quarta-feira, 25 de agosto de 2010

ELIAS, O GÊNIO


Medusa after Caravaggio, de Vik Muniz


Elias mal completara vinte e três anos quando teve a grande ideia de sua vida: dali em diante, nunca mais tomaria banho. Claro que não foi uma decisão fácil; ele pensara durante um bom tempo antes de finalmente abraçar a causa. A iniciativa tinha que vir de alguém. E para que serve tanto banho, afinal? Neste mundo movido a inovações mirabolantes e sucessos instantâneos, Elias percebeu que o melhor seria radicalizar para se destacar. Punha os motivos nos dedos toda vez que alguém o questionava e acreditava piamente neles. De onde vinha aquela maluquice? Do mesmo lugar de onde vêm todas as outras: da necessidade de satisfazer a ambição.

No começo, todos acharam que era coisa de jovem rebelde, que passaria logo. Onde já se viu alguém deixar de tomar banho? Nem os franceses são tão enfáticos. Porém, quando os primeiros indícios de seriedade começaram a aparecer – dava para sentir de longe –, vieram também as expressões fechadas e os olhares incrédulos. Perplexos. Só que Elias não via maiores problemas na falta de banho, tanto que pregava o costume com a maior convicção.

Já pensou no tempo que se perde diariamente debaixo do chuveiro? Ou, pior ainda, imerso na banheira? Imerso na banheira! Sim, tempo precioso. Tudo é movido a tempo hoje em dia. Agora, some a esse tempo as horas que você desperdiça dormindo. Assusta, né? Então, continuando a somar, considere uma generosa dose de trânsito. Atrasos. Salas de espera. E, já ia me esquecendo: você come, certo? Argh... café-da-manhã, almoço, jantar, lanches. E mais trânsito! Foi aí que Elias resolveu não tomar outro banho. Nenhumzinho, nem daqueles "de gato", com canequinha.

Que maravilha! Muitos minutos extras para os dias conturbados. Muitos minutos extras para os dias sossegados. O tempo de Elias rendia que era uma beleza. Ele produziu mais, ganhou aumento. Leu mais, ficou inteligente. Sua fórmula começou a atiçar a curiosidade dos amigos; afinal, o cheiro não incomodava tanto, principalmente quando comparado àquele sucesso repentino.

Então, os mais chegados começaram a se esquecer do banho também. Ora, não é que o dia se multiplicava mesmo? Não demorou muito para a corrente cair na imprensa e o mundo inteiro deixar o banho para a história. Elias era um marco.

As fábricas de chuveiro faliram, pois é. Mas sempre existem os espertos oportunistas e uma enorme gama de novos produtos invadiu o mercado. Sachês perfumados, lencinhos umedecidos, pregadores coloridos colecionáveis, colônias, desencrustantes. O ser humano se adapta fácil.

O único que odiou a moda foi Elias, pois todos se igualaram a ele novamente. Pior: revogaram seu aumento! Claro, a produção individual se normalizou, todos voltaram ao mesmo nível, era justo que voltassem também ao mesmo barco. Salário mais alto causaria discórdia, veja bem, foi o que disseram. Reconhecimento? Bah. Welcome to the jungle.

Então, certo dia, Elias teve outra ideia genial: deixar de dormir!

Ah, humanidade...

Um mês de olheiras e o salário de Elias tornara a ser digno. Virava noites e mais noites no escritório. Contava vantagem. Estava feliz.

Não quis deixar que seu segredo se espalhasse, não queria que todos o copiassem mais uma vez, mas foi em vão. Era complicado demais esconder a verdade, mesmo debaixo daquele cascão. Tinha que mudar a estratégia e sempre se adiantar, inventar as tendências ao invés de se moldar a elas.

Então, quando as pessoas começaram a passar noites em claro, Elias aposentou a escova de dentes. Na sequência, vieram as roupas. Por fim, a televisão. Inteligentíssimo, ousado e empreendedor, Elias prosperava. Centenas, milhares, milhões. Elias estava sempre um passo à frente, era quem abria a trilha rumo ao futuro. O mundo o proclamava ídolo, celebridade incontestável.

Elias adorava a mídia, embora não conseguisse se dedicar a ela. Seu tempo estava todo concentrado em obter mais tempo.

Porém, como nem tudo são flores – e as flores murcham depois de colhidas –, todos alcançavam Elias rapidamente e ficavam parecidos com ele. Qualquer um tinha as mesmas vantagens a oferecer. Ele ficou bravo. Entrou em depressão, quase enfartou. Como podiam copiá-lo assim, descaradamente? Precisava se diferenciar de alguma maneira, precisava de uma saída inovadora, uma nova ideia genial.

Então Elias deixou de comer.


Publicado originalmente em: CCSP

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

MUITO EXCESSO É DEMAIS


Monalisa aos doze anos de idade (1959), de Fernando Botero

Quando idealizei esta crônica, eu queria falar dos exageros do homem contemporâneo. Só que, na hora de colocar a ideia no papel, eram tantas analogias, referências e citações que não sabia nem por onde começar. Foi assim, por acidente, que também me descobri vítima desse mal. Um mal que nos obriga a saber tudo sem entender nada, a acumular amigos sem conhecer ninguém de verdade, a correr para cumprir missões que poderiam ser postergadas e a exigir informações cada vez mais objetivas. Pois, agora, qualquer tempo usado é tempo perdido.

O fato de ter chegado a este segundo parágrafo já faz de você um(a) vitorioso(a). Tenho certeza de que muitos começaram a ler e pensaram "isso não me interessa", passando rapidamente à próxima coluna, enquanto outros acharam "legal, vou guardar para ler depois" e jamais retornarão àquele velho recorte de jornal. É uma pena, porque vou falar de Epicuro, um interessante filósofo que viveu entre 341 e 270 antes de Cristo e que, naquela época distante, já sabia das coisas. Entre elas, como lidar com os exageros e onde encontrar a felicidade.

