismo radical, já que a quase totalidade da carne que comemos vem de animais em cativeiro, fechamento de todos os zoológicos, jóqueis-clubes, fazendas com animais para monta e, ainda, requalificação geral de nossas relações com bichos domésticos. Mas, mais do que coerentes, gostaria que fossem suficientemente democratas para aceitar que nem todos pensem como eles, nem todos se deem o lugar de xamãs, em contato íntimo com os desejos e sensações dos animais, e que dentro das regras públicas legais de cada país o acesso a esses animais possa se dar sem histeria nem calúnias.

BANDEIRA BRANCA
Como nada ou quase nada se falou sobre o trabalho, peço licença para interpretar o que eu próprio fiz, partindo de uma breve descrição. "Bandeira Branca" (este título, no meio de um bombardeio desses, é dessas coisas que só a arte explica) foi montado pela primeira vez há dois anos, no CCBB de Brasília, e agora, ampliado e modificado, recebeu uma segunda versão, especialmente para a 29ª Bienal.

O trabalho consiste em três enormes esculturas de areia preta pilada, foscas e frágeis, a partir de cujo topo, feito de mármore, três caixas de som emitem, em intervalos discrepantes, as canções "Bandeira Branca" (de Max Nunes e Laércio Alves, interpretada por Arnaldo Antunes), "Boi da Cara Preta" (do folclore, por Dona Inah) e "Carcará" (de João do Vale e José Candido, por Mariana Aydar). Três urubus vivem na instalação durante toda a duração do trabalho.

O resultado é uma cena solene, entre a litania e a canção de ninar, que me parece ter cavado, em sua montagem em São Paulo, uma espécie de buraco negro no prédio da Bienal. Acho que o vão do prédio, uma das obras mais felizes de Niemeyer, com sua velocidade e otimismo, ganhou com meu trabalho um contraponto ambivalente, noturno e encantado, triste mas também próximo do mundo dos contos de fada.

Há uma espécie de espiral ascendente no trabalho, que se desmaterializa conforme o espectador sobe a rampa do prédio e as pesadas colunas de areia se transformam na geometria de quem vê as esculturas de cima. Feito primeiro de areia, depois de mármore, depois de vidro, depois de som, depois de voo, o trabalho faz em seu percurso o mesmo que as aves, num ciclo que a chuva de fezes brancas, caindo sobre as peças e sobre o chão, inicia novamente.

ANTIPENETRÁVEL
Mas o ponto crucial, acho eu, é que, apesar da monumentalidade do trabalho e da textura inacabada da areia, que solicitam o corpo do espectador, o público é mantido fora da obra, numa espécie de antipenetrável. A obra de certa forma já foi ocupada, já tem dono e por isso não podemos nos aproximar. A noite, as canções e os urubus são seus donos, e ao público resta assistir de fora a alguma coisa viva, que não precisa dele.

As canções e os bichos, forças ascensionais contra a inércia e o peso das esculturas, já tomaram conta da obra e a tela de proteção, que materializa o desenho do vão do prédio, marca essa passagem entre um exterior institucional e um interior ativo, fechado em si, mistura de cultura (canções), natureza (os urubus) e arquitetura.

As aves e as canções dão ao trabalho o seu agora, uma duração voltada para algo indiferente ao mundo lá fora. Daí que muita gente tenha me dito que se sentia observado pelas aves e não observador, dentro da grade e não fora dela. E que no meio de tanto tumulto, com certeza as três aves pareciam as únicas tranquilas.

Esta atividade interna autossuficiente está no coração deste trabalho e me acompanhou ao longo da balbúrdia destes dias difíceis. Fico feliz de perceber que de certa forma o trabalho já pressupunha isso, falava disso e defendia-se exatamente disso -queria estar consigo e não conosco, longe da barulheira que no entanto causava.

AUTOSSUFICIÊNCIA
Em vez da atividade do espectador, própria de tantas das melhores obras modernas, e que encontrou entre nós uma formulação extrema na ideia dos "Penetráveis" de Hélio Oiticica, a arte contemporânea parece estar se voltando para dentro, numa autossuficiência renitente.

Não é o lugar para desenvolver isto, mas, para dar dois exemplos memoráveis, acho que as "Elipses", de Richard Serra, apoiadas em si mesmas e não mais nas paredes das instituições, ou "O Ciclo Creamaster", de Matthew Barney, com suas infinitas dobras e relações internas, partilham esta característica. Meu trabalho acompanha de certa forma essa direção.

A institucionalização crescente da arte trouxe para junto dela uma pletora de discursos institucionais, todos perfeitamente centrados, seguros de si e disputando espaço na mídia e nas oportunidades orçamentárias. Isso vem, talvez, do estilhaçamento das grandes noções universais que acompanharam a formação do mundo moderno: política, religião, burguesia, proletariado, luta de classes, direita, esquerda etc.

Com a quebra dessas noções universais, os particulares (ecologia, minorias étnicas, minorias sexuais etc.) firmaram-se, cheios de si, pontudos, zelosos de suas verdades. A arte talvez seja a última experiência universalizante, ou ao menos não simétrica à discursividade do mundo, e acho que tende a ser cada vez mais atacada, toda vez que discrepar, como soberba e como arbítrio. Mas penso que é isso mesmo que ela deve manter: sua soberba e seu arbítrio, para que possa continuar criando.

DESFAÇATEZ
Pois isso para mim foi o mais impressionante de tudo: a absoluta incapacidade, digamos, interpretativa de quem me atacou, a recusa de ver outra coisa, de relacionar o sentimento de adesão ou de repulsa que meu trabalho tenha causado com qualquer coisa proposta por ele, em suma, a desfaçatez com que foi usado como trampolim para um discurso já pronto, anterior a ele, que via nele apenas uma possibilidade de irradiação.

Para isso, é claro, o principal ingrediente é que fosse tomado de modo absolutamente opaco e literal, espécie de cadáver sem significação. Para que possa ser veículo estrito de discursos e de grupos, sem que utilize seus recursos, digamos, naturais (sedução, desejo, ambivalência), o trabalho de arte tem de estar, de fato, desde o início definitivamente morto. Daí, creio, a ferocidade com que fui atacado -uma espécie de operação higiênica preventiva, para impedir que qualquer germe de espanto, ambiguidade, beleza, estupor, pudesse aparecer, desqualificando o desejado consenso.

No fundo, acho que a frase famosa de Frank Stella, que jogou uma pá de cal nas ilusões subjetivas de começos dos anos 60 e inaugurou as poéticas minimalistas que duram até hoje, "What you see is what you see" ("O que você está vendo é o que você está vendo"), parece ter migrado da arte para o mundo. A literalidade das obras de um Carl Andre ou de um Donald Judd transferiu-se inteira para as instituições e para o público.

Por isso talvez caiba hoje à arte a tarefa bastante simples, mas tão difícil, de dizer exatamente o contrário: "O que você está vendo NÃO é o que você está vendo". Ou seja, sonhar. Ou, como diz a letra da canção, "Bandeira branca, amor".

Nuno Ramos


Sobre a retirada dos urubus: Ibama determina retirada dos urubus da Bienal de SP

Entrevista com o artista

domingo, 17 de outubro de 2010

A RAIVA DO FILÓSOFO


O arremessador de flores, de Banksy

Quando algum imbecil fechar seu caminho no trânsito, pense em Sêneca. Quando lhe deixarem horas esperando em pé na fila do banco, pense em Sêneca. Quando lhe enviarem um cartão de crédito não solicitado ou aumentarem as tarifas telefônicas, pense em Sêneca também, para variar. Não que o velho filósofo tenha sido bom motorista, cidadão ou consumidor, mas porque já na Roma antiga ele percebeu que a raiva não leva a lugar algum, exceto à cova, e normalmente mais cedo do que gostaríamos.

Falar é fácil, difícil é se controlar na hora H. Mas compreender esse sentimento segundo o ponto de vista de Sêneca nos ajuda a lidar com ele e, consequentemente, com as situações desagradáveis que a vida impõe.

Isso porque grande parte dos acontecimentos estaria sob o controle da deusa Fortuna, administradora do destino dos homens, e desafiar o poder divino estava fora de cogitação. Não restava nada a fazer, exceto se consolar com a ideia de que, se não podemos mudá-los, temos ao menos a liberdade de determinar a maneira como reagimos a eles. Afinal, "tudo depende do conceito que temos das coisas", ou seja, da maneira como as enfrentamos.

Por que deixamos os problemas do dia a dia nos irritar? De acordo com Sêneca, porque criamos muita expectativa a respeito deles. Depois, quando a realidade dá as caras e carrega nossos desejos para o ralo, não sabemos responder filosoficamente à frustração decorrente.

Quer dizer, o trânsito nos irrita porque, cada vez que tiramos o carro da garagem, acreditamos, ainda que inconscientemente, que ninguém cometerá barbeiragens pelo caminho. O aumento das tarifas nos tira do sério porque estávamos seguros de que nenhuma empresa teria a ousadia de planejar a exploração de nossos bolsos enquanto aguardávamos pacientemente a conta chegar; enquanto a fila do banco nos deixa com vontade de xingar todos em voz alta porque, em nossa vã ingenuidade, ninguém teria pensado em levar a cabo seus afazeres financeiros exatamente no mesmo instante que nós, por mais que seja hora do almoço do dia trinta.

A filosofia, no entanto, está aí para nos ensinar a sermos felizes, mesmo que isso signifique encarar a vida com um pouquinho de pessimismo. Se assumirmos que o mundo não é perfeito e não deixarmos as expectativas nos iludirem, as situações que fogem ao nosso controle serão aceitas mais facilmente.

É um exercício que vale a pena experimentar. Pela manhã, antes de sair de casa, pense em tudo que pode dar errado: o trânsito, a xícara de café derramada na calça, as reuniões intermináveis, o almoço engolido em cinco minutos, o telefone que não para de tocar, o salto alto quebrado, o banco lotado, o chefe mal humorado e a necessidade súbita de fazer hora extra durante a novela ou o campeonato brasileiro. Pense também que não há nada que você possa fazer para impedir esses desastres. Assim, tudo o que sobrar será lucro.

Parece uma maneira por demais melancólica de encarar a vida, lembra até aquela hiena dos desenhos animados que vivia resmungando "Oh, vida. Oh, azar". Só que o segredo é não exagerar, afinal, trata-se de um exercício filosófico cujo objetivo é mostrar que não temos controle sobre tudo e que, portanto, ninguém precisa sofrer com isso. Talvez o termo exato nem seja "pessimista", apenas "racional" ou mesmo "realista".

Sêneca também dizia que sofrer por antecipação nos faz perder o presente por medo do futuro. "Somos, no mais das vezes, mais vítimas do nosso terror do que dos perigos reais, e sofremos mais com a ideia que fazemos das coisas do que com as próprias coisas". Ele ainda nos aconselha a não sermos infelizes antes da hora, porque os perigos que tememos talvez nunca cheguem.

Era um homem que sabia das coisas. Escreveu mais de vinte livros inspirado no que acontecia ao seu redor, o que nos permite supor que a vida não era fácil naquela época. Em 49 d.C., só para citar um exemplo, o filósofo recebeu a ingrata tarefa de educar um menino rebelde, metido a dono do mundo, que mais tarde se tornaria o temível imperador Nero e o condenaria ao suicídio induzido.

Portanto, quando alguma coisa tirar você do sério, pense em tudo que Sêneca aprendeu e que ainda hoje nos serve de lição. E, quando alguém quiser lhe consolar dizendo que "vai ficar tudo bem", não se iluda. Considere apenas que, se não ficar tudo mal, já será um ótimo resultado.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

A CRÍTICA DA CRÍTICA



Os Simpsons são famosos pela crítica social que fazem por meio de sátiras e exageros, transformando assuntos sérios em piadas. Muitos outros seriados fazem o mesmo e também têm audiência relevante tanto nos Estados Unidos quanto no resto do mundo, vide South Park e Family Guy. Aliás, criticar a sociedade norte-americana rende tanto assunto que Os Simpsons, por exemplo, já estão no ar há mais de vinte anos. Todo mundo adora, inclusive os próprios criticados, que fazem questão de ser o assunto da vez. E, até onde podemos constatar, o resultado dessa crítica é nulo - salvo as risadas.

No vídeo acima, vemos uma cena inusitada. Banksy, artista de rua bastante conhecido por desenvolver obras de apelo social, foi convidado para reinventar a abertura clássica de Os Simpsons. A polêmica foi tamanha que a Fox tentou abafar o caso (eles não devem ter achado a menor graça). Adivinhe o que aconteceu: o mesmo que sempre acontece quando uma empresa desse porte, preferencialmente americana, tenta abafar um caso: mais gente ficou sabendo.

O minuto e meio que Banksy criou deve ter gerado muito mais reflexão do que toda a década de exibição do seriado. Por quê? Provavelmente porque ele fez uma crítica consistente daqueles que eram famosos por criticar os outros. E utilizando o próprio programa.

Também acredito que haja um motivo ainda mais forte: Banksy mostrou que, por trás da piada, sempre existe um assunto sério - sabe aquele ditado segundo o qual toda piada tem um fundo de verdade? No caso, trata-se de um assunto do qual costumamos rir, ignorar e esquecer, colocado em evidência onde menos se esperava. Dá mesmo o que falar.

Parabéns a Os Simpson por permitir uma manifestação tão bacana.

Saiba mais sobre o artista: Banksy

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

DESLUMBRAR

Sou provavelmente o único brasileiro que não leu Comer, Rezar, Amar, livro que ficou meses na lista de mais vendidos e, se bobear, ainda está por lá. Desse modo, minha opinião sobre o recente filme deve divergir bastante da sua, que ansiava por ver no cinema aquelas páginas devoradas em tão poucos dias, tudo para conferir se a Julia Roberts ficou bem no papel de Liz Gilbert, reviver as passagens mais emocionantes e ver com os próprios olhos as paisagens magníficas antes traduzidas em letrinhas. Eu, em compensação, não esperava absolutamente nada, seria apenas mais uma comédia romântica recheada dos clichês habituais. Só que o filme me surpreendeu, saí do cinema entusiasmado.

Talvez porque ele tenha tocado num ponto-fraco: adoro viajar. Sou daqueles que assiste aos documentários do National Geographic sem dar a menor bola para o locutor, completamente hipnotizado pelos cantos exóticos do planeta e doido para tomar o próximo avião para lá.

Portanto, confesso não ter me atentado muito aos blá, blá, blás dos atores, exceto por um ou outro aforismo sobre aproveitar a vida, respeitar a si mesmo e colocar um ponto final no passado. Imagino que esse diálogo com o espectador funcione melhor no livro, quando sobra mais tempo para assimilar as ideias. Cinema é outra coisa, fortemente visual, linguagem diferente, profundidade de reflexões idem. Ainda mais quando falamos de blockbusters. Tudo fica mais rápido. É por isso que você vai sair da sala dizendo: “Mas no livro assim, no livro assado”. Tudo bem, reinventaram mesmo. Só não deixe a angústia afetar a apreciação dessa outra obra.

Deu para perceber que o roteirista tentou respeitar ao máximo a história original, porque alguns momentos ficam bem cansativos. São aqueles em que nada especial acontece, sabe?, estão ali só para ganhar tempo. Mas, no final, ficamos com a sensação de termos visto um filme bonito, com alto teor emotivo, relatado num sedutor tom de confissão.

As paisagens podem ter sido escolhidas com toda a parcialidade do mundo – já estive em Roma e Nápoles, sei que não são exatamente daquele jeito –, mas tudo bem, estamos no cinema para sermos enganados. Ficção é isso aí.

O que importa é que a Julia Roberts cumpre bem o papel, a fotografia é espetacular justamente pelo deslumbramento que provoca e o enredo ficou redondinho, não tem o que tirar nem por. Como o roteirista Lusa Silvestre vive dizendo, os caras sabem fazer direitinho.

Se for seu tipo de filme, assista, porque vai agradar com certeza. Se não for, acompanhe algum entusiasta do gênero e tente assisti-lo com olhos menos criteriosos. Talvez ele também encontre um ponto-fraco seu. E, se depois de tudo isso sua opinião ainda divergir da minha – ou não –, deixe um comentário aqui embaixo. Nesse meio-tempo, vou correr para ler o original de Elizabeth Gilbert e riscar essa falta grave da listinha.

Ps.: Agora, cá entre nós, o Javier Bardem interpretando um brasileiro com aquele sotaque semidisfarçado é bizarro. Talvez sejamos os únicos do mundo a notar, mas podíamos ter passado sem essa. Tanto ator bom sobrando nas bandas de cá, foram escolher um fajuto!
"Somos todos escritores. Só que uns escrevem, outros não."
José Saramago

sábado, 2 de outubro de 2010

FELIZ ANIVERSÁRIO, MASP

Estive lendo a linha do tempo do MASP, que fizeram para comemorar os 63 anos do museu – sim, é hoje! –, e descobri a foto abaixo. Foi tirada em 1950, durante exposição de Le Corbusier, e achei tão singela que precisava compartilhar.

Fica aqui também minha homenagem a esse que, apesar das crises, continua a ser um dos museus mais importantes do país.

Também é um dos mais importantes para mim. Parabéns!

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

A DIFÍCIL TAREFA DE EXIBIR IDEIAS

Quero fazer uns breves comentários sobre a exposição de Joseph Beuys no Sesc Pompeia, tão breves quanto foi minha passagem por lá. Verdade que se trata da maior retrospectiva do artista já realizada no Brasil. São cerca de trezentas obras reunidas, entre cartazes, múltiplos e vídeos, além de uma sede simbólica da F.I.U. (Universidade Livre Internacional), responsável por ministrar cursos, palestras e debates a quem interessar. Ainda assim, é uma exposição meio chata de se ver.

Talvez porque Beuys tenha sido um artista conceitual, preocupado com questões políticas e filosóficas a respeito da sociedade, a qual ele queria transformar usando essencialmente arte. Foi inclusive afirmando que todos somos artistas – e, portanto, plenamente capazes de participar dessa revolução – que Beuys, por exemplo, mobilizou um grupo de pessoas para produzir azeite e vinho na Itália. O objetivo era incentivar a revalorização da agricultura local e as garrafas estão à mostra no Sesc, entre outras dessas criações chamadas “múltiplos”. Porém, é importante esclarecer que a obra não é a garrafa em si, mas o projeto e a ação que a geraram. O problema vivido pelo curador Antonio d’Avossa, que torna a restrospectiva um pouco sem graça, não poderia ser mais contemporâneo: como exibir esse tipo de arte?


A responsabilidade recai sobre os textos de parede e vídeos. Agora, cá entre nós, quem tem paciência para apreciar uma exposição assim? Os textos, sempre vítimas do dilema “tamanho x superficialidade”, são difíceis de ler. Primeiro, porque os outros visitantes cruzam o caminho e atrapalham. Depois, porque nossa atenção fica dividida entre tantas novidades que a leitura exige um esforço absurdo.

Os vídeos, por sua vez, demandam tempo e implicam frustração certa, porque pegá-los no começo é tão difícil quanto ganhar na loteria. A mostra em questão conta com vinte deles, divididos em quatro cubículos pouco convidativos, em exibição permanente. São importantes registros de performances e documentários sobre a vida do artista, alguns com até duas horas de duração. Se no cinema, com luz e som ideais, poltronas fofinhas e pipoca já seria uma maratona considerável, imagine ali, em pé, com pessoas circulando e comentando ao redor. Desisto antes mesmo de tentar.

Também está exposta a bonita coleção de cartazes do italiano Luigi Bonotto, que soma duzentas peças, boa parte delas assinada pelo próprio Beuys. Muito mais do que mera divulgação de atividades, os cartazes serviam como um canal de comunicação para as ideais revolucionárias do artista. Um registro histórico que pode até ser revelador, mas que não consegue se livrar do tedioso rótulo de “documentação”.



O mais bacana mesmo são as atividades programadas pela unidade simbólica da F.I.U., que oferece aulas, debates, minicursos, seminários e oficinas. Os professores entendem do assunto e qualquer um pode participar, tal como almejava Beuys.

Também merecem elogios o catálogo e o folder. O primeiro porque, além de ótimas imagens e textos, está sendo vendido por trinta reais – valor convidativo até mesmo para quem deseja apenas folheá-lo por curiosidade, sem grandes pretensões. O segundo, porque traz informações completas e fáceis de consultar. Tem trinta e duas páginas impressas com capricho, que explicam o propósito da mostra e esclarecem a filosofia do artista. Até quem nunca tinha ouvido falar dele vai ler, gostar e guardar na estante.

Se quiser um conselho de um apaixonado pela obra de Joseph Beuys e pelas iniciativas culturais do Sesc, dê uma passada rápida por lá, veja tudo à maneira de Baudelaire – ou seja, ‘flanando’, atentando-se somente ao que lhe instiga – e leve um folder para casa. Justamente por se tratar de uma produção conceitual, é muito mais interessante compreender as ideias do artista do que vivenciá-las por meio de uma experiência de corpo presente. Com isso feito, seu entendimento estará completo.