quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

IT'S THE END OF WORLD AS WE KNOW IT

(clique na imagem para ampliá-la)

Fim dos jornais, fim dos discos, fim das cartas, fim dos livros, fim dos casamentos, fim da arte, fim dos bate-papos entre amigos. Cada vez que se inventa uma engenhoca, declara-se o fim de outra. Mas nada termina de verdade, certo? Não dá para acreditar nessas conclusões antecipadas.

Para 2012, previram o fim do mundo. Mas ele não vai acabar, claro – vai acabar a maneira como nós o conhecemos. Tudo para dar início a um mundo melhor, feito de alegrias, conquistas e amizades sinceras. Nisso dá para acreditar.

Como canta o R.E.M., "It's the end of the world as we know it. And I feel fine."
(É o fim do mundo como nós o conhecemos. E eu me sinto bem.)

Então, feliz ano novo!


terça-feira, 27 de dezembro de 2011



"Acabo de descobrir, com brusquidão e sem razão aparente, que menti a mim mesmo durante dez anos. As aventuras estão nos livros. E, naturalmente, tudo o que se conta nos livros pode realmente acontecer, mas não da mesma maneira. Era essa forma de acontecer que era tão importante para mim, que eu prezava tanto."

A náusea, de Jean-Paul Sartre

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

A ÓTIMA ESQUISITICE DE KARINA BUHR



Na primeira vez em que ouvi Karina Buhr, achei bastante esquisito. Eu tinha lido uma nota sobre o lançamento do disco Longe de onde em uma revista especializada e fiquei curioso; afinal, é uma estreia que ganhou boas recomendações, que conta com patrocínio da Natura* e com as parcerias talentosas de Edgard Scandurra, Fernando Catatau e Guizado. Baixei o disco gratuitamente do site da artista, ouvi uma faixa ou outra cujo nome me chamou a atenção e fiz uma busca no Youtube para assistir ao clipe Cara Palavra; no geral, achei tudo bastante esquisito, como disse no início.

Comecei então a questionar o que me causava tanto estranhamento. À primeira ouvida, acho que foi o próprio corpo do som – quando soube de mais essa jovem cantora despontando, esperava que ela fosse justamente isso, mais uma como as outras. O que já seria um grande mérito, dada a boa fase da nossa cena musical. Porém, vieram aquelas batidas fortes de coração nordestino, junto com o sotaque que carrega sua origem na ponta da língua; aquelas guitarras distorcidas conectadas diretamente dos fones aos meus ouvidos, bagunçando tudo por ali; aquela mistura muito bem dosada de rock, punk e percussão… fui pego desprevinido. Era uma música diferente, forte e com vontade de expressão.

As letras também dizem muito, vide a própria Cara Palavra, que abre o disco explorando os significados das coisas quando elas mudam de contexto, ou quando as pessoas que as utilizam se transformam. Tudo vira outro, tudo se multiplica. Karina vai unindo palavras para construir novas, acentuando a sílaba errada para sugerir o significado correto. É uma experiência puramente lírica. E também bastante divertida, que vai se desvendando ao longo de uma faixa tão breve e ao mesmo tempo tão ampla.

Outro exemplo bacana é Cadáver, em que as palavras “em defesa” e “indefesa” soam praticamente idênticas, revelando-se somente no contexto (“Sua dúvida é produto da sua escravidão / Mantenha então / Sua sanidade em defesa do seu estômago. / Se você pensou que tinha solução / Mantenha então / Sua integridade indefesa.”).

Não dá para analisar o disco inteiro aqui, até porque cada faixa deve encontrar seu próprio ouvido-metade e sussurrar ali seus segredos mais intrínsecos. Talvez você não se identifique com nenhuma, o que eu acho difícil, mas vale a pena tentar mesmo assim.

Se a esquisitice de Karina Buhr incomoda, isso é bom, é sinal de que existe algo novo e interessante em seu trabalho, algo distante do lugar-comum e que lhe dá evidência nessa fase tão fresca da música brasileira. O disco exige que a gente vença o estranhamento aos poucos, sem apressar o tempo, sem pular as faixas. A cada repetição, ele fica melhor.

Agora, quero saber aonde Karina Buhr vai nos levar. Espero que para bem longe de hoje.

*Projeto selecionado no Edital Nacional 2010 do Natura Musical.


Conheça o site da artista e baixe o disco gratuitamente: www.karinabuhr.com.br

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

ARTE E DOR NA EXPERIÊNCIA ESTÉTICA

“Temos que nos livrar das pegadas da cilada romântica que alia a criação à dor. Qualquer situação em que a vida se vê constrangida pelas formas da realidade e/ou o modo de descrevê-las produz estranhamento. Segue-se um desconforto que mobiliza a necessidade de expressar o que não cabe no mapa vigente, com a criação de novos sentidos, condição para que a vida volte a fluir. É nisso que consiste a experiência estética do mundo: ela depende da capacidade do corpo de fazer-se vulnerável a seu entorno, deixando-se tomar pela sensação da disparidade entre as formas da realidade e os movimentos que se agitam sob sua suposta estabilidade, o que coloca o corpo em ‘estado de arte’. É uma espécie de experiência do mundo que vai além do exercício de sua apreensão reduzida às formas, operado pela percepção e sua associação a certas representações, a partir das quais se lhes atribui sentido.”

Suely Rolnik, no catálogo da mostra Arquivo para uma obra-acontecimento: projeto de ativação da memória corporal de uma trajetória artística e seu contexto 

Foto: a artista brasileira Lygia Clark, criadora da obra Estruturação do Self (ver foto abaixo) e um dos principais assuntos de estudo da psicanalista Suely Rolnik.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

A SACOLINHA VERMELHA DO PAPAI NOEL

  
Fico imaginando a reação da criança ao abrir cada um dos pacotes e explorar o conteúdo, sorrindo com os amigos, colocando as roupas sobre o corpinho para ver se servem, procurando o brinquedo que deve estar ali, no meio daquela algazarra. Sempre há um brinquedo, uma caixa de bombons, um conjunto de roupas e um par de sapatos. É o que a instituição responsável pela tutela dessas crianças carentes pede a quem se dispõe a "adotá-las" no Natal.

As tais sacolinhas se popularizaram na agência onde trabalho. Este ano, foram mais de cinquenta, o que significa mais de cinquenta tentativas de proporcionar um Natal minimamente digno a alguém com condições menos – ou nada – favorecidas.

Entre os presentes, eu sempre acrescento dois, que considero imprescindíveis: um livro e uma cartinha. A presença de livros foi determinante em minha vida, e acredito que eles também podem ajudar essas crianças a superar as dificuldades que hoje se colocam para elas, seja por adquirirem o gosto pela leitura (sempre uma experiência positiva), seja pelo conteúdo (aprendizado e visão crítica), seja pelo convívio social que advém dali (emprestando o livro, lendo em conjunto com amigos ou ouvindo um adulto contar a história).


Em uma resenha de 1924, o filósofo alemão Walter Benjamin comenta que as crianças têm um apreço peculiar por todo tipo de detritos, onde quer que eles surjam – na construção de casas, na jardinagem, na carpintaria, na confecção de roupas. Com esses detritos, elas constroem o mundo como lhes aprouver. Os elementos dos livros infantis também seriam exemplos dessa matéria-prima tão rica, que dá sentido à vida e nos impele a estabelecer parcerias com ela, contornando criativamente as reviravoltas, admirando suas ilustrações e inventando finais felizes.

Meus brinquedos mais interessantes foram a folha de papel em branco e as caixas de papelão. Com tinta, tesoura, cola e lápis de cor, tudo era possível, desde orbitar a Lua até desenterrar tesouros do fundo do mar. O papelão se transformava em carro, armadura, cabana ou rio. Lembro-me de como era gostoso brincar sem que outras preocupações interrompessem a fantasia, e suponho que, quanto tiver filhos, conseguirei recuperar um pouco da minha própria infância.

Por enquanto, fico com as crianças carentes. E com Walter Benjamin, que, em outros dois textos, agora de 1928, analisa a história cultural do brinquedo. Ele conta que a casa de bonecas, o cavalinho de pau e os soldadinhos de chumbo – entre muitos outros "papais" dos robôs articulados, sonorizados e iluminados de hoje, do videogame e dos bebês de plástico que mamam, choram e fazem cocô – surgiram em oficinas de entalhadores de madeira ou de fundição de metal e demoraram séculos para se popularizarem, assim como para serem produzidos por indústrias específicas.

O filósofo chama nossa atenção para algo que, em sua época, já era preocupante: os sonhos de consumo que os adultos projetam nas crianças direta ou indiretamente, pela publicidade ou pelas visitas ao shopping, e que as transformam em consumidores mirins cheios de decisão. Para ele, a bola, o bambolê e a pipa são tanto mais verdadeiros quanto menos dizem aos pais, ou seja, quanto mais atraentes, no sentido usual, mais se afastam dos instrumentos de brincar.


O filho de uma amiga adora os tupperwares da mãe, mais do que qualquer um dos brinquedos caros que não lhe faltam. Eu o vejo pular, manobrar os potinhos, fazer sons com a boca e se divertir num incrível mundo interior, e percebo que é disso que Benjamin fala – esses seriam os brinquedos de verdade, que instigam a curiosidade e a criatividade.

Os videogames também pertencem a essa categoria, ainda que os pais tradicionalistas não concordem. Porque, no meu modo de ver, os grandes vilões de hoje são: 1) os brinquedos que brincam sozinhos, deixando a criança apenas a acompanhar com os olhos suas estripulias pré-programadas; e 2) a precocidade, que faz meninos e meninas sentirem vergonha de brincar. Agora, se o futebol eletrônico parece mais interessante do que o pebolim ou o botão, é apenas porque essa é a realidade em que vivemos. Isso não significa que a atividade lúdica na frente da TV é pior do que aquela realizada em torno da mesa, do tabuleiro, na rua... O mundo mudou e, às vezes, a brincadeira só precisa de uma compensação. E de compreensão.

Até porque os próprios adultos estão sempre na frente da tela da televisão, do computador e do celular. Então, como vamos exigir que as crianças ajam diferente? Se algo nessa história permanece intacto é o fato de que continuamos a ser o maior exemplo para elas.

Uma observação bacana de Walter Benjamin é que "a ideia determina o brinquedo", não o contrário. Quer dizer, a imaginação da criança transforma o brinquedo a seu bel-prazer, fazendo um carrinho de plástico correr no deserto ou no autódromo, falar e fazer amigos. Por isso, quando um adulto briga com a criança porque ela está brincando "errado", o errado ali é ele próprio, cortando as asinhas daquela imaginação de um jeito tão mesquinho. Brincadeiras saudáveis devem sempre ser incentivadas, não importa o que diz o manual de instruções.

Com livro e brinquedo, eu tento avivar a magia do Natal em uma criança. Para mim, esse é o verdadeiro significado da data, independentemente de religião – sua origem cristã se diluiu na cultura comum e, hoje, qualquer pessoa pode aproveitar a oportunidade para melhorar o mundo, nem que seja um pouquinho só, presenteando alguém com esperança, carinho e alegria.

Ora, pensando friamente, isso é o mínimo que devemos fazer para devolver à sociedade um pouco do que ela nos permitiu conquistar. Mais do que bondade ou moralismo, contribuir para a felicidade de todos é uma obrigação social. Afinal, estamos nessa juntos.

Sim, eu acredito em Papai Noel. Pois os livros infantis, os brinquedos e a filosofia estão aí para comprovar: basta imaginar – e se dedicar – que toda fantasia se realiza.

*Ilustrações: 1) Ponte de Charing Cross (1906), de André Derain; 2) Ponte de Charing Cross (1906), de André Derain; 3) Catedral de São Paulo vista do Tâmisa (1906), de André Derain.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

QUER PATROCINAR A CULTURA DO BRASIL? PERGUNTE-ME COMO.

Pessoas físicas – tipo você e eu, público entusiasta das artes – podem patrocinar projetos culturais simplesmente pelo prazer de ajudar, de agradecer a boa vontade ou de incentivar a criatividade de pessoas que nem sempre – para não dizer "quase nunca" – recebem o merecido reconhecimento.

Museus importantes como a Pinacoteca do Estado de São Paulo têm programas para associados que, em troca de colaborações periódicas, oferecem vantagens como descontos na loja, entradas gratuitas etc. Vale a pena conferir.

Projetos menores também podem receber seu apoio através da Catarse, uma plataforma de financiamento coletivo que serve a diversos interessados. O vídeo abaixo mostra um exemplo: a revista Efêmero Concreto, do AHH!, que tenta acumular 18 mil reais para imprimir os exemplares da nova edição.

Como a cultura é um bem do povo, acho justo colaborar de vez em quando. Esse dinheiro não se perde nem é gasto à toa, muito pelo contrário: ele se torna parte de um tesouro comum. Basta a gente visitar uma exposição de arte urbana, folhear uma revista alternativa ou assistir a uma apresentação de teatro para perceber como ele está sendo muito bem empregado.

sábado, 3 de dezembro de 2011


"Metropolis é o século 20. É a ciência e o obscurantismo. O monumental e o miserável. O alto e o baixo. Os senhores e os escravos. É o século da luta de classes que ali se anuncia. Século do comunismo e do nazismo. Das utopias que viram pesadelos. Das metrópoles que também viram pesadelos. Tudo isso fala da atualidade do filme de Fritz Lang que Hitler e Goebbels, não por acaso, admiravam. Há muitas razões, inclusive equívocas, para gostar de um filme. Mas algo aqui comunga com as ideias dos dois: Metropolis é, por excelência, o filme do preto e branco, das sombras pintadas que discriminam com nitidez o claro do escuro, a luz da treva. De uma certa ordem rígida, absoluta, que devia andar de acordo com o pensamento dos nazistas. No entanto, a ideia de duplicidade que Lang introduz na trama transtorna um tanto esse panorama unívoco. É uma ideia que o acompanha desde sempre, presente em praticamente todos os seus filmes. É como se dissesse: todo homem é duplo, comporta o seu contrário. (...) É esse ambiente de fricção, conflito, dúvida permanente sobre o outro que Lang evoca magistralmente neste que é seu filme mais próximo do Expressionismo."
Inácio Araujo (2010), no jornal Folha de São Paulo 

Vi Metropolis pela primeira vez não faz muitos anos. Eu estava curioso para conhecer esse clássico que influenciou todo o cinema posterior. Reconheci nele tantos temas, soluções plásticas, jogo de luzes e ideias de futuro que ele parecia um apanhado de Blade Runner, The Wall, 1984, THX 1138, A ilha e Minority Report, entre muitos outros. Aliás, essa é uma experiência interessante, assistir aos clássicos depois dos recentes, percebendo o que deles ficou como legado. Faz a gente ter certeza de que o presente está em constante diálogo com o passado, tanto que mal conseguimos distingui-los, ou saber onde acaba um e começa o outro. Se é que o passado termina mesmo. Porque, quando a gente se dá conta, o presente já ficou para trás, enquanto o futuro jamais chegará de verdade.