Você já deve ter visto por aí o termo "epicurista", embora provavelmente tenha uma noção errada de seu significado original. Fui consultar o dicionário e mesmo lá se usa "materialista" e "sensual" para defini-lo. Só que Epicuro não foi um homem banal, ainda que sua grande contribuição para a história tenha sido adotar o prazer como estilo de vida e, a partir dele, ter formulado seus conceitos filosóficos. "Não sei conhecer o bem", escreveu, "se reprimo os prazeres da mesa, da luxúria e da audição, e se me privo das agradáveis emoções causadas pela visão das belas formas".

Uma leitura superficial pode trazer mesmo a ideia de que a felicidade de Epicuro estava diretamente relacionada com a comilança, o sexo e a preguiça – é aí que tudo se confunde. Na verdade, poucos filósofos foram tão francos em admitir que a vida deveria se voltar ao prazer. Um número ainda menor se preocupou em desvendar o que seria esse prazer e como, em geral, ele é erroneamente associado com fama, poder e extravagâncias. Epicuro estava entre estes últimos.

A pergunta que direcionou todo o seu pensamento foi: "O que me fará feliz?" Ele sabia que a intuição não bastava para obter uma resposta consistente, porque não é realizando desejos como trocar de carro uma vez por ano, comer em restaurantes caros e se relacionar com o maior número possível de pessoas que se atinge a felicidade plena. Esta seria encontrada a partir de um esforço basicamente racional, ou seja, a tarefa da filosofia consistia em ajudar a interpretar nossos impulsos e, desse modo, evitar planos equivocados para a conquista de prazer. Em outras palavras, a felicidade viria da melhor compreensão de nossos desejos e necessidades, ao invés dos exageros que muitas vezes se impõem com a promessa de satisfação.

Para você ver como o termo "epicurista" é mal empregado, a casa do filósofo era simples, assim como sua comida. Não havia excessos materiais ou sensuais, como sugere o dicionário. A felicidade se justificava apenas com a presença de amigos e com a liberdade de agir sem vergonha de si mesmo, ou seja, sem a obrigação de provar nada a ninguém. A reflexão era seu único requisito para acalmar a mente e reconhecer o valor das coisas simples, como o alimento, a natureza e a tranquilidade. Sua filosofia era tão visionária que, já naquele tempo, se preocupava com o poder da propaganda. Para ele, a publicidade não influenciaria tanto nossas vidas se não fôssemos sugestionáveis em demasia.

O que me fez lembrar de Epicuro foram alguns fatos decorrentes dos últimos grandes eventos literários do país: a FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty) e a Bienal Internacional do Livro de São Paulo. Na primeira, ganhei um adesivo com os dizeres "Você pode ler mais". Na segunda, me deparei com uma coleção de livros assinada com as palavras de ordem "Leia mais". É verdade que, comparado a outros povos, o brasileiro lê pouco. Mas, vendo todo esse exagero que movimenta nossas vidas, fiquei me perguntando se essa seria a melhor abordagem para incentivar a leitura por aqui. É curioso como aceitamos passivamente essas mensagens, enquanto consideraríamos absurdo um "Você pode comer mais" nas embalagens do McDonald´s, por exemplo, ou um "Fume mais" nos maços de cigarro.

Não dá para levar tudo ao pé da letra, nem mesmo o epicurismo. Um exagero ou outro, aliás, pode ser saudável, porque é testando os limites que demarcamos a área mais segura para se habitar. Como disse um colega de trabalho, alguns excessos fazem parte, são eles que dão emoção à vida e que nos tiram da rotina. Só não podemos abusar sem considerarmos os ensinamentos daquela filosofia, que buscava na razão o sentido de nossos desejos e o equilíbrio verdadeiramente saudável. Pois, como meu colega disse, "a gente só quer ser feliz; porém, até mesmo quando o assunto é felicidade, muito excesso é demais". Percebi na hora que não haveria título mais apropriado para esta crônica.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

O MENINO QUE TOMOU UM ATALHO NA VIDA



Joãozinho era um menino que gostava de desenhar. Um dia, fez uma porta mágica com aquarela e nanquim, passou por ela e se transformou num cartunista famoso. Tinha apenas catorze anos.

Essa não é bem a história de João Montanaro, mas, se eu contasse a verdade, você provavelmente não acreditaria. Então vamos nos ater aos fatos:
1. João é um cartunista famoso;
2. Acabou de lançar seu primeiro livro;
3. Tem apenas catorze velinhas no bolo.

É do item número 2, chamado Cócegas no raciocínio, que quero falar, porque o resto é tão fabuloso que nem se discute. Bom, fiquei sabendo do caso pouco antes da Bienal do Livro de São Paulo e, como bateu aquela curiosidade, fui ao estande da Garimpo Editorial me informar. João não estava – já era hora de criança estar na cama. Conversei com o expositor e ele confirmou toda a história. Comprei um exemplar e fui ler com meus próprios olhos. Adorei.

Como se tivesse atravessado uma porta e chegado à maturidade, João apresenta um trabalho conciso e inteligente. Suas sacadas têm aquele teor crítico e sarcástico que faz das charges uma arte respeitável. O traço é solto e aparentemente despretensioso, e é esse “aparentemente” que o diferencia das meras ingenuidades infantis.



Li o livro inteiro numa só tacada e fiquei feliz por descobrir essa pérola – sem dúvida, foi um dos grandes destaques da Bienal. Trata-se de uma coletânea de tiras e charges publicadas em jornais e revistas relevantes, tais como a Folha de São Paulo e a MAD, além do blog Por João. Tem ainda uma história inédita e homenagens imperdíveis feitas por cartunistas do porte de Laerte e Adão, que se tornaram seus amigos.

Mas como é que ele conquista tanta gente? Talento e técnica à parte, João aproxima o leitor de seu universo fazendo piada do próprio processo criativo. De alguma maneira, ele nos permite conhecer sua intimidade e, como se emprestasse um lápis, nos deixa brincar também. Porque é uma brincadeira para ele, dá para perceber isso na espontaneidade de cada traço. Tomara que continue assim.

Os diálogos com os ídolos também são demais, dá vontade de participar daquele seleto grupo de escolhidos. Sem falar das referências que se descobre em cada tirinha. Nossa, o menino é um poço de cultura! Ouve Beatles em iPod, tudo junto, como se conhecesse as coisas do passado tão bem quanto as do presente. Parece ser mesmo muito mais vivido. Deve ter pego um atalho na vida.

Não vou falar mais para não estragar a piada ou contar o fim da história. Recomendo que todos leiam e tirem suas conclusões. Só queria aproveitar e dizer que, com esse livro, João Montanaro ganhou um fã, que agora quer um autógrafo. Vou correr para providenciá-lo, pois, se João continuar crescendo nesse ritmo, pode se tornar em breve um velho ranzinza à lá Crumb e me negar. Caramba!

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

O ÚLTIMO PIO DO ABAPORU


Abaporu (1928), de Tarsila do Amaral

Acabo de reler a matéria abaixo, publicada há quase 15 anos.
Vi o Abaporu no MALBA, em Buenos Aires, no março passado.
Ele mandou lembranças e disse que sente saudades.
Na realidade, o Abaporu nunca entendeu como os brasileiros o deixaram ser vendido. Ele também não se conforma.
"Me leve de volta", pediu.
"Não posso", respondi. "Meu dinheiro não move tantas montanhas".
O Abaporu chorou.
Uma brasileira se aproximou, comentou com o acompanhante que já tinha visto aquele quadro em alguma coleção de canecas e foi embora. Ela ainda me olhou estranho por conversar com a pintura.
Achou que eu falava sozinho.
Talvez estivesse certa.


Tela foi vendida em menos de dois minutos
Daniela Falcão, 22/11/1995 (Folha de São Paulo)

O quadro Abaporu, da pintora brasileira Tarsila do Amaral (1886–1973), que foi arrematado na noite de anteontem pelo colecionador e banqueiro argentino Eduardo Constantini por US$ 1,3 milhão, recebeu o maior valor já pago por um quadro brasileiro em toda a história. (...)

FREUD ESPIRRA

Um homem conversa com o psicanalista:
– Sabe, sou louco por símbolos, metáforas e mistérios.
– Sei.
– Só que ninguém me entende.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

A BIENAL QUE NÃO ESTÁ NAS PRATELEIRAS



É uma vergonha, eu sei, mas até o domingo passado eu nunca tinha ido à Bienal Internacional do Livro de São Paulo. O que mais me instigava era justamente o que mais desanimava: como aquele monte de gente conseguia ver os livros, coisa que demanda tempo, silêncio e atenção? Esbarrando-se uns nos outros? Acotovelando-se para abrir espaço? Tudo para passar os olhos numa capa ou, no máximo, ler as orelhas? Eu queria muito mergulhar no universo mágico das letrinhas, mas tinha um receio danado da multidão. E, no final, a visita sempre ficava para a próxima.

Imagine minha surpresa ao entrar no Anhembi e encontrar corredores tranquilos, estandes espaçosos e expositores cheios de atenção para dar. Era noite e fazia frio, muito frio, o vento congelava as extremidades do corpo e, em pouco tempo, perdi a sensibilidade do nariz. Mas tudo bem, quem se importa com nariz quando tem montanhas de livros pela frente? Bastaria uma caneca de chá e o empecilho estaria superado.

Passados alguns minutos, com o chá em mãos, comecei a perguntar mentalmente o que eu procurava ali. Porque não havia naquelas prateleiras nada muito diferente do que se encontra nas grandes livrarias da cidade. Afinal, ninguém mais segura uma publicação por até dois anos para lançá-la na Bienal, se é que já se fez isso algum dia. As palestras também tinham acabado, assim como as mesas de autógrafo. Comecei então a procurar descontos.

Algumas editoras eram pura tentação, tais como a Objetiva e a Alfaguara, que ofereciam boa parte do catálogo com até 50% de desconto. Outras, em compensação, estavam mais caras do que nas livrarias e, no geral, não vi vantagem. Nesse quesito, sou mais a Feira da USP, em que se vende tudo pela metade do preço usual.


Os grandes destaques da feira ficaram mesmo para os e-readers, que podiam ser experimentados no estande da Imprensa Oficial. O site de compras Submarino também compareceu – levou computadores ao invés de livros e as compras eram feitas pela internet, com descontos exclusivos.

Também tive a oportunidade de conhecer projetos sociais de incentivo à leitura, como o Ler é bom, experimente!, idealizado por Laé de Souza. Ele trabalha com estudantes de todo o país e os resultados são formidáveis, como o livro Melhores crônicas, volume 1, coletânea com cinquenta textos produzidos pelos participantes. O próprio Laé me contou, cheio de orgulho, que esses autores-mirins compareceram à Bienal para autografar os livros, alguns vindos de lugares tão distantes quanto o interior da Bahia. Vide a importância que a literatura tem para eles.


O cartunista João Montanaro em seu estúdio

Se fiz questão de comprar um livro, foi o Cócegas no raciocínio, de João Montanaro. O menino-prodígio de catorze anos, que já publicou no jornal Folha de São Paulo e na revista MAD, tem um trabalho maduro, inteligente e criativo, que acaba de ser lançado pela Garimpo Editorial. Trata-se de um apanhado de cartuns, complementado com material inédito. Dá uma inveja danada, queria ter eu esse talento desde cedo! Por isso, não pude deixar de prestigiar.

Terminei a visita junto com os expositores. Já era tarde, começaram a isolar os estandes e eu corri aos que ainda não tinha visto. Saí satisfeito, porém, com a sensação de que os livros ali são o que menos importa. Pois, com lançamentos que antes já se encontravam nas lojas, poucos descontos e ingresso e estacionamento caros, bacana mesmo é aquilo que não cabe nas prateleiras, como os debates, o contato direto com os autores e os projetos sociais. Isso sim torna a Bienal do Livro imperdível.



Site oficial da Bienal do Livro de São Paulo
Laé de Souza: Projetos de Leitura
Blog de João Montanaro: Por João

sábado, 14 de agosto de 2010

TRÊS VERSÕES DE UMA MESMA HISTÓRIA


O beijo (meu) (2007)

Eu caminhava aos tropeços pelas ruas de Paraty, indo e vindo com a sensação de estar sempre no mesmo lugar, contornando a multidão de frequentadores da FLIP. Foi quando vi a tal mulher. Ela falava com um policial e parecia aflita. Na mesma hora, pensei: "Que coisa chata, roubada bem aqui, num evento literário". O policial gesticulou, apontou para o lado da praia e falou alguma coisa. A mulher balançou a cabeça, positivamente, e se pôs a andar naquela direção. "Ah, era apenas um pedido de informação, não um roubo". Então a mulher parou e voltou atrás. Os dois se aproximaram e, num só impulso, se abraçaram e beijaram ardentemente. Um beijo de tirar o fôlego de qualquer um que estivesse observando.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

APROXIMAÇÕES E DESAFETOS ARTÍSTICOS


J. Miguel e Fabricio Lopez no ateliê de Bezerros, interior de Pernambuco (2010)

Às vezes a gente força uma aproximação entre obras pouco semelhantes e dá certo, veja só, porém muitas outras vezes não dá. Deste último caso, tenho dois exemplos recentes: a exposição Guignard e o oriente, no Instituto Tomie Ohtake, e Aproximações, xilogravuras de Fabricio Lopez e J. Miguel, na Galeria Estação, ambas em São Paulo.

Na primeira, a influência oriental sobre o pintor brasileiro aparece nas obras de maneira muito sutil, talvez na estilização das figuras, na relação pouco realista dos planos e na construção de amplas paisagens montanhosas. A arte e a cultura orientais, em especial chinesa e japonesa, atiçavam a curiosidade de Guignard e o levaram a colecionar uma porção de livros, utensílios domésticos e pôsteres. Só que sua pesquisa artística estava muito ligada à brasilidade mineira, às nossas festas míticas e à nossa natureza. Se existe ali algo de oriental, não passa de detalhes técnicos ou formais, de pouca relevância quando consideramos o lugar que sua produção ocupa na história da arte.


Paysage (1946), de Zhang Daqian e Noite de São João (1961), de Guignard

Quanto à mostra na Galeria Estação, podemos dizer que tudo começou com a vontade de experimentar. A ideia de unir dois gravuristas com estilos bem diferentes numa só exposição, um “regional” e outro “contemporâneo”, ditos “popular” e “erudito”, evoluiu para uni-los no ateliê. Assim, o jovem Fabricio Lopez tomou um avião rumo à pequena Bezerros, no interior de Pernambuco. Na bagagem, levou papéis de todo tipo, entre importados e raros. Além de trabalhar em conjunto, Fabricio tinha esperança de impressionar J. Miguel e transformar sua produção apresentando as novidades do mercado. A ilusão foi tão grande quanto o tombo. “J. Miguel não ficou exatamente empolgado com a possibilidade de produzir xilogravuras a quatro mãos”, escreveu o jornalista Humberto Werneck, que acompanhou a empreitada. Os papéis especiais de Fabricio tampouco tiveram utilidade naquele ambiente precário, onde ainda se empregam técnicas e maquinários antiquíssimos.

Em conferência na galeria, Fabricio confessou alguma arrogância não-intencional nessa sua atitude, pois queria levar a Bezerros a experiência adquirida na metrópole como se ela significasse um passo à frente na evolução da xilografia. “Fui com a ideia de que poderíamos produzir juntos e utilizar novos materiais. Foi ingenuidade de minha parte”.

Naquele duelo com a tradição, o artista residente em Santos, no litoral paulista, percebeu que tal evolução não existe. Com quatro décadas de prática e herdeiro de um hábito familiar que já dura muitas gerações, J. Miguel comprovou a excelência de sua arte, mesmo que jamais tenha pensado em arriscar o inusitado – como sobrepor imagens e cores, ou utilizar outros formatos ou papéis – ou negociar sua gravuras diretamente, ao invés de aplicá-las em subprodutos (cordéis, panos e artigos de decoração).


Xilogravuras realizadas em conjunto por Fabricio Lopez e J. Miguel (2010)

“O que estes dois estão fazendo juntos aqui?”, pergunta Humberto Werneck no catálogo da mostra. “A não ser pela arte a que se dedicam, pouca coisa têm em comum”. É fato que essa disparidade de mundos, incluindo aí localização, idade e cultura, revelou-se uma barreira muito mais desafiadora do que se imaginava. No entanto, nesse e também no caso de Guignard, a tentativa é válida, claro. Comparar trabalhos com objetivo de descobrir aspectos comuns, gerar conhecimento e possibilitar novas leituras é, em parte, o que mantém viva a arte do passado e o que cativa a do presente. Pois é a disparidade que nos permite perceber o novo, assim como é o desafio que nos permite criá-lo. Sendo o resultado positivo ou negativo, ele não invalida o resto do processo, e muitas vezes é a isso que precisamos nos atentar.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

OS "PENGUINS" APORTARAM EM PARATY



A FLIP deste ano não trouxe muitas novidades, como já disse em texto anterior. Debateram o futuro do livro de papel, comentaram a obra de alguns autores das antigas e homenagearam – com razão – o grande Gilberto Freyre. Só que isso tudo já tinha sido feito antes. Agora, o que me deixou realmente feliz foi ver o estande da editora Penguin, famosa por publicar clássicos da literatura com preços acessíveis. O melhor: os livros estavam em português!

Trata-se de uma parceria com a Companhia das Letras e, por enquanto, apenas quatro títulos foram publicados. Mas é emocionante ver aquelas capas tão características da Penguin com títulos escritos em minha língua natal.

Acesse o site da editora e fique feliz comigo!

FICÇÕES_GABRIEL BÁ NA FLIP

Essa história foi escrita e desenhada por Gabriel Bá com exclusividade para a FLIP, com objetivo de divulgar o selo Quadrinhos na Companhia, da editora Companhia das Letras. Ela foi distribuída lá gratuitamente e resolvi reproduzi-la aqui para dividir com você, porque achei muito bacana. Clique nas imagens abaixo para ampliá-las e descobrir como a ficção e a realidade se misturam nessa dádiva chamada literatura.


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terça-feira, 10 de agosto de 2010

INTELECTUAIS TAMBÉM FAZEM XIXI FORA DO VASO



Em sua oitava edição, a FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty) continua batendo recordes, seja de visitantes, velocidade de venda de ingressos ou reconhecimento internacional. Estive lá no último sábado para respirar aqueles ares e assistir ao debate entre Robert Crumb e Gilbert Shealton, dois quadrinistas da dita contracultura americana. Foi minha segunda FLIP – já tinha participado em 2008 – e foi diferente, claro, as coisas mudam bastante e em pouco tempo. Sabe o que mais chamou minha atenção? O lugar que a literatura perdeu para as outras atrações.

Sim, na primeira vez, Paraty cheirava a livros, via-se papel pólen por toda parte, jornais e revistas abertas, leitores ávidos por exercerem sua função e exibir os títulos favoritos pelas ruas. Lia-se até manual de instruções e direito autoral de cardápios. Havia também escritores inéditos em busca de editoras, outros vendendo livros publicados do próprio bolso, gente de todo o país divulgando trabalhos como verdadeiros mascates. Só que agora não. A cidade estava abarrotada, é verdade, mas de seguranças, artesãos, camelôs, violeiros, índios, estátuas vivas, fotógrafos, jornalistas, celebridades e curiosos tarados por muvuca. A FLIP agora é pop, sabe, todo mundo quer dizer que esteve lá pagando de intelectual, mesmo que o último livro lido tenha sido da Coleção Vagalume, no ensino fundamental.

Nada contra, claro, a participação é direito incontestável. Só que os números preocupam e, como disse, a FLIP não para de bater recordes. Os restaurantes, por exemplo, não davam conta dos clientes – meu almoço demorou uma hora e meia para chegar. Folhear um romance entre bebericadas de café também era um prazer impraticável, porque as mesas estavam sempre ocupadas e a espera era longa. E os banheiros... esse foi o capítulo verdadeiramente tenso da história, pois toda a água, cerveja e refrigerantes consumidos pelos milhares de visitantes terminavam num reduzidíssimo número de banheiros químicos – falha grave da organização que vai marcar minha biografia para sempre.

De resto, posso dizer que as lojas de cachaça, miçangas e bugigangas estavam bastante concorridas – talvez até mais do que os banheirinhos de plástico –, assim como as festas dos patrocinadores. A única livraria do centro histórico, no entanto, fechou. Livro mesmo, só na unidade temporária da Livraria da Vila, com sede em São Paulo, que montam lá durante esses dias. E depois? Os autores se vão, os volumes se vão e os leitores que sobram ficam órfãos. Muito triste.

Agora, se as exposições de fotografia, artes plásticas e manifestações literárias passavam despercebidas nas instituições culturais, a programação da Flipinha e da FlipZona (para crianças e jovens) arrasou, positivamente falando. Tinha música, pintura e quadrinhos, além de contação de histórias e discussões na língua da moçada. Tenho certeza de que eles se divertiram à beça. Assisti à apresentação de dois jovens músicos da região, que tocaram canções criadas ali mesmo, pelas gerações passadas, e à palestra de Sérgio Martinelli, sobre produção de textos para cinema e TV. Ambas com gente em pé, de tão cheias.

O debate entre Crumb e Shealton foi morno, quase frio, com perguntas genéricas a respeito da época de ouro deles e respostas prontas que se encontra em qualquer entrevista concedida nos últimos quarenta e cinco anos. Eu queria saber a opinião deles sobre as produções contemporâneas, próprias e alheias, e os fãs estavam tão ansiosos quanto eu; porém, exceto por breves comentários acerca das obras recém-publicadas e pela participação inesperada da esposa – também quadrinista – Alice Crumb, pouco se salvou. Dava para perceber a decepção geral pelos murmurinhos na saída.

Mas, como o nome diz, a FLIP é uma festa, não uma feira, e foi divertida como toda festa deve ser. Não quero você pensando que odiei, muito pelo contrário, não tem como odiar Paraty, a não ser que se esteja em cadeira de rodas. A comida estava boa, as pessoas pareciam felizes e a movimentação era, de alguma maneira, cultural. Talvez a falta de estrutura tenha se mostrado apenas no sábado, quando aparece mais gente. Não pude ficar no domingo para averiguar, já que escolheram bem o Dia dos Pais para finalizar o evento – sabe como é, não dava para trocar o almoço com o meu por um Breakfast at Tiffany´s.

Em resumo: não consegui nenhum autógrafo, não adquiri nenhum livro e praticamente não escrevi. Confesso que dei minhas escorregadas não-literárias e comprei lembrancinhas para a família, tudo por culpa daquelas lojinhas charmosas. Tampouco descobri grandes novidades do universo das letrinhas, embora tenha constatado nos banheiros químicos que intelectuais também fazem xixi fora do vaso e, quanto a isso, só posso agradecer por ter nascido menino.

Ao mesmo tempo em que o excesso de celebridades e assuntos aleatórios me incomodou, eles significam que a FLIP têm obtido sucesso e nos resta apenas engoli-los. Afinal, realizações desse porte os atraem, invariavelmente. O ciclo continua, pois os hotéis já estão sendo reservados para a próxima edição. Quem devora livros e não aguenta esperar, pode matar a fome na Bienal de São Paulo, que está começando. Por sua vez, quem adora aquela cidade, encontra em setembro o Paraty em Foco, importante evento de fotografia. Eu, por minha própria vez, vou tirar uma folga e ler a montanha de panfletos, revistas e jornais que acumulei pelo caminho. Haja literatura!


[Também publicado (com algumas modificações) em Colherada Cultural]

LE CAFE

Estresse, correria e pausa(?) para o café. Tudo nessa ótima animação francesa.
(é curtinha, não se preocupe, dá para assistir agora)


Stephanie Marguerite & Emilie Tarascou / music Oldelaf & Mr D / France / 2007

domingo, 8 de agosto de 2010

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

JOSÉ, O CÃO, A ÁRVORE


Menino sentado (1945), de Cândido Portinari

Havia um homem que, também neste como em muitos outros contos, se chamava José, José Maria, irmão de Maria José, irmão de Jesus José-Maria, que não tinha sobrenome porque nada se sabia de seu pai ou dos pais de seus irmãos. Pois é, ao que parece, cada cria tinha o seu, já que iam do branquinho ao moreninho como cocada e pão francês, mas a mãe jurava de pés juntos que todos eram filhos de Deus e de ninguém mais, assim como juravam as mães da maior parte das crianças do morro. Em algum momento passou pela cabeça do menino que Deus deveria ter muito tempo livre para fazer filho daquele jeito, mas o pensamento se perdeu nos terrenos ermos da sua humildade. E assim ele cresceu, sem graça maior que coubesse nessas linhas. Espichou, esticou, ficou grande e só. Viveu no mesmo barracão sem número a vida toda, no mesmo morro, assim, sem mais nem menos. Um dia, morreu Jesus num tiroteio e José enterrou. Noutro, morreu a mãe de dor forte e José enterrou também. Então, quando a irmã casou com um outro José do morro vizinho e se levou com ele para lá, sobrou o barracão e sobrou este José, sozinho em seu canto, com os mesmos olhos vazios de sempre, a ver o nada acontecer. E, de nada em nada, foi indo. Não falava, não rezava, não trabalhava, não comia, não bebia, não ria ou se divertia, não amava, não xingava, não participava, nada, uma vida livre de excessos. José apenas existia. Caminhava de manhã cedinho pelas oscilações do morro e voltava a casa para restar a ver o nada. A vida ia e o José ficava. Mas, lá pelas tantas, quem diria, um cachorro apareceu no barracão, saído sabe-se lá de onde. Foi chegando, achou um pano velho na soleira da porta de entrada e ali ficou deitado, caído, largado, sei lá; também fazendo nada e fazendo tudo para que José desviasse dele todas as manhãs antes do seu passear. A criatura achara um irmão exatamente como ele. Será? José pulava e slap, slap, chinela de dedo, sola grossa, artigo bom que herdara de Jesus e que levava para cima e para baixo, sobe e desce morro, escada, vala, pinguela, indo e voltando, sem rumo maior que isso, ir e voltar, slap, slap, e o bichano, quem diria, vinha atrás, pata ante pata, orelha alerta, focinho fungando morro acima e morro abaixo. Slap, slap. O homem reaprendeu a falar, coisa que não fazia desde quando? desde sempre? Au, au, slap, slap, arf, arf, a conversa engatava e não parava mais, nem para pegar um fôlego aqui e outro ali, olhe lá, era fraternidade, José sentia, fraternidade, rabinho balançando, língua para fora, chinelas em ritmo de alegria. Os dois saíam cedinho e voltavam só de tardinha, todo dia o mesmo caminho, sem mudar para não embananar a cabeça. José ia de vara na mão para educar, quisera ele, mas o bicho era mais manso que o galho e o homem não precisava fazer cantar não, não se faz isso com família. Slap, slap, arf, arf, inham e vinham os dois. E foram indo, foram indo. Um dia, mais pra frente, tinha uma coisa nova no caminho, uma muda de folha larga que plantaram sabe-se lá quem e de que José queria fruta e de que o cão queria privada e lá já foi mijar. Foi essa então a primeira vez que a vara zap, slap, slap, au, au, slap, slap, arf, arf. Mijaí não, bicho. Deixa a planta em paz. É presente de Deus-Pai. E todo dia os dois chegavam na planta, José para imaginar fruta, o cachorro para mijar, slap, slap, au, au, zap, slap, slap, arf, arf, e a planta crescia e as chinelas gastavam e o homem curvava e o bicho mijava e a vara cantava e a planta crescia meio torta de tanto mijo fedido que o bicho dava. José esperava e esperava. Uns tempos depois, demorados, José já ia devagar, slap...slap, e o cachorro deu de cavar a muda, que já era arvorezinha, raquítica, sofrida, torta, e o velho tapava os buracos que ele fazia e que da planta judiavam ainda mais. Do jeito que ia, não ia dar fruta. Cava, cava, o bicho corria na frente, slap...slap, mija, zap, au, au, slap...slap, arf, arf. A planta cresceu fraca de tanto o bicho chafurdar a terra de seus pés. José tinha dó, e dó do bicho, e dó da planta. Zap. As chinelas afinavam. Árvore grande, Deus-Pai. Cadê as fruta? As caminhadas continuavam, dia a dia, até os dois serem surpreendidos por um chuvão que doía de tanta força e tanto vento, cada gota que lavava tudo que vinha embaixo!, e eles, banhados, corriam na rapidez das chinelas gastas de José, com cuidado aqui e ali para não escorregarem na lama dos degraus. O cachorro ia, sumia no desespero, voltava, latia, sumia de novo, apressava o velho, maldito, volta aqui, o santo é de barro e o barro é mole. A chuva não parava não, quem dera, a água não acabava mais. José precisava se proteger, slap...slap, para baixo da árvore que é mais seguro, dá de molhar menos, e ninguém bem fedia naquele dia, nem árvore nem cachorro, tamanho era o dilúvio. O velho enrrugava ainda mais. Berrava com o cão. Fica quieto, porquera. Aqui debaixo é melhor. Dá-lhe água, vento, folha, galho, telha. Era telha, bicho? Os dois nos pés da planta, que balançava e pelava, magra que era de mijo e de buraco. E não é que no meio da rinha, num sopro mais forte, ela resolveu partir e veio abaixo na cabeça de José, no meio do coco, que não agüentou o tombo e foi ao chão para não levantar mais. Pois ali ficou o velho, caído, com o cão a gemer e a lamber a água e o sangue ralo de seu rosto, sem nunca ter comido fruta daquele pé, caído e lambido do jeito que o acharam no dia seguinte, todo molhado por fora e seco por dentro. A irmã ficou sabendo. Foram lá perguntar o que fazer. Enterra, ué. Deixa ele encontrar o pai, vai saber, era bom o coitado, nunca fez mal a ninguém. Tava sempre batendo perna pelo morro e só fazia disso. Até mesmo enterraram o velho com as chinelas! E o cachorro voltou para casa, na soleira do barracão. No final das contas sobraram só os dois, o bicho e o barracão, sem José e sem árvore, e ainda ele caminhava pelo morro, pois é, mas fazia outro caminho para esquecer o slap, slap de José. O bicho dava dó e tinha dó também. Dó do velho que existia mas não vivia, como árvore, crescendo parado, só esperando as frutas surgirem. E dó da árvore, naquele lugar árido, que mal crescia e já estavam de olho no que tinha para dar. Dos zinhos do morro, os mais abusados se perguntaram se o cachorro sabia, se fez aquilo de propósito. Se derrubou os dois do sofrimento do morro, mijada mais mijada, buraco mais buraco. Se foi a causa. Se fez para ajudar. Porque achava melhor assim. Vai saber. O velho José não ligaria não, acabar com o nada da sua vida, não ficaria mais triste. Era bom. Deixa o cachorro em paz. Ele é esperto, o bichano. Sabe o que faz. Deixa ele caminhar e mijar num lugar melhor. José viveu ali tempo demais.

Agosto de 2007

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

TEATRO ABSTRATO



É realmente difícil descrever o espetáculo Shi-Zen, 7 cuias, encenado domingo passado pelo grupo Lume no Tuca (PUC/SP). Foi o último evento da chamada Casa Lume, que celebrou os 25 anos do grupo com uma intensa programação cultural. E não poderia ter sido melhor.

Assistir àquela peça é mais ou menos como contemplar um quadro abstrato. Não há narrativa, não há começo, meio ou fim. Não há diálogos – exceto por um, realizado com gritos musicais e gemidos inconformados, todos em claro japonês inventado. São apenas sensações, metáforas e muitas sugestões.

E tema? Tem? Tem. Fala de arquétipos, mitologia, nascimento e morte, ascensão e queda, comportamento social, desamparo, esperança, natureza e daí por diante. Deve falar de muitas outras coisas também, sabe por quê? É uma peça difícil de definir, como já disse. Não tem certo ou errado, tem apenas metáforas sobre a vida, cada um as entende como quiser.

São metáforas ricamente interpretadas. A sutileza dos movimentos nos carrega para outros planos, assim como a intensidade das músicas. Os sete atores do grupo se completam e se superam a cada cena. E elas demoram, nossa, como demoram! Muitas vezes levam minutos inteiros para realizar atos praticamente imperceptíveis, porém essenciais: é essa demora que nos permite deixar a ansiedade de lado e adentrar o novo mundo.

A coreografia foi desenvolvida em parceria com japonês Tadashi Endo e tem base em seu elegante e minimalista Butoh-Ma. A inspiração oriental aparece aí e em muitos outros cantos, a começar pelo nome: Shi (indivíduo), Zen (como exemplo) e Shi-Zen (natureza).

O espetáculo é uma verdadeira experiência de vida. Nos leva ao riso, às lágrimas, à raiva, à tensão e à apatia. Tudo está presente em sua forma mais pura: aquela que não tem forma de nada, exceto de sentimento. É a essência daquilo que gera todas as outras histórias, uma versão primordial do homem e do mundo. Difícil de definir, eu sei, mas é isso aí. Melhor é ver com os próprios olhos. E com a cabeça aberta.



Mais informações: Lume Teatro

AS GAROTAS DO CALENDÁRIO

Essas fotografias foram feitas por alunos da Brother ad School, de Buenos Aires, para uma campanha de Match Box (carrinhos em miniatura). Vistas como propaganda, são coisa boba, mas como arte... dão o que falar.

domingo, 1 de agosto de 2010

PÁGINAS AMARELAS

Eu estava lendo uma coletânea de contos do Hemingway e faltava pouco mais de trinta páginas para terminar o primeiro volume. Fui almoçar sozinho num café perto do escritório, comi um sanduíche de qualquer coisa, pedi uma bebida gelada e meti os olhos no livro. Fazia, calor, muito calor para o inverno paulistano, e o sol brilhava forte lá fora. Dei sorte de conseguir a melhor poltrona do lugar, que fazia par com uma pequena mesa redonda de madeira, ao lado da porta. As pessoas entravam e saíam o tempo todo, lembro de ter me surpreendido com aquele movimento e imaginei alguma relação com o dia de sexta-feira. As sextas-feiras têm uma atmosfera diferente, a gente se permite o luxo de aproveitar um pouco mais a vida, estender a hora do almoço, caminhar lentamente pelas ruas ou bater papo no café.

Eram pensamentos de segundo plano, desses automáticos que se formam sem a gente perceber e sem entender os porquês. A leitura provoca isso em mim, me faz desviar o foco e perceber a realidade como se a estivesse ouvindo na sala ao lado, ou vendo-a refletida num espelho, estando ali sem estar de verdade, entende? Meu senso crítico abaixa a guarda e já não importa mais quem sou, o que sou ou como devo agir. Faço-me finalmente personagem da história alheia.

Só me dei conta do horário quando a garçonete tropeçou numa ponta solta do carpete, perdeu o equilíbrio e deixou um copo cair da bandeja. Era um daqueles copos altos em que servem soda italiana, todo chanfrado, meio retrô. Gosto desses copos. Ele se espatifou em milhares de pedacinhos brilhantes, provocando um silêncio súbito que só foi interrompido pelo ralhar histérico da gerente. "Vamos, não fique olhando com essa cara de tonta, pega a vassoura e limpa essa bagunça. Vai, vai, vai!"

A garçonete pareceu desconcertada por alguns instantes, até que abaixou a cabeça e sumiu cozinha adentro. A patroa não parecia contagiada pela síndrome das sextas-feiras. Fez questão de deixar à mostra todas as suas linhas de expressão enquanto a empregada retornava com um esfregão e enxugava o terrível desastre.

Isso tudo aconteceu exatamente quando eu terminava de ler o penúltimo conto, "Vinho do Wyoming". O copo quebrado cortou a suspensão de meus pensamentos, olhei o relógio e resolvi voltar ao escritório. A bebida tinha esquentado e, de qualquer maneira, não daria tempo de terminar o livro.

Devolvi o marcador de páginas ao seu lugar, recoloquei os óculos de sol no rosto e caminhei de volta sentindo o doce aroma do fim de semana se aproximando. Apenas mais algumas horas e eu estaria livre, com a batalha ganha. Tentei repassar mentalmente os contos recém-lidos, só que eles já estavam ocultos pela névoa espessa do mundo banal.

Foi então que deparei com uma cena lírica, que veio caminhando lentamente pela calçada até mim, a despeito do tráfego esquizofrênico da rua. Um bairro movimentado, entenda, cheio de prédios que não combinam nada com aquela casinha antiga de paredes vermelhas e rococós brancos, térrea, com um gramado ralo na frente e uma roseira seca no centro. Vidro texturizado na janela da sala, treliça de ferro descascada, alpendre. Provavelmente havia um poço cimentado no quintal dos fundos, escondido sob uma série de varais de arame. Quase na calçada, no lugar onde caberia um carro, sentada numa cadeira de balanço a apenas alguns metros do mundo contemporâneo, estava uma senhora de idade avançada, magrinha, de agasalho e com os cabelos escassos e amarelados presos para trás num coque, a cabeça baixa e o rosto todo dobradinho sobre si mesmo. Em seu colo, envolvido por longos dedos deformados pela artrose, havia um livro, provavelmente tão velho quanto a dona, as páginas amarelas e cheias de manchas. Em sua inércia, compartilhando sozinhos uma unidade de tempo particular, ambos pareciam se completar.

Fiquei pensando no que a velhinha estaria lendo. Após tantos anos de vida, o que o livro teria de interessante para contar? Será que ele permitia à dona sair por aí, caminhando livremente, fora do trilho que as calçadas altas lhe impunham? Ou seria aquele livro seu último elo com o passado, as páginas amarelas que ocultavam a realidade atualizada do entorno e mantinham as memórias vivas, o poço do quintal aberto, a roseira florida?

A velhinha parecia abandonada ao sol. Morava sozinha? Fiquei pensando em seu pai, mãe e irmãos comendo mexericas na mesa da cozinha, cuspindo as sementes numa tigela coletiva. Pensando nos passeios pelos antigos descampados da cidade, ali mesmo, naquele bairro. No dia em que conheceu o marido numa quermesse de São João, brincando ao redor da fogueira. O casamento, a casa simples, térrea, com as paredes vermelhas e rococós brancos, tijolos levantados um a um. A fome ocasional e as brincadeiras inocentes. Fiquei pensando no primeiro filho, homem para agradar ao marido; no segundo, homem também; e na caçula, menininha excessivamente protegida por todos os outros. Fiquei pensando no dia em que percebeu que não teria mais filhos, no dia em que os nascidos saíram de casa, em que perdeu a vontade de cozinhar sempre a mesma comida, dia em que a quitanda virou supermercado e o dono, seu Manuel, sumiu. Quando derrubaram a casa do vizinho, tão agradável que era, e fizeram uma loja no lugar. No dia em que se deu conta de que não conhecia mais ninguém do bairro, que milhares de transeuntes passavam pela calçada de sua casinha, ela os observando por trás do vidro da janela. Estranhos. Pensei no dia em que enterrou o marido, os filhos ficaram um pouquinho e foram chamados de volta às suas próprias vidas. No dia em que percebeu que não sabia usar nada do que via por aí, celular, computador, carros flex. Não sabia nem mesmo para que serviam. No dia em que as frutas e os legumes e as verduras perderam o gosto, e ela não sabia se era culpa deles ou de sua língua gasta.

Então um dia ela despertou às cinco da manhã ouvindo o galo que já não existia há décadas, passou café no coador de pano e comeu torradas com manteiga. Chacoalhou a toalha no quintal e olhou para o céu procurando pardais. Vieram pombos, só que ela já tinha entrado de volta e não os viu. Varreu a casa até sentir as costas doerem, coisa que não demorou muito, então repousou na frente da TV até perceber que era melhor preparar o almoço. Comeu antes do meio-dia, lavou a louça, colocou-a de lado para escorrer o excesso de água, enxugou-a com um pano, devolveu tudo aos armários de origem e pendurou o pano num dos varais de arame do quintal. Ela ainda teria uma longa tarde para enfrentar e precisava de algo que distraísse o tempo. Escolheu um livro entre os poucos que ficavam na prateleira da sala, logo acima do rádio e abaixo dos portarretratos, um livro de páginas amarelas que já tinha sido lido milhares de vezes, e com muito esforço o arrastou até o sol que batia na frente da casa. Colocou os óculos, a cordinha oscilando nos cantos, e se acolheu ao lado da roseira seca, apenas aguardando que a natureza as consumisse de vez. A história era tudo que lhe restava. Fiquei pensando nela e numa porção de coisas assim, e me esqueci do fim de semana que se aproximava. Também me esqueci dos contos do Hemingway que precisava terminar de ler